Ocupação Casarão Cândido Mendes, em Santa Teresa, Reivindica Direito à Permanência e Diálogo com Secretaria de Patrimônio da União: ‘Aqui É o Meu Berço da Vida’

Casarão da Cândido Mendes, em Santa Teresa, é uma ocupação onde moram 64 famílias desde os anos de 1990. Foto: Barbara Dias
Casarão da Cândido Mendes, em Santa Teresa, é uma ocupação onde moram 64 famílias desde os anos 1990. Foto: Barbara Dias

Moradores do Casarão da Cândido Mendes em Santa Teresa, região central do Rio de Janeiro, enfrentam risco iminente de reintegração de posse, que levará ao despejo, após uma obra contratada pela Secretaria de Patrimônio da União (SPU) ter causado danos em uma viga de sustentação do imóvel. Construído em 1914 como hotel de luxo, o prédio já foi também convento de freiras e, desde os anos 1990, foi ocupado como moradia popular, abrigando, em sua maioria, ex-trabalhadores do convento e trabalhadores informais

Moradores, aliados técnicos (advogados, arquitetos e professores da UFRJ, UFF e PUC), Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro e Procuradoria da República, no entanto, contestam que haja necessidade de remoção. Segundo atestam laudos, obras emergenciais são necessárias no prédio para assegurar a permanência das famílias em suas casas com segurança.

Reparação: Prédio Histórico Hoje Serve como Moradia de Interesse Social

O Casarão da Candido Mendes já teve vários usos ao longo de sua trajetória. Inicialmente construído para ser um hotel internacional de luxo, o Hotel Moderno, nos anos de 1940, foi incorporado ao patrimônio da União graças a dívidas dos antigos donos. Em 1952, foi cedido para ser uma filial da Ordem Nossa Senhora da Santíssima Trindade, que, quando deixou o prédio, passou a cessão do imóvel para os trabalhadores da Ordem que ali moravam.

Dona Francisquinha é a moradora mais antiga da ocupação. Com 95 anos, ela mora há 37 anos no local, desde 1989, e é uma das trabalhadoras da época das freiras:

“Eu moro aqui há 37 anos, no tempo que aqui era uma casa religiosa, era de freira. Elas moravam aqui desde o tempo do Getúlio Vargas. E aí, quando foram fundar a ordem, Dom Jaime de Barros Câmara foi quem conversou com Getúlio e conseguiu esse prédio, que era um hotel famoso, eles saíram em dívida com o governo e deram o prédio. Então, aí eles ajudaram a fundar a Ordem Nossa Senhora da Santíssima Trindade. Elas moraram por quase 50 anos aqui. Aí, elas me chamaram nessa época pra trabalhar, porque eu era recepcionista. Aí eu vim e fiquei aqui. Com os anos, elas foram embora e eu fiquei. Eu estou aqui ainda porque eu preciso, né? E assim eu estou aqui até agora.”

À esquerda, Matilde Guilhermina e, à direita, Dona Francisquinha, uma das moradoras mais antigas do casarão, hoje, com 95 anos. Em entrevista, ela diz que tem o desejo de continuar no Casarão, onde mora desde 1989. Foto: Barbara Dias
À esquerda, Matilde Guilhermina e, à direita, Dona Francisquinha, uma das moradoras mais antigas do casarão, hoje com 95 anos. Em entrevista, ela diz que tem o desejo de continuar no Casarão, onde mora desde 1989. Foto: Barbara Dias

Outra moradora antiga, Maria da Conceição Vicente, 69 anos, mora no casarão desde 1995, há 31 anos:

“Eu conheci isso aqui em 1980, pois eu vim trazer uma marmita para o meu cunhado, que tinha pensão. Cheguei aqui e a irmã Terezinha me falou [eu estava desempregada], que precisava de alguém para limpar o quarto das senhoras que não podiam, que eram bem velhinhas… Então, eu aceitei e fiquei trabalhando aqui. Depois, eu fui trabalhar em outros lugares, mas no dia de sábado eu vinha aqui lavar uma roupa para as senhoras, fazer a faxina… Em 1995, vim morar aqui e estou aqui até hoje; [na época] minha filha mais nova tinha três anos e a mais velha tinha 12 anos.”

