No Complexo do Salgueiro, Há Sangue nas Palmeiras: O Grito de Socorro que a Polícia Escolheu Não Ouvir

Andressa Nogueira do Nascimento foi assassinada na frente de um dos seus filhos ao sair para comprar água

Andressa Nogueira do Nascimento, moradora do Complexo do Salgueiro, mãe de cinco filhos, foi executada durante operação policial na frente de um de seus filhos, com um tiro na cabeça. Foto: Redes Sociais

A comunidade das Palmeiras, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, tornou-se o cenário de um crime que escancara a face mais brutal da política de segurança pública fluminense. Na última sexta-feira, 27 de março, em meio à falta d’água na favela, Andressa Nogueira do Nascimento foi executada ao sair de casa com um de seus filhos para comprar água para sua família. Uma tarde marcada pelo silêncio ensurdecedor das autoridades diante da perda da vida humana. O que se seguiu à sua morte foi um espetáculo de omissão e abandono estatal, que beira o sadismo.

Moradores se emocionam pelas ruas do Complexo do Salgueiro durante ato pedindo justiça por Andressa, assassinada durante operação policial na região. Foto: RioOnWatch
Moradores se emocionam pelas ruas do Complexo do Salgueiro durante ato pedindo justiça por Andressa, assassinada durante operação policial na região. Foto: Por Gentileza

A morte de Andressa não ocorreu no “calor de um confronto”. Foi o resultado de uma abordagem desastrosa e letal em um momento de aparente calmaria. Uma moradora que preferiu não se identificar descreveu com precisão o rastro de sangue deixado pela incursão policial:

“A operação começou por volta das cinco horas da manhã. Foi intenso, tiroteio o dia inteiro. Por volta das três e pouquinho da tarde, a minha cunhada Andressa achou que a operação tinha acabado, porque não ouviu mais tiro, não viu mais nada. Como lá é difícil acesso de água, ela foi na rua comprar água, porque estava sem até para as crianças beberem em casa. Nisso que ela estava voltando, parou um carro dessa polícia [Polícia Rodoviária Federal] na BR [na estrada] perto da esquina da casa dela. Eles viram ela passando de mão dada com duas crianças. Quando ela estava chegando próximo a uma merceariazinha, eles começaram a dar tiro. O tiro pegou nela. Ela caiu ali e ficou, na frente de um dos filhos, durante horas e horas.”

Moradora segura o cartaz 'O estado só está fazendo o seu trbaalho matando inocente. Salgueiro pede paz'. Foto: RioOnWatch
Moradora segura o cartaz “O estado só está fazendo o seu ‘trabalho’, matando inocente. Salgueiro pede paz”. Foto: Por Gentileza

A Máquina de Guerra e o Medo Político: Omissão e Desprezo

O socorro estava ao lado. Ainda com vida, enquanto Andressa agonizava no chão da comunidade, o que se viu foi a recusa deliberada de socorro pelos policiais. Vídeos gravados no local mostram agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) ignorando os apelos desesperados da família. Mesmo com uma ambulância estacionada a poucos metros, no Viaduto da Central, nenhum agente moveu um dedo para solicitar o resgate. “Eles só não solicitaram. Omitiram socorro mesmo”, afirma uma das vozes que acompanhou o caso. O descaso resultou na morte da moradora do Salgueiro.

Quando os policiais foram contestados pelo esposo de Andressa sobre a falta de ação deles em ajudar sua esposa, os agentes federais ordenaram que os próprios moradores removessem o corpo, já sem vida. No entanto, tal ordem ignora protocolos básicos a serem seguidos em casos de assassinatos, como a preservação da cena do crime, para se assegurar de que a perícia obterá boas provas para a investigação. Diante da recusa dos moradores em violar o corpo e a cena, inclusive para que provas não fossem destruídas ou perdidas, os agentes simplesmente entraram na viatura e abandonaram o local, deixando Andressa estirada no chão.

Foi a própria família que, em meio ao desespero e sob o olhar de crianças traumatizadas, teve que arrumar um carro particular para retirar Andressa do local.

O assassinato de Andressa é o reflexo de um calendário eleitoral manchado de sangue. Em São Gonçalo, operações ostensivas são frequentemente denunciadas como ferramentas de marketing político ou demonstrações de força em períodos que antecedem disputas por cargos de governo. “Se ganha muito voto com essa falácia da segurança pública”, denuncia uma fonte que agora presta suporte à família.

Desde as primeiras horas daquele dia, a comunidade foi sitiada por viaturas do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão (RECON) da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) e da PRF. Inicialmente, a narrativa oficial era que a operação foi realizada para retirar barricadas, porém, todas as vezes que vão retirar, a polícia chega com caminhão, trator, retroescavadeira e outros maquinários apropriados. Desta vez, isto não aconteceu. Havia só policiais armados, sem as ferramentas para a remoção de barricadas: só havia blindados da PRF e agentes federais e estaduais.

Moradora segura cartaz escrito 'Favela quer viver'. Foto: RioOnWatch
Moradora segura cartaz escrito ‘Favela quer viver’. Foto: Por Gentileza

O Legado de Dor e a Luta por Justiça

Andressa Nogueira do Nascimento era uma mãe de cinco filhos. Sua morte deixa um vazio que nenhuma política de segurança pública poderá preencher. A Associação Espaço Gaia tem sido o único suporte para uma família que foi destroçada pelo próprio Estado, que deveria protegê-la.

O que aconteceu no Complexo do Salgueiro exige uma resposta imediata e rigorosa das instituições. Não se pode aceitar que agentes públicos disparem contra uma mulher de mãos dadas com crianças, ao sair de casa para comprar água, que estava em falta na comunidade. E, ao ocorrer, em nenhuma hipótese, os policiais poderiam ter virado as costas para o corpo estendido no chão e ter ido embora.

O sangue de Andressa clama por justiça. É o clamor de uma comunidade que cansou de receber balas ao invés de água. É o clamor de uma favela que enterra uma mãe vítima de uma guerra que ela não escolheu.

Moradores protestam contra o assassinato de moradora do Complexo do Salgueiro durante operação policial na comunidade. Foto: Por Gentileza
Moradores protestam contra o assassinato de moradora do Complexo do Salgueiro durante operação policial na comunidade. Foto: Por Gentileza

*Margarida Martins é um pseudônimo escolhido para preservar a identidade do autor.


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