Escola Premiada por Sua Vocação Verde, GET Brant na Penha, Promove Mutirão na Horta e Educação com Jovens Protagonistas Ambientais

Alunos da GET Brant Horta em mutirão. Foto: Amanda Baroni
Alunos da GET Brant Horta em mutirão. Foto: Amanda Baroni

Há dois anos, o retorno às aulas no Ginásio Educacional Tecnológico Brant Horta, localizado no bairro da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, começa de uma forma especial: com a realização de um mutirão na horta comunitária da escola. 

A ação conta com o apoio de Vilson Luiz, guia de turismo e educador ambiental da Penha responsável por coordenar o projeto, e a Frente Penha. No dia 5 de março reuniram alunos, professores e parceiros ambientais em ritual de boas-vindas aos novos alunos. O evento, atividade de março da agenda coletiva da Rede Favela Sustentável (RFS)*, reuniu também voluntários ambientais, como Edvana do Nascimento, membro da Ação da Cidadania, Mara Lúcia Araújo, membro do coletivo Mulheres Positivas, Franklin Ramos, educador ambiental, Eliana Ramos, empreendedora da Edixe Acessórios, Lucia Helena Barbosa, da Cooperativa Transvida e Maria José da Silva.

Mutirão na horta da escola GET Brant, na Penha. Foto: Amanda Baroni
Mutirão na horta da escola GET Brant, na Penha. Foto: Amanda Baroni

Meio Ambiente Como Ferramenta Educativa

Como já publicado pelo RioOnWatch, a região do Complexo da Penha é uma das principais ilhas de calor da cidade. Preocupado com essa realidade, o GET Brant Horta iniciou o trabalho de conscientização dos alunos, realizando ações práticas de cuidado e preservação no entorno da escola, estimulando o sentimento de pertencimento

No ano de 2024, durante a semana do meio ambiente, alunos e professores mobilizaram um mutirão no Parque Ary Barroso para revitalizar o local, que se encontrava sem atividades. Marjorie Guimarães, diretora do Ginásio Educacional Tecnológico Brant Horta, relembra:

“A gente chegou a fazer plantio lá [no Parque Ary Barroso]. A ideia de trazer a comunidade para a escola ou ir lá na comunidade, é para melhorar o comportamento deles, para entenderem que não pode depredar, não pode quebrar.”

No entanto, essa ação durou pouco, sendo interrompida por conta de conflitos no território. Isso motivou que a direção e alunos criassem a própria horta comunitária em maio de 2024, tanto para dar continuidade ao que havia sido iniciado no parque, quanto para ocupar espaços livres da escola de forma produtiva.

Virgínia do Espírito Santo, professora de geografia, conta como o projeto reafirma a importância da mobilização criativa e coletiva de professores, alunos, comunidade e projetos do Complexo da Penha:

“Perguntamos a eles [alunos] o que poderíamos fazer no espaço vazio que tínhamos no terreno da escola e eles falaram: ‘A gente não tem área verde aqui na escola.’ Aí, a gente pensou: ‘Então, vamos construir uma horta?’ E eles toparam. Orçamos entre os professores [o que precisávamos para iniciar a horta] e compramos os materiais. Aí, o Vilson conseguiu com a Comlurb insumo para adubar a terra. Também teve um pessoal da ONG Semeando e Colhendo Amizades que veio ajudar. Veio o CEM (Centro de Integração da Serra da Misericórdia), deu insumo, muda, semente. E aí a gente começou.”

 

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Para a diretora, Marjorie Guimarães, a horta trouxe inúmeros benefícios ao cotidiano escolar, como o desenvolvimento do protagonismo dos alunos e melhorias de desempenho:

“A gente tinha alguns alunos, por exemplo, que não conversavam com ninguém aqui na escola. Um deles saiu de um menino introvertido para um menino extrovertido e que pensou na criação do sistema de irrigação [da horta]. Ele é um exemplo de que você tem aí até a questão emocional, porque ele é gago, então, ele explicava do jeitinho dele. Isso fez muito bem à saúde dele e ao emocional também. Outros tiveram a sensação de pertencimento, com isso, ficavam até mais tempo na escola, começaram a jogar ping-pong, vôlei. Isso para a gente é muito legal porque eles não estão na rua. Já os mais agitados, muito levados, acabam se encontrando na horta e a gente também tem um contraponto: aos faltosos e mais desinteressados, falo que tem que vir [para escola para poder participar da horta]. Com isso, eles melhoraram bastante o comportamento. Não vou dizer para você que é [só] por isso, mas [a horta] acaba ajudando, entendeu? A gente não atinge todos, mas a gente tira uns [da falta de perspectiva], do desinteresse em estudar.”