Nathanael José Pereira, 71 anos, mora há 36 anos no prédio. Atualmente aposentado, foi também um trabalhador da Ordem das Freiras:

“Eu vim morar aqui através da minha companheira que já conhecia aqui, que já trabalhava [aqui] na época das freiras. Aí, quando surgiu uma vaga, ela comunicou com a administradora, que era a irmã Cinila. Viemos para cá com a minha família toda, morar e trabalhar.”

Além de trabalhadores da época da Ordem que permaneceram no prédio, outros trabalhadores informais residem no Casarão. E esta é também uma questão importante: estar no Centro da cidade é estar em um local com melhores oportunidades de trabalho. Ivo Manuel dos Santos Faria Júnior, 37 anos, é camelô, e mora desde 2020 no Casarão:

“Moro aqui desde 2020, trabalho na rua, aproveitando a região, que é bem localizada. Consegui trazer a minha família também, que morava em Santa Cruz, num bairro com dificuldade de emprego. Aqui eles também conseguiram, através do trabalho informal na rua, conquistar a casa própria, onde eles gostam de morar… aqui também é o ponto de apoio deles. Todos os carnavais, eles vêm pra cá trabalhar. É muito importante a gente estar aqui e permanecer aqui, porque, além da moradia, foi um ponto de partida de melhoria das nossas vidas. Não só eu, como a da minha mãe, uma senhora de 64 anos, que chegou aqui com 50 anos, nunca trabalhou de carteira assinada, sempre trabalhou no trabalho informal. Ela tem um carrinho para trabalhar no samba, para trabalhar nos eventos. E isso é possível porque a gente mora aqui.”

Ivo Manuel dos Santos Faria Júnior, o Júnior, diz ser estratégico morar no Casarão, lugar onde criou uma rede de apoio familiar e de trabalho. Foto: Bárbara Dias
Ivo Manuel dos Santos Faria Júnior, o Júnior, diz ser importante morar no Casarão, lugar onde criou uma rede de apoio familiar e de trabalho. Foto: Bárbara Dias

O Casarão é também uma alternativa para pessoas em busca de moradias mais acessíveis, em meio à realidade dos altos aluguéis do Centro. Maria da Penha dos Santos, 68 anos, moradora da ocupação há 19 anos, explica:

“Eu vim com meus quatro filhos e quatro netos por indicação de uma pessoa. Eu estava [morando] num lugar onde o aluguel estava muito caro, eu não tinha mais condições de pagar. Eu morava na Ladeira de Santa Teresa, pertinho ali dos Arcos da Lapa. Aí, eu vim pra cá. Eu trabalhava em dois lugares, então, aqui para mim é ótimo. E tinha as crianças que estudavam e trabalhavam por aqui também. Eu e meus filhos amamos morar aqui.”

Maíra Martins, professora do Departamento de Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Projetos e Práticas Colaborativas de Interesse Social (COLABIS), destaca que a presença dos moradores na ocupação tem um papel importante na preservação do Casarão da Cândido Mendes, pois, realizam melhorias em suas unidades, mantendo o edifício dentro do possível, evitando o abandono completo e seus efeitos associados.

Só pelo fato de estar ocupado, segundo Maíra, isto evita uma degradação maior de estruturas, infestação por pragas urbanas e acúmulo de lixo, por exemplo. Nesse sentido, as ocupações com função de moradia social acabam cumprindo também um papel urbano relevante, ao dar uso a estruturas que, de outra forma, estariam sujeitas a um processo acelerado de deterioração. No Casarão da Cândido Mendes, ela destaca que os moradores há pelo menos 30 anos vêm mantendo o prédio funcional, com a realização de obras:

