
Se a comida chega ao prato da capital, ela brota—muitas vezes invisibilizada—a partir das mãos que cultivam, pescam e resistem na Baixada Fluminense. Foi com essa provocação direta que no dia 21 de março o 2º Fórum Climático de Magé reuniu lideranças, agricultores, pescadores, pesquisadores e moradores no CIEP 327, no quarto distrito em Suruí, para recolocar no centro do debate uma questão essencial: quem produz o alimento e quem decide quem come?
Três anos após sua primeira edição, o evento organizado pelo Instituto Mirindiba voltou com ainda mais densidade política e urgência social. Com o tema “Territórios e Maretórios por Soberania Alimentar”, o fórum apontou caminhos concretos para enfrentar a fome, a crise climática e as desigualdades históricas que atravessam Magé e toda a Baixada Fluminense.
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A programação começou às oito da manhã, com um café ecológico preparado pelo Chef Gama, valorizando alimentos orgânicos e práticas sustentáveis—um gesto que já indicava o tom do encontro: pensar o alimento como direito, cultura e política. Como destacou o próprio chef:
“A gente precisa voltar a olhar para o alimento como algo que vem da terra, respeitando o tempo da natureza e valorizando o que é produzido de forma saudável e local.”
Na abertura, mediada pelo DJ Dorgo, do Instituto Enraizados, o coordenador do Instituto Mirindiba, Anderson Ribeiro, destacou a responsabilidade coletiva com os territórios e o poder da comunicação. Uma fala que reforçou a importância da palavra como instrumento de transformação e crítica social.
Fome Não É Acaso, É Estrutura
A primeira mesa, cujo título foi “Fome, Nutricídio e Sistemas Alimentares”, trouxe uma reflexão central: a fome não surge por acaso—é construída historicamente. Sobre isso, o evento demarcou, como destacou Andressa, gestora ambiental e coordenadora de articulação do Instituto Mirindiba, que:
“A fome não é falta de alimento, é resultado de escolhas políticas e de um sistema que produz desigualdade… quando a gente fala de nutricídio, estamos falando de um processo que nega o direito à alimentação adequada e impacta diretamente a saúde das populações”.
Andressa também reforçou a importância de pensar os territórios nesse debate: “as soluções existem, mas passam necessariamente por fortalecer quem produz alimento de verdade e por reconhecer os saberes que já estão nas comunidades”.
Experiências do território reforçaram esse diagnóstico. Jandira Rolha, do Museu Vivo de Agroecologia de Magé, evidenciou a agroecologia como prática de resistência e autonomia, articulando produção de alimentos, economia solidária e saberes tradicionais.
Já Alana Patrília, pescadora e liderança da Associação de Pescadores Lutando pela Vida, trouxe a perspectiva das comunidades ribeirinhas marcadas pela resistência diante da degradação ambiental, negligência do Estado e ausência de políticas públicas.
Ampliando o debate, Walmir Junior, uma das lideranças da Horta Comunitária Maria Angu, no Complexo da Maré, mostrou como a produção de alimentos também é possível nas favelas e periferias urbanas, a partir da organização coletiva. Soluções já existem—e estão nos territórios.

Após isso, a segunda mesa discutiu alternativas concretas frente à crise climática e alimentar.
Gaio Jorge de Paiva, do Coletivo Criação, destacou a importância de integrar saber técnico e conhecimento popular na construção de políticas públicas. Já Patrícia Lyra trouxe a experiência das cozinhas solidárias como espaços de garantia de direitos e articulação comunitária. O que foi complementado por Leudideia Lima, agricultora, que reforçou a importância da produção agroecológica. Enquanto isso, Marcia Regina chamou atenção para os maretórios e a relação direta entre preservação ambiental e sobrevivência das comunidades pesqueiras.
Todas as falas convergiram em um ponto comum: não há justiça climática sem justiça social—e os territórios precisam ser ouvidos.

Feira Onça: Economia e Cultura Como Resistência
A Feira Onça, iniciativa do Instituto Mirindiba, reuniu artesãos, artistas e produtores locais, apresentando soluções construídas nos territórios da Mata Atlântica e da Baía de Guanabara. E, mais do que um espaço de comercialização, a feira reafirma que valorizar saberes tradicionais também é lutar por justiça climática.
Como destaca Lyvia Leite, coordenadora de comunicação do instituto: “É por isso que acontecem tantas coisas ao mesmo tempo: debates, oficinas, feira. Esse é o mundo que queremos criar—um mundo ecossistêmico, com trabalho digno e tecnologias sociais no combate à crise climática”. Ela também reforça o papel da feira nesse processo: “Reunimos fazedores de cultura e produtores locais para fortalecer uma economia territorial e inserir essas pessoas no debate sobre justiça climática. A feira já é uma tecnologia de emprego verde”.
A exibição do filme Mulheres, Terra e Sabores: Experiências Agroecológicas em Magé, em parceria na exibição do filme com o Cineclube Imbariê, trouxe uma dimensão sensível ao debate. A obra conecta imagens e histórias de quem sustenta, com o próprio corpo, a produção de alimentos.

Como sintetizado por Lyvia Leite, cientista social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora de comunicação e culturas do Instituto Mirindiba:
“Soberania alimentar não é só sobre comida, é sobre direito à memória e ao futuro. E justiça climática só existe quando os povos que cuidam do território são ouvidos, valorizados e protegidos.”
Um Chamado à Responsabilidade Coletiva

Durante o 2° Fórum Climático de Magé também foi lançado o Guia Popular de Soberania Alimentar e Combate à Fome em Magé (RJ), documento que reúne conceitos e propostas para enfrentar a insegurança alimentar no município. Essa e as outras frentes do 2º Fórum Climático de Magé reafirmam: a Baixada Fluminense é território de produção de conhecimento, resistência e soluções.
Mais do que denunciar a fome, o 2º Fórum Climático de Magé evidencia quem combate esse problema social diariamente. E como destacou a coordenadora pedagógica e de projetos Carla Lubanco:
“A fome é um produto social que vem sendo construído desde a colonização, a partir dos invasores que vieram aqui para expropriar a terra.”
A fala sintetizou o entendimento de que a insegurança alimentar nas periferias está diretamente ligada a processos históricos de exploração, desigualdade e exclusão, o que também resumiu a raiz da questão que torna espaços como o Fórum Climático de Magé tão importantes e potentes, ao reunir diferentes vozes e experiências das periferias. Portanto, o evento fortaleceu redes e apontou caminhos possíveis para um futuro mais justo.
E deixou bem nítido: se a Baixada planta, o Rio de Janeiro janta. Se a Baixada não planta, o Rio não janta. Mas a mensagem que ecoa é ainda mais profunda: é preciso garantir que quem planta também tenha direito à terra, ao alimento e à dignidade.
Sobre o autor: Rick Barros é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), repórter da Revista Minerva e integrante da Rede de Comunicação e Cultura nas Favelas pelo Jornal Fala Roça. Educador popular no Pré-Vestibular Só Cria e voluntário do Coletivo Guarani (Magé), é também criador do projeto Guetografia e influenciador digital, atuando na valorização dos territórios, da cultura e do jornalismo comunitário.