Vilson durante mutirão de boas vindas aos novos alunos do GET Brant Horta na horta comunitária da escola. Foto: Amanda Baroni
Vilson durante mutirão de boas vindas aos novos alunos do GET Brant Horta na horta comunitária da escola. Foto: Amanda Baroni

Com apoio da escola e da comunidade, os estudantes promoveram uma série de ações que trouxe melhorias para o colégio e toda a comunidade escolar. Entre elas está a criação de um sistema de irrigação da horta reaproveitando a água de aparelhos de ar-condicionado. O sistema armazena a água em um pequeno barril capaz de atender todas as mudas.

Parte do sistema que reutiliza a água do ar-condicionado da escola. A estrutura armazena e distribui água para o espaço. Foto: Amanda Baroni
Parte do sistema que reutiliza a água do ar-condicionado da escola. A estrutura armazena e distribui água para o espaço. Foto: Amanda Baroni

Há uma horta vertical de cultivo de pequenas mudas, ainda em processo de germinação, a serem transferidas posteriormente para os canteiros. O sistema de irrigação funciona com acionamento de bombas que fazem a água circular de baixo para cima e de forma contínua.

Alunos construíram horta vertical para o cultivo de pequenas mudas. Essa parte funciona com a ajuda de bombas d’água que fazem a água circular periodicamente pelos canos. Foto: Amanda Baroni
Alunos construíram horta vertical para o cultivo de pequenas mudas. Essa parte funciona com a ajuda de bombas d’água que fazem a água circular periodicamente pelos canos. Foto: Amanda Baroni

Houve ainda a instalação de duas coberturas verdes, porém de estrutura leve e de rápida implantação. A tela e as folhas do pé de maracujá que cobrem a horta vieram do projeto Teto Verde Favela. A estrutura contribuiu para criar um ponto de resfriamento dentro da escola, fundamental em dias quentes.

Além dos canteiros, o espaço tem ainda duas coberturas verdes (formadas pelo pé de maracujá) que criam uma cobertura fresca para o ambiente. Foto: Amanda Baroni
Além dos canteiros, o espaço tem ainda duas coberturas verdes (formadas pelo pé de maracujá) que criam uma cobertura fresca para o ambiente. Foto: Amanda Baroni

Alimentando ainda mais sua vocação socioambiental, o colégio realizou um desfile de moda em parceria com a Escola de Divines e o estilista Almir França, produzindo uma coleção a partir de retalhos de jeans. O evento contou com a presença da atriz Gi Fernandes, ex-aluna do GET. E os alunos receberam o reconhecimento do príncipe britânico William, no Earthshot Prize, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, em 5 de novembro de 2025.

Alunos do Ginásio Brant Horta recebendo reconhecimento através do evento Earthshot Prize 2025. Foto: Arquivo pessoal/Reprodução
Alunos do Ginásio Brant Horta recebendo reconhecimento através do evento Earthshot Prize 2025. Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

Nas redes sociais da horta da Brant, é possível acompanhar conteúdos produzidos pelo alunos. Bem como no perfil oficial da escola, onde há diversos outros materiais educativos feitos pelos estudantes. Um dos exemplos mais acessados da página do GET é um tutorial onde as crianças e adolescentes ensinam como fazer puffs de garrafa pet.

A escola concorre ainda ao Shell NXplorers Global Inspiration Awards 2025-2026, prêmio internacional que reconhece escolas que mobilizam jovens para transformar a realidade por meio da ciência, da criatividade e do cuidado com o território. A escola está na categoria Melhores Ideias Sustentáveis de 2025.