“Eles fazem melhorias na medida em que eles podem. Fizeram uma reforma no forro, por conta dos vazamentos do telhado. Fizeram manutenção também de parede, retirada de raízes de árvore. Frequentemente eles retiram também os rebocos que estão caindo da fachada, justamente para não ter nenhuma queda, nenhum acidente. Então, eles fazem uma série de cuidados, uma manutenção digamos ‘soft’, que é o que conseguem fazer. Para uma manutenção mais profunda, precisam de mais recursos… O problema de um prédio vazio, que não está ocupado, é que ele tem muito mais risco de ter problemas estruturais do que um prédio que está sendo ocupado, por conta desse olhar e dessa manutenção. Para o entorno é muito importante, porque todo imóvel abandonado vai gerando um processo de degradação no seu entorno. Isso significa que não vai se tornar uma área insegura, pouco iluminada, com menos pessoas frequentando. Então, só o fato de estar ocupado também já é uma forma desse imóvel estar trazendo vida para a área em volta dele.”

Uma Sucessão de Equivocos da Secretaria de Patrimônio da União

A advogada Mariana Trotta acompanha o caso do Casarão da Cândido Mendes como aliada técnica. Após o processo da ocupação ser encaminhado à Comissão de Soluções Fundiárias do TRF2, a associação de moradores do imóvel solicitou o apoio da professora da Faculdade de Direito da UFRJ e coordenadora do Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular Luísa Maim (Najup). Segundo ela, o Casarão é alvo de uma ação de reintegração de posse movida pela Secretaria de Patrimônio da União (SPU) desde o ano de 2020. Porém, em dezembro de 2025, mesmo com o caso em análise pela comissão do TRF2, que tem como objetivo mediar conflitos e evitar remoções forçadas, a primeira instância da Justiça determinou a desocupação imediata do prédio: sem prazo para a remoção ou nenhuma alternativa habitacional. Isso gerou forte apreensão entre os moradores, que têm seu trabalho e renda conectados com os fluxos econômicos da região em que moram. A maioria não tem para onde ir, caso a desocupação aconteça. Então, ficariam sem trabalho e sem casa.

A advogada e professora da UFRJ Mariana Trotta à esquerda e a moradora Lucinalva de Sousa à direita observam o pilar onde ocorreu o dano estrutural após obra da Secretaria de Patrimônio da União, que coloca o prédio e os mais de 60 moradores em risco. Foto: Barbara Dias
A advogada e professora da UFRJ Mariana Trotta à esquerda e a moradora Lucinalva de Sousa à direita observam o pilar onde ocorreu o dano estrutural após obra financiada pela Secretaria de Patrimônio da União, que coloca o prédio e os mais de 60 moradores em risco. Foto: Barbara Dias

Segundo Mariana, a SPU justifica a remoção com base em um risco estrutural. No entanto, laudos técnicos, feitos com o apoio da assessoria da UFF/OPPHUS – EAU e PUC Rio/COLABIS em parceria com o Casarão, indicaram que não há risco iminente que exija a saída das famílias:

“A gente sabe que o imóvel precisa de reformas estruturais por parte da União Federal. É um imóvel que essas famílias habitam desde a década de 1990, é um imóvel que precisa de manutenção. Mas existem laudos que foram feitos pela UFF, pela PUC, que comprovam que não é um risco iminente de necessidade de desocupação. Inclusive, que seria possível fazer as reformas no prédio com a permanência das famílias, fazendo um deslocamento interno.”

Ela também aponta que a SPU é responsável pelos danos estruturais relacionados às intervenções realizadas pela própria SPU no prédio. Desta forma, a Secretaria deveria resolver o problema que causou, ao invés de remover os moradores.

Enquanto isso, as negociações seguem indefinidas e propostas como a transferência das famílias para um conjunto habitacional em Guadalupe, Zona Norte, foram recusadas pelos moradores. Eles reivindicam a permanência no local com a realização das reformas e seguem aguardando uma solução da SPU desde janeiro de 2026.

A arquiteta e urbanista Sandra Kokudai, assessora parlamentar, que atua junto a políticas de moradia, afirma que o Casarão da Cândido Mendes é território de uma longa luta por regularização fundiária. Segundo ela, a SPU destinou o prédio para passou a ser destinado à habitação de interesse social, sendo incluído em propostas no edital do programa Minha Casa Minha Vida-Entidades, cuja proposta das famílias foi recentemente pré habilitado com apoio do Instituto Social Oscar Niemeyer de Projetos e Pesquisas.

