Sua Alteza Real Princesa Abze Djigma, do Povo Mossi de Bukina Faso, Visita Casarão Cândido Mendes: ‘Não Podemos Permitir que as Cidades Sejam Esvaziadas de Seus Verdadeiros Cidadãos’

Princesa Abze Djigma (ao centro) em visita ao Casarão da Cândido Mendes em Santa Teresa. Na foto, alguns moradores e professores da PUC-Rio que acompanharam a visita ao antigo hotel, hoje, ocupado por 64 famílias. Foto: Bárbara Dias
Princesa Abze Djigma (ao centro) em visita ao Casarão da Cândido Mendes em Santa Teresa. Na foto, alguns moradores e professores da PUC-Rio que acompanharam a visita ao antigo hotel, hoje, ocupado por 64 famílias. Foto: Bárbara Dias

Moradores do Casarão da Cândido Mendes, em Santa Teresa, na região central do Rio de Janeiro, receberam uma visita ilustre, no dia 7 de maio, da Sua Alteza Real Princesa Abze Djigma, de Burkina Faso, país do Oeste da África.

A visita se deu para conhecer os moradores e a história por trás da ocupação. Em sua passagem pelo Rio, a princesa também visitou a favela da Rocinha, e realizou uma palestra que inaugurou o Hub de Sustentabilidade e Resiliência Urbana em Engenharia (SURE), em parceria com a Universidade das Nações Unidas (UNU), na PUC-Rio.

Abze Djigma é conhecida internacionalmente por seu trabalho com as temáticas de justiça climática e inclusão social. Já esteve no Brasil antes, inclusive participando da COP30 em Belém em 2025. É uma liderança na articulação de soluções para países do Sul Global, especialmente relacionadas ao desenvolvimento sustentável, energia e clima. 

Descendente da Princesa Yennenga, figura histórica para a formação do povo Mossi, Djigma carrega em sua ancestralidade a força dessa grande guerreira. De uma forma diferente, porém não menos importante, ela tem uma trajetória de luta por justiça socioambiental. A partir do seu trabalho, criou a fundação que leva seu nome, a H.R.H. Princess Abze Djigma Foundation, cuja missão principal é melhorar a vida das mulheres e jovens. 

No terraço do Casarão da Cândido Mendes, a Princesa Abze Djigma ressaltou a importância de preservar os moradores na ocupação: 'Não podemos permitir que, como acontece em tantas capitais, as cidades sejam esvaziadas de seus verdadeiros cidadãos. Quando os moradores vão embora, a alma da cidade vai junto.'. Foto: Bárbara Dias
No terraço do Casarão da Cândido Mendes, Princesa Abze Djigma ressaltou a importância de preservar os moradores na ocupação: ‘Não podemos permitir que, como acontece em tantas capitais, as cidades sejam esvaziadas de seus verdadeiros cidadãos. Quando os moradores vão embora, a alma da cidade vai junto.’ Foto: Bárbara Dias

Acompanhada por professores da PUC-Rio, a princesa chegou na tarde de quinta-feira, 7 de maio, no Casarão Cândido Mendes para conhecer a história e luta dos moradores. A maioria reside há mais de 30 anos no imóvel e busca que ele seja reconhecido pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) como moradia de interesse social, conforme publicado recentemente pelo RioOnWatch.

O professor Daniel Cardoso, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da PUC-Rio, presente na visita ao Casarão, enfatizou que a abordagem dos aliados técnicos na ocupação é interdisciplinar, apoiando os moradores em aspectos jurídicos, sociais, ambientais e estruturais. Ele acredita que a visita da princesa à ocupação pode “trabalhar o problema do casarão no contexto da recém assinada e lançada Universidade das Nações Unidas e do HUB de Sustentabilidade e Resiliência Urbana em Engenharia, contando com o apoio e articulação da princesa, que é consultora e tem uma relação próxima com a UNU e com a própria ONU.”

Ao chegar ao Casarão, Abze Djigma foi recepcionada por uma comitiva de moradores, que apontou os aspectos históricos e sociais da luta deles por moradia. Foram contextualizados os problemas estruturais e as dificuldades de diálogo com o governo e a SPU.

Princesa Abze Djigma visita apartamento do morador Joel Antunes, que é fluente em francês. Ele foi um dos moradores que mais interagiu com a princesa e apresentou a ela o Casarão, além da vista da cidade. Foto: Bárbara Dias
Princesa Abze Djigma visita apartamento do morador Joel Antunes, que é fluente em francês. Ele foi um dos moradores que mais interagiu com a princesa e apresentou a ela o Casarão, além da vista da cidade. Foto: Bárbara Dias

Um dos moradores que abriu as portas de sua casa para a princesa foi o senhor Joel Antunes, fluente em francês. Ele apresentou o imóvel e a vista do terraço.