 

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Sementes e Seus Frutos no Aprendizado Autodidata

A horta possui cerca de 50 mudas, distribuídas entre plantas comestíveis e medicinais. Além disso, também promove um circuito autônomo e integrado de aprendizado entre as diferentes faixas etárias atendidas pela escola, como explica Vilson:

“Tem plantas muito sensíveis que ao longo do ano, elas vão morrendo. Causa aquela sensação assim: ‘Poxa, chegamos aqui, plantamos e elas morreram?’ Sim, mas, em compensação, também nasceram outras. E é esse movimento de cuidado que a gente tem que ter para poder fazer esse trabalho, essa renovação. Isso ajuda porque são [os jovens] que têm que pesquisar. Não é um lugar que tem um dono. Todo mundo é dono.”

Um dos veteranos e ex-alunos do GET Brant Horta, Matheus Daniel, que agora está no 1° ano do ensino médio no Colégio Estadual Heitor Lira, também na Penha, conta que participar da horta colaborou no seu autocuidado com a saúde:

“O que mais me marcou foi o cuidado que eu aprendi a ter com certas plantas, muitas dessas plantas eu não conhecia. Aprendi também a fazer remédios com muitas dessas plantas medicinais. Tenho bronquite asmática e aprendi a usar ervas como chá, o que melhora muito minha tosse.”

Alunos cultivam e criam melhorias na horta escola, promovendo e compartilhando o conhecimento ambiental. Foto: Amanda Baroni
Alunos cultivam e criam melhorias na horta da escola, promovendo e compartilhando o conhecimento ambiental. Foto: Amanda Baroni

Nathally Hyara, aluna do 8º ano no colégio, diz que o projeto que mais gostou foi o da construção do sistema de irrigação da horta, por ter se sentido desafiada a adquirir um novo conhecimento:

“Todos os sistemas de irrigação que estão aqui foram os alunos que fizeram. Eu dei várias ideias e a gente tentou buscar uma coisa mais sustentável. Todos os sistemas foram feitos com materiais que a gente ganhou ou que a gente reciclou. Um deles é feito com garrafa de amaciante e outro com mangueira. A gente só juntou todas as ideias e elaborou tudo. Então, foi feito com cada um dos alunos. Cada um deu uma ideia e a gente só botou em prática.”

Fabrício Miguel, também do 8º ano, começou a participar das atividades da horta mais recentemente e compartilha os benefícios desse contato com o verde:

“É desestressante. Eu comecei uma horta. Plantei uma cebola em casa. Botei ela assim no meio de areia, arrumadinha, certinha, e tá um pouquinho grandinha já. Mas lá em casa tem vários tipos de plantas porque minha avó também gosta.”

Uma Horta de História e Memória

Victor Eckhart, ex-aluno do GET, compartilha que, para além do que seus colegas comentaram, há também um resgate da ancestralidade:

“A gente aprendeu muito sobre a ancestralidade, [por exemplo,] que o boldo é uma das plantas mais antigas que a gente tem aqui. Tem um canteiro que é só ancestral. Não só a ancestralidade do Brasil, mas sim a nossa também, dos nossos avós, minha avó mesmo, ela me recomenda muito até hoje tomar boldo para dor de barriga.”

A horta trabalha uma série de temas, entre eles o saberes dos antepassados e sua relação com o meio ambiente. Foto: Amanda Baroni
A horta trabalha uma série de temas, entre eles o saberes dos antepassados e sua relação com o meio ambiente. Foto: Amanda Baroni

Vilson explica que, junto ao trabalho da horta e das disciplinas da grade curricular, a valorização da história local também ganha centralidade nesse processo:

“A gente conta a história do território desde a época dos povos originários, que ocupavam a região, para que as crianças daqui entendam qual é a real história do território que elas fazem parte, para que ajudem a preservar.”

A Luta pela Revitalização do Parque Ary Barroso

O Parque Ary Barroso sofre com a negligência do poder público. Tendo 60 anos, hoje se encontra com grades quebradas, vegetação sem manutenção, lagos secos, e muita água da chuva parada, o que aumenta a quantidade de mosquitos e o risco de dengue, chikungunya, Zika e outras doenças na região.