Problemas estruturais foram agravados por falhas na execução das intervenções recentes, como a instalação de pilares metálicos de sustentação. Foto: Barbara Dias
Problemas estruturais foram agravados por falhas na execução das intervenções recentes, como a instalação de pilares metálicos de sustentação. Foto: Barbara Dias

Ela explica como o problema foi causado pela obra no telhado, devido à negligência de uma empresa contratada pela SPU para a reforma. Segundo a arquiteta, o acúmulo indevido de entulho da obra provocou o rompimento de um pilar do prédio. Apesar disso, laudos técnicos indicam que não há risco iminente de desabamento, porém, a necessidade de obras emergenciais, como o escoramento adequado e a correção de infiltrações, agravadas por falhas na execução das intervenções recentes, como a instalação de pilares metálicos de sustentação.

“A SPU fez a contratação de uma obra para o telhado, que era uma reivindicação antiga, inclusive, feita na justiça, pelos próprios moradores para preservar o prédio. Finalmente, esse pedido saiu no ano passado. Os moradores em todos os momentos ressaltaram que não podiam botar uma sobrecarga na laje, no terraço… A empresa acumulou o entulho da obra do telhado no terraço, aí, choveu e foi um caos. Um pilar da estrutura metálica se rompeu e abriu uma fissura numa parede.

O prédio é [como] uma senhora velhinha que precisa de cuidados, mas está em pé, está andando, está firme. Se você vê a estrutura do prédio, as paredes são muito largas. Só que a dúvida era se a estrutura interna metálica suportaria após esse rompimento. Então, tiveram vários laudos, a Defesa Civil veio aqui, a SPU contratou uma empresa que fez um laudo e as famílias também com essas parcerias com a UFF e a PUC fizeram análises para ver se realmente tinham segurança ou não. E o que todos os laudos apontam é que não há risco iminente. Então, o prédio está seguro, porém, há necessidade de obras emergenciais.” — Sandra Kokudai

Matilde Guilhermina de Alexandre, 67 anos, moradora da ocupação desde 2010, participa ativamente da luta pela melhoria das condições do Casarão. Ela foi personagem central no processo de negociação com a Light e a CEDAE que, durante a pandemia, cortaram a luz e a água da ocupação. Matilde acompanha de perto também a situação com a empresa contratada pela SPU para realizar as obras que colapsaram um pilar do prédio:

“Essa empresa na época apresentou uns sete cronogramas e nós ficamos com o pé atrás… Tivemos reuniões com a SPU, [reclamamos, mas, mesmo assim,] eles contrataram a empresa. Ela começou a fazer o telhado em outubro, [do nada,] eles entregaram a obra para a SPU [como se tivesse sido terminada,] mas não para nós. Aí, entregou uma obra que não estava pronta. E, na primeira chuva que veio, começou a cair [o telhado todo]. Caiu tudo que eles fizeram e a água ficou caindo dentro das casas. Se você ver, têm vídeos das pessoas desesperadas com a água jorrando.”

Uma sucessão de erros em obras realizadas pela Secretaria do Patrimônio da União levou ao rompimento de um pilar do Casarão, à direita da foto. Foto: Barbara Dias
Uma sucessão de erros em obras realizadas pela Secretaria do Patrimônio da União levou ao rompimento de um pilar do Casarão, à direita da foto. Foto: Barbara Dias

Matilde contextualiza que a partir daí, uma série de vistorias foram feitas. Laudos da PUC e UFF atestaram que o prédio não corria risco de desabamento, porém que obras eram necessárias para garantir a segurança dos moradores. No entanto, no dia 15 de dezembro, às vésperas do Natal de 2025, de acordo com Matilde, um oficial de justiça bateu à porta do casarão:

“Chegou o oficial de justiça aqui, por volta de seis, sete horas da noite, e falou, ‘ó, isso aqui é uma ação para vocês, é reintegração de posse, vocês vão ter que sair, tem que assinar aqui cinco moradores’. Porque antes disso, foi dia 22 de agosto de 2025, o SPU indicou o nosso imóvel para concorrer no Minha Casa Minha Vida-Entidades. Saiu no Diário Oficial, eles falaram: ‘vocês já estão aí há muitos anos, eu acho que chegou a vez de vocês participarem do Minha Casa Minha Vida-Entidades’.”