Solidariedade Internacional como Ferramenta de Luta

Lucinalva de Sousa Santos, moradora desde 1997 e Conselheira da Associação de Moradores do Casarão, analisou a visita da Princesa Abze Djigma como importante para a luta pela permanência:

“O que dizer do privilégio de ter Sua Alteza Real Princesa Abze Djigma no nosso casarão? Representatividade muito grande, importantíssima para nossa luta. Um ícone da raça negra, que é a grande maioria [de pessoas] aqui no nosso casarão. Muita gratidão pela visita, muita gratidão pelas pessoas que foram o instrumento para trazer essa visita maravilhosa. Eu espero que a visita da Princesa Abze consiga levar o que está acontecendo conosco adiante e que também seja algo que ela possa carregar como bandeira. Que através disso venham ONGs e outros colaboradores para nos ajudar nessa luta que está muito grande.” 

Andreia Brasil, empreendedora, embaixadora do Mães Negras do Brasil e filha de uma moradora do Casarão, Dona Valquíria Brasil, com quem trabalha num ateliê de bijuterias com temática africana Afrokiry, quando soube da vinda da princesa, quis lhe dar um abraço e um presente.

“Eu fiquei muito lisonjeada em saber que uma princesa da África, da minha terra ancestral, estava em visita ao meu país e naquele casarão em que residem famílias que precisam de muita ajuda. Decidi presenteá-la com um colar feito à mão por mim. Dei a ela e ela prontamente tirou o dela e colocou o meu. Foi muito receptiva. Mesmo não falando a minha língua, nem eu a dela, a gente conseguiu ter uma comunicação incrível. Ela foi muito educada, muito querida.” – Andreia Brasil

Princesa Abze Djigma recebe um abraço de Andreia Brasil Dorneles, que trabalha com confecção de bijuterias de temática africana. Foto: Bárbara Dias
Princesa Abze Djigma recebe um abraço de Andreia Brasil Dorneles, que trabalha com confecção de bijuterias de temática africana. Foto: Bárbara Dias

Para Maíra Martins, professora do Departamento de Arquitetura da PUC-Rio e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Projetos e Práticas Colaborativas de Interesse Social (COLABIS), a visita tem desdobramentos que vão além da divulgação da situação do Casarão.

“A fala da Princesa Abze Djigma é importante não só por divulgar a luta dos moradores do Casarão do Hotel Moderno, mas também por trazer à tona a discussão sobre as dinâmicas humanas de segregação socioespacial no Rio de Janeiro. E o que ela está apontando é um processo histórico que se reproduz na cidade há bastante tempo. E é um processo que também pode ser observado em outras capitais do mundo: um processo de valorização de determinadas áreas e a consequente expulsão dos moradores mais vulneráveis dessas áreas quando elas começam a ser valorizadas.” — Maíra Martins

Ao final da visita, no terraço que possui uma vista ampla para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, a Princesa Abze Djigma fez uma fala sobre a importância das pessoas lutarem contra a gentrificação e a especulação imobiliária nas grandes cidades.

“Estamos aqui em uma área que desperta o interesse de investidores. Este é um antigo hotel, o Hotel Moderno, que foi abandonado. Os moradores ocuparam o espaço e querem que a Prefeitura faça algo para garantir que possam permanecer aqui. Não podemos permitir que, como acontece em tantas capitais, as cidades sejam esvaziadas de seus verdadeiros cidadãos. Quando os moradores vão embora, a alma da cidade vai junto. O que faz o Rio ser o Rio é o povo carioca, o samba, a dança, a vibração. Mas, se não cuidarmos dessas pessoas, toda essa energia que faz as pessoas virem ao Rio vai desaparecer.” — Princesa Abze Djigma

Veja Mais Fotos no Álbum:

Princesa Abze Djigma visita ocupação Casarão Cândido Mendes, Santa Teresa, Rio de Janeiro, 07 de maio de 2026

Sobre a autora: Bárbara Dias, cria de Bangu, possui licenciatura em Ciências Biológicas, mestrado em Educação Ambiental e atua como professora da rede pública desde 2006. É fotojornalista e trabalha também com fotografia documental. É comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e co-fundadora do Coletivo Fotoguerrilha.


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