Isso tudo impulsionou uma ação civil pública por parte do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), denunciando os fatos e cobrando soluções. Finalmente, em 9 de março de 2026, a Justiça determinou ações urgentes da Prefeitura e do Estado do Rio de Janeiro em até, no máximo, 60 dias.

Entre as ações determinadas em juízo estão: que a Comlurb faça a manutenção da vegetação, inclusive de árvores com risco de queda, paralisação de obras não autorizadas em área tombada, demolição de construções irregulares instaladas no local, elaboração de um projeto de restauração e revitalização do parque, incluindo vias internas, jardins, lagos, grade e toda a infraestrutura degradada.

Alunos realizaram campanha nas redes sociais para denunciar descaso com Parque Ary Barroso, na Penha. Fonte: Redes Sociais
Alunos realizaram campanha nas redes sociais para denunciar descaso com Parque Ary Barroso, na Penha. Fonte: Redes Sociais

Diante desse cenário, a recuperação do Parque Ary Barroso também foi abraçada pelos alunos, que já produziram, inclusive, uma campanha para a reativação do local. Segundo Virgínia do Espírito Santo, professora de geografia do GET Brant Horta:

“Fizemos enquete com eles sobre qual o espaço dentro do bairro que os lembra do meio ambiente e eles lembraram do Parque Ary Barroso… Eles fizeram vídeos para colocar no Instagram, pedindo a revitalização do parque, mostraram os brinquedos quebrados. A gente sempre pediu a ajuda da comunidade, porque a gente não queria que isso [esse trabalho de educação ambiental] ficasse só aqui dentro da escola. A gente quer que eles repliquem isso na favela, no bairro. Levem para outras instituições. Por exemplo: agora, eles estão fazendo um trabalho em conjunto com a Arena Dicró no projeto Agroflorestinha com a Ana Santos [do CEM], replicando o trabalho que eles fazem aqui. Nossos alunos vão para lá aos sábados por conta própria. Ensinam outras crianças. Se a gente tem um espaço ocioso, vamos plantar uma árvore, vamos fazer um jardim. A gente precisa colocar na mente que aqui é um bairro que é uma ilha de calor muito intensa. E o único jeito de melhorar isso é colocando mais verde, porque a Prefeitura não vem aqui plantar. O parque está jogado às traças.”

Plantando Novos Futuros

Apesar dos percalços, a esperança sempre encontra um espaço para florescer. Segundo Vilson, a desconcretização do quarteirão será o próximo passo desse movimento:

“Estamos com planos de abrir algumas golas na calçada da escola, quebrar a calçada e arborizar em volta da escola aqui esse quarteirão. Vamos plantar e vamos começar a tomar conta. Vamos fazer da escola esse laboratório vivo.”

Alunos também promovem cuidado e autoconhecimento através de horta. Foto: Amanda Baroni
Alunos também promovem cuidado e autoconhecimento através de horta. Foto: Amanda Baroni

Já Victor deseja implementar o conhecimento na nova escola em que estuda, visando compartilhar com outros colegas:

“Aqui foi onde eu aprendi tudo sobre o plantio, onde eu comecei conhecer as plantas. Agora, eu tenho a minha hortinha em casa, que tem pimenta e girassol. Eu tenho um pé de mamão que tá grande. Eu peguei daqui. Eu pretendo tentar criar um projeto de plantio na minha nova escola, a Heitor Lira, para ajudar as crianças a entender o que eu aprendi aqui. Eu quero passar isso para frente, para a próxima geração.”

Veja Aqui o Álbum Completo do Mutirão no GET Brant Horta, na Penha:

Mutirão de manutenção da Horta Escolar do GET Brant Horta na Agenda Coletiva da Rede Favela Sustentável, 05 de março de 2026

*A Rede Favela Sustentável e o RioOnWatch são ambas iniciativas gerenciadas pela organização sem fins lucrativos, Comunidades Catalisadoras.

Sobre a autora: Amanda Baroni Lopes é formada em jornalismo na Unicarioca e foi aluna do 1° Laboratório de Jornalismo do Maré de Notícias. É autora do Guia Antiassédio no Breaking, um manual que explica ao público do Hip Hop sobre o que é ou não assédio e orienta sobre o que fazer nessas situações. Amanda é cria do Morro do Timbau, no Complexo da Maré.


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