Em entrevista, o professor Daniel Cardoso, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da PUC-Rio, que assinou o laudo de avaliação estrutural e recomendações sobre o Casarão da Cândido Mendes, explicou que, apesar do imóvel apresentar certas fragilidades decorrentes da antiguidade, da ausência de manutenção e de alguns acréscimos de carga ao longo do tempo, a estrutura demonstra uma boa estabilidade global:

“A estrutura apresenta redundância e capacidade de redistribuição de esforços, o que explica a não propagação do dano observado no pilar. A alvenaria estrutural externa é robusta e contribui para a estabilidade global, enquanto a estrutura metálica interna, embora mais esbelta, também possui redundância suficiente. Com a adoção de escoramentos, as cargas podem ser adequadamente redirecionadas, mesmo com a perda localizada de capacidade. Não há, portanto, evidência de risco iminente de colapso global, mas é fundamental a adoção de medidas como redução de carga, escoramento de vigas principais e realização de reparos localizados, especialmente diante do processo contínuo de degradação da edificação.”

Risco de Remoção para Guadalupe

Uma das grandes apreensões foi em torno da obra no telhado, que causou o dano estrutural ao pilar e infiltrações nas paredes com a aplicação das vigas metálicas, por aparente imperícia técnica das empresas contratadas para executar a obra pela SPU. É o que gera o fantasma da remoção para um condomínio do Exército no bairro de Guadalupe, a 31km do Centro.

Lucinalva de Sousa Santos, moradora do Casarão desde 1997, explica como a demanda pela posse e por melhorias do prédio é uma luta antiga dos moradores:

“Aqui, tem uma demanda muito grande por manutenção e por ter um papel dizendo que isso aqui é nosso. Nós não somos invasores, nós viemos para cá, a maioria, ainda na época que ainda tinha padres e freiras, porque aqui foi um hotel que abrigava padres e freiras de fora do Brasil que estudavam aqui. Nós estamos na luta. Agora, conseguimos ser indicados para o Minha Casa Minha Vida-Entidades e estamos na luta pela regularização fundiária. Sendo que nós não temos ainda uma concessão de uso que estamos necessitando. Iriam mandar a gente para Guadalupe, um local muito distante, que foge totalmente do que a gente tem aqui. Moramos há 30, 40 anos aqui. Nós temos toda a nossa vida, trabalho, escola, posto de saúde aqui… Então, eu acredito que não seja justo [a remoção], pois, foi dito sobre o risco iminente [de colapso do prédio] mas ninguém conseguiu provar.” 

Lucinalva de Sousa Santos, moradora da ocupação desde 1997 posa no terraço do Casarão, que tem vista para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Ela avalia que a remoção para Guadalupe teria um grande impacto negativo para os moradores. Foto: Barbara Dias
Lucinalva de Sousa Santos, moradora da ocupação desde 1997 posa no terraço do casarão, que tem vista para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Ela avalia que a remoção para Guadalupe teria um grande impacto negativo para os moradores. Foto: Barbara Dias

Esse sentimento em relação a uma possível remoção está presente em todos os moradores entrevistados, pois eles sentem que, caso isso aconteça, haverá uma perda de conexão com o território, perda das redes de apoio, além da dificuldade de acesso a serviços básicos, a trabalho e renda. Maria da Conceição Vicente explica a apreensão:

“Porque eu nasci aqui, eu me batizei aqui, eu cresci aqui, meu médico é aqui. Quer dizer, se eu for para lá, eu vou ficar perdida. Eu falei isso para eles, mas não sei se isso vai adiantar nada não, porque hoje a gente não decide pra onde vai, né? São eles que decidem onde vão jogar a gente. Meu sonho é poder ficar aqui, morando aqui. Aqui é a nossa raiz. A gente continua morando no lugar onde a gente praticamente nasceu, porque eu nasci e fui criada em Santa Teresa, então, aqui é o meu berço de vida.”

Marian Silva, 36 anos, moradora da ocupação há 31 anos, criada no Casarão, explica que tem uma filha asmática e que depende da rede de atendimento perto do casarão para sua filha. Ela não sabe o que vai fazer sem o sistema de saúde do território:

“Eu tenho uma criança asmática, ela tem cinco anos… Lá em Guadalupe, como eu poderia fazer? De sair de lá para ela fazer o tratamento aqui no Flamengo, no Instituto Fernandes Figueira, não daria. Como que eu ia sair de lá de madrugada para trabalhar aqui na Benjamin Constant? Como eu sairia com ela de madrugada de lá de Guadalupe para levar ela no hospital sem conhecer. Então, para mim, ficar aqui é essencial, não só para mim, mas também para ela.”

Além de tudo, o condomínio para onde as famílias correm o risco de serem removidas está repleto de danos estruturais, constatados por uma vistoria feita pelo professor Ronaldo Brilhante, arquiteto-urbanista, professor adjunto da Oficina de Pesquisas e Projetos em Habitação e Urbanização Social (OPPHUS) da UFF/EAU, um dos aliados técnicos que presta assessoria social ao Casarão. Em visita ao condomínio em Guadalupe, ele avaliou que:

“Uma boa parte das bases dos pilotis está com as ferragens comprometidas devido a infiltrações e há diversos pontos de desplacamento, além de ferragens expostas. Há um problema crônico com as instalações sanitárias, devido à tubulação original ser de ferro, ou seja, tudo isso é bem mais [caro de consertar] do que o escoramento que pretendemos viabilizar no Casarão da Cândido Mendes.”

Fachada do condomínio Guadalupe, para onde foi proposta a remoção das famílias. Em visita técnica, foi constatado que obras para manutenção do espaço também seriam necessárias para receber as famílias, já que o prédio do Exército é bastante antigo e também conta com falhas estruturais. Fotos: Ricardo Brilhante
Fachada do condomínio Guadalupe, para onde foi proposta a remoção das famílias. Em visita técnica, foi constatado que obras para manutenção do espaço também seriam necessárias para receber as famílias, já que o prédio do Exército é bastante antigo e também conta com falhas estruturais. Fotos: Ricardo Brilhante

Ronaldo é um dos responsáveis pelo Relatório de Vistoria Técnica ao Casarão, que ressalta que não existem riscos à integridade física dos moradores, desde que seja realizado o acompanhamento técnico permanente para avaliar a ocorrência de novas deformações na estrutura. Ele afirma, inclusive, que não há necessidade de remoção das famílias devido aos danos ocasionados pela obra. Ele lembra do caso do Quilombo Urbano Ferreira Diniz, cujos problemas estruturais eram mais graves do que os do Casarão da Cândido Mendes, mas que, mesmo assim, foi possível realizar obras emergenciais com as famílias dentro do imóvel, realocadas internamente.

A última reunião entre os moradores e a SPU aconteceu no dia 27 de fevereiro de 2026, onde foram apresentadas as promessas de instalação urgente de escoramentos no imóvel, a resolução de um vazamento grave sobre um pilar e a adoção de providências gerais para os problemas apresentados, porém nenhuma dessas medidas foi cumprida até o momento. Matilde resume a apreensão de todos os moradores sobre a morosidade da SPU e sobre a ordem de reintegração de posse em aberto:

“O processo continua em aberto, o pedido de reintegração de posse e a qualquer momento o juíz pode se manifestar: ‘então, vai lá e despeja’…”

O Que Dizem os Órgãos Envolvidos

RioOnWatch solicitou um parecer do Procurador da República Julio Araujo, que acompanha o caso desde a Comissão de Soluções Fundiárias RJ, onde a principal orientação era que as famílias não fossem removidas, já que os laudos não comprovaram o risco estrutural iminente no imóvel. Segundo ele, embora sejam necessárias obras de reparo, sob responsabilidade da União, também deve se garantir a destinação do prédio para habitação de interesse social, a partir do Minha Casa Minha Vida-Entidades. A expectativa do procurador é que se construa uma solução que combine a realização das obras com a permanência das famílias no local:

“Acho que o grande desafio hoje é impedir que a Justiça realize qualquer tipo de remoção imediata. [É necessário] garantir uma análise mais fiel e específica diante das divergências de laudos e da falta de qualquer laudo que aponte risco iminente sobre a saída das pessoas. [Assim deve-se] garantir que aquele imóvel vai ser atinado para habitação de interesse social e programar e planejar intervenções emergenciais ali, inclusive, analisando a possibilidade de fazê-lo com a permanência, ainda que parcial, das pessoas ali. E, ainda que elas tenham que ser retiradas, que haja a previsão de que elas voltarão lá.”

O defensor público Thales Arcoverde Treiger avalia que o cenário atual é positivo para as famílias, pois existe diálogo com a SPU e articulações em andamento para viabilizar reformas por meio do programa Minha Casa Minha Vida-Entidades. Segundo ele, não há risco de remoção iminente, apesar da existência formal de uma ordem de reintegração de posse, pois ele avalia que a União não demonstra interesse na desocupação das famílias. Ele aponta preocupação com a insuficiência das obras emergenciais realizadas até o momento, mas afirma que o caminho adotado tem sido o da negociação institucional.

Em e-mail enviado à Secretaria de Patrimônio da União, RioOnWatch perguntou sobre o processo de destinação do Casarão da Cândido Mendes para moradia de interesse social, sobre obras incompletas e sobre os danos estruturais observados após a realização de obra no telhado. Apesar de todos os relatos de moradores, a resposta da SPU afirma que os serviços emergenciais já foram concluídos. Segue a resposta na íntegra abaixo:

“O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) informa que o Governo do Brasil, por meio da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), está construindo uma solução de moradia definitiva para as famílias que atualmente ocupam o prédio federal conhecido como Casarão da Cândido Mendes/Hotel dos Ingleses, no Rio de Janeiro, garantindo mais segurança para os moradores, em articulação com o Programa Minha Casa, Minha Vida – Entidades.

No âmbito de sua atuação, a SPU adianta que há reserva e indicação do imóvel para esse fim, estando o projeto ainda condicionado à seleção conduzida pelo Ministério das Cidades e pela Caixa Econômica Federal.

Destaca, ainda, que laudos sucessivos de órgãos técnicos e boletins da Defesa Civil municipal do Rio de Janeiro atestam as más condições estruturais do edifício.

Os serviços de manutenção no telhado do edifício Casarão da Cândido Mendes/Hotel dos Ingleses foram iniciados em março de 2025 e concluídos em outubro do mesmo ano, com o termo de recebimento definitivo emitido em 21 de novembro de 2025.

Durante a execução dos serviços na cobertura do edifício, que possui quatro pavimentos, foi verificada movimentação em um pilarete metálico localizado no segundo pavimento, ocasionando o descolamento de reboco e de parte da alvenaria adjacente.

A Defesa Civil do Município, após acionada, realizou vistoria no local e recomendou a imediata instalação de escoramento para reforço estrutural na área afetada pela flambagem da estrutura metálica. Tal intervenção foi contratada e executada em caráter emergencial pela Secretaria de Serviços Compartilhados (SSC) do MGI, em apoio à SPU.” 

Fachada do Casarão da Cândido Mendes em Santa Teresa, o imóvel histórico aguarda definição da União para se tornar o lar definitivo de famílias que já moram no local há mais de 30 anos. Foto: Bárbara Dias
Fachada do Casarão da Cândido Mendes em Santa Teresa, o imóvel histórico aguarda definição da União para se tornar o lar definitivo de famílias que já moram no local há mais de 30 anos. Foto: Bárbara Dias

Um Casarão Cheio de Sonhos

Apesar de toda a apreensão com a indefinição da SPU, para os moradores do Casarão da Cândido Mendes, ainda existe espaço para sonhar com o futuro: um imóvel reformado e seguro para as famílias, que proporcione o direito à moradia digna no Centro.

Marian Silva sonha em permanecer: “Aqui, tudo é perto”. Sonho parecido com o de Maria da Conceição Vicente: “espero que eles tenham piedade de nós e ajudem a gente a construir essa casa de novo. É o que eu desejo”. Tal como Júnior que, além de desejar continuar morando no Casarão, quer vê-lo ressignificado como um polo de cultura para a região:

“Nosso sonho é que essa obra venha a acontecer. A gente merece morar num lugar bom e de contrapartida, como tem muitos trabalhadores aqui, ter um salão bonito, que a gente possa futuramente trazer a cultura pra cá, através de roda de samba, através de outras artes, música. Tudo que envolva a cultura e todo mundo possa trabalhar utilizando esse lugar pro seu sustento e moradia.”

Lucinalva dos Santos imagina um futuro com o casarão fazendo parte do Programa Minha Casa Minha Vida-Entidades, junto ao Instituto Oscar Niemeyer, que trás a proposta de além da reforma, de criar uma Escola de Artes e Ofícios:

“Então, o Instituto Oscar Niemeyer está querendo investir aqui para poder fazer essa escola e de outras comunidades que queiram aprender o ofício [da restauração]. E a gente aposta nisso, nós queremos muito isso.”

Adriano Queiroz, conselheiro do Instituto Oscar Niemeyer, entidade que, junto ao Casarão, está se habilitando pelo Programa Minha Casa Minha Vida-Entidades a tomar a dianteira dessa iniciativa, diz que o projeto de criar uma Oficina Escola de Artes e Ofícios tem como base a Lei Municipal 8.454 de 26 de junho de 2024 de autoria do Vereador Edson Santos. Adriano foi quem trouxe a ideia para o Rio de Janeiro, a partir de experiências muito positivas em outros estados do Brasil.

Este Programa Oficina Escola de Artes e Ofícios tem como objetivo a formação de jovens no ofício de restauração de imóveis antigos. Enquanto restauram-se prédios antigos da cidade, em um fazer mediado entre teoria e prática, forma-se jovens para o mercado de trabalho. Tudo isso enquanto se ajuda a garantir o direito à moradia em espaços como o Casarão da Cândido Mendes.

Paulo César Ribeiro, morador e presidente da Associação de Moradores do Casarão, explica como está acontecendo esse processo de luta pela permanência em várias frentes. Apesar de toda a dificuldade, ele se mantém esperançoso sobre a permanência:

“A SPU sempre vem falando que não tem dinheiro para tornar esse prédio habitável. Esse prédio tem mais de 100 anos e precisa realmente de uma obra estrutural. Isso é inegável. A obra foi orçada em R$33 milhões e é claro que a SPU não ia ter esses valores. Então, a proposta da SPU era fazer uma realocação, tirar os moradores daqui. [Mas] com essa nova parceria do Minha Casa Minha Vida-Entidades, que foi encaminhada para Brasília pelo Instituto Oscar Niemeyer, [pode ficar] habilitada a trazer recursos para fazer essa obra.

Eu creio que não vai ser um retrofit total, mas sim deixar esse prédio dos moldes que são realmente exigidos pelo Minha Casa Minha Vida-Entidades. Ou seja, todas as unidades têm que ter banheiro, cozinha, o que, hoje, algumas unidades aqui não têm. Temos [também] um projeto que ficou orçado em R$14 milhões, que também viriam da Caixa Econômica Federal, pois a SPU diz que não tem caixa. Por isso, eles insistem em fazer uma realocação. Mas nós estamos buscando recursos com nossos parceiros e vamos continuar nesse propósito. Nossa estratégia é mostrar outros caminhos, outros parceiros, para que a SPU não tenha como dizer que a gente não está trabalhando em cima disso.”

Veja Mais Fotos no Álbum:

Ocupação Casarão Cândido Mendes, Santa Teresa, Rio de Janeiro, 09 de abril de 2026

Sobre a autora: Bárbara Dias, cria de Bangu, possui licenciatura em Ciências Biológicas, mestrado em Educação Ambiental e atua como professora da rede pública desde 2006. É fotojornalista e trabalha também com fotografia documental. É comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e co-fundadora do Coletivo Fotoguerrilha.


Apoie nossos esforços para fornecer apoio estratégico às favelas do Rio, incluindo o jornalismo hiperlocal, crítico, inovador e incansável do RioOnWatchdoe aqui.