Marlene Ayres segura três colchonetes que recebeu da Secretaria de Assistência Social, enquanto fala aos estudantes da Escola Municipal Princesa Isabel, em visita à exposição Memória Climática das Favelas, em Santa Cruz. Ela foi uma das afetadas pelas recentes enchentes que assolaram a Zona Oeste do Rio de Janeiro. Foto: Bárbara Dias
No dia 3 de março, estudantes e docentes da Escola Municipal Princesa Isabel visitaram a exposição e puderam aprender mais sobre como foi o processo de elaboração da mostra. Bruno Almeida, coordenador do NOPH, apresentou para o grupo como surgiu a proposta da exposição:
“A gente pensou nesse projeto, que é a Memória Climática das Favelas, que visitou dez favelas da cidade do Rio de Janeiro. Uma delas foi o Antares [em Santa Cruz]. A gente fez uma roda de conversa para entender o processo das mudanças climáticas e o que a comunidade lembra dos efeitos. E também de soluções dentro das comunidades.”
Bruno Almeida realiza visita guiada à exposição Memória Climática das Favelas em Santa Cruz com estudantes da Escola Municipal Princesa Isabel. Foto: Bárbara Dias
Enquanto os estudantes conheciam a proposta da exposição, Santa Cruz ainda vivia as consequências das fortes chuvas que atingiram a Zona Oeste e todo o Grande Rio em fevereiro e março de 2026. No dia 26 de fevereiro, a região foi uma das mais afetadas e poucos dias depois, em 1º de março, o cenário se repetiu. Os impactos foram sentidos principalmente em Antares, onde o Rio Cação Vermelho transbordou. Muitos moradores perderam móveis e objetos pessoais ao terem suas casas invadidas pela enchente.
Já os visitantes viam registrado, na linha do tempo da exposição Memória Climática das Favelas, composta de 60 painéis de momentos históricos levantados nas rodas de conversa em 10 comunidades, o processo de reassentamento que produziu Antares, fruto de impactos de chuvas em outras regiões da cidade, em 1966:
Painel da linha do tempo da exposição Memória Climática das Favelas representando 1966: “Reassentamentos Climáticos na Zona Oeste”.
“Muitos dos desabrigados das chuvas de janeiro, de diversas favelas de toda a cidade e da Baixada Fluminense, denominados de ‘flagelados’, foram levados para o conjunto habitacional da Cidade de Deus, outros ainda mais longe, para Paciência, onde fica Antares.” — Painel de 1966 da Linha do Tempo da Memória Climática das Favelas
Seguindo a linha do tempo, as enchentes de fevereiro de 2026 lembravam um triste painel recente, de 2019:
“A cidade do Rio de Janeiro foi atingida por uma forte chuva nos dias 8 e 9 de abril de 2019, a mais volumosa dos últimos 22 anos. A Prefeitura decretou estado de calamidade pública. Foram dez vítimas fatais na cidade, entre elas, Reginaldo Exidro da Silva, que morreu afogado em Antares. A força da água derrubou a estrutura de ferro da famosa Ponte Amarela de Antares. Mais de mil casas foram inundadas, muitos moradores tiveram que ficar debaixo da forte chuva em suas lajes durante toda a madrugada e perderam documentos, móveis, eletrodomésticos, roupas e mantimentos.” — Painel de 2019 da Linha do Tempo da Memória Climática das Favelas
No Palacete Princesa Isabel, a Secretaria Municipal de Assistência Socialrecebia os moradores atingidos pelas chuvas para cadastramento e distribuição emergencial de auxílios e colchonetes. Infelizmente, a exposição Memória Climática das Favelas ganhava novos testemunhos, novas memórias climáticas das favelas em tempo real.
Marlene Ayres Neto, moradora de Antares, foi uma das afetadas pela enchente recente. Ela se aproximou da roda de conversa com os estudantes, que acontecia do lado externo, e compartilhou sua história diante do grupo.
A memória climática que ocupava os banners e linha do tempo no palacete se mostrou atual e contemporânea com um relato vivo de memória climática recente, de poucos dias antes:
“Eu moro na Avenida Antares e eu estou tremendo! Estou em estado de choque ainda. O Rio Cação Vermelho transbordou no encontro de mais dois rios e fomos retirados pelos bombeiros.
Então, precisa ter uma conscientização urgente de todas as comunidades, para não jogar mais lixo, pra ter cuidado com os valões, entendeu? Porque a mudança climática, cada dia que passa, cada ano que passa, vai ser cada vez pior. Então, eu peço desculpa que eu estou em estado de choque ainda, porque eu nunca na minha vida pensei em viver uma situação daquela, simplesmente [virou] um mar. Então, o bombeiro que foi nos socorrer deu suporte para a gente poder sair de lá. Eu nem vou voltar mais, porque cada ano vai subir mais ainda… Eu moro lá há 18 anos. É a segunda enchente que deu. Nossa esperança são vocês, a juventude, a esperança da gente é vocês se conscientizarem, não jogar lixo, tomar muito cuidado com tudo que joga nos rios, para não entupir e fazer barreira da água. Começar a cuidar mais da nossa natureza para um futuro melhor, vocês são a nossa esperança, a esperança dos filhos de vocês, dos netos de vocês.”
Marlene Ayres segura três colchonetes que recebeu no Palacete Princesa Isabel, em Santa Cruz. Em meio à visitação de estudantes da Escola Municipal Princesa Isabel à exposição Memória Climática das Favelas, pessoas afetadas pelas enchentes recebiam suporte da Secretaria de Assistência Social. Foto: Bárbara Dias
Bruno Almeida complementa a fala de Marlene dizendo como é difícil a perda de todos seus bens em uma enchente e sobre a urgência de políticas públicas para que a população pare de sofrer tão recorrentemente com os impactos das chuvas:
Painel da linha do tempo da exposição Memória Climática das Favelas representando 2019: “Enchente em Antares”.
“É muito triste. A gente vê as imagens, mas quando a gente conversa com a pessoa, a gente não tem reação. O que vai falar para a pessoa? O que a gente pode oferecer com relação a isso? Só o suporte. E, nesse momento, o que a gente fez na exposição foi escutar… São questões que não [se limitam] só [às] enchentes, de subir um pouco e descer a água, é perder todo o material e, a cada vez [que isso acontece], as pessoas têm que reconstruir a casa do zero. É quase uma situação de guerra, né? Mas só que a nossa pode ser evitada por políticas públicas.”
Após a roda de conversa, os estudantes, ainda sob o impacto do relato, retornaram à exposição. A professora de história Milena Williston falou sobre a experiência:
“Eu achei uma exposição bem interessante. Nunca tinha visto nada parecido com o que vi aqui hoje. Não sei se foi coincidência ou não com o que tá acontecendo atualmente. A gente vê as coisas do passado, depoimentos dos moradores, a organização do projeto, eu achei bem legal. E eles [os estudantes] estão bem empolgados com as fotos. Acho muito interessante eles verem que a população e eles também precisam se conscientizar de que as pessoas não sofrem só com falta de políticas públicas. A população precisa cuidar daquilo que eles têm. Porque a gente vê que as inundações acontecem tanto por falta de políticas públicas, mas também, como a senhora até pediu [aqui], que a gente não jogue lixo [nos rios] e cuide deles.”
O estudante Tiago Oliveira, 15 anos, faz uma observação de como o impacto da falta de conhecimento sobre a memória pode levar a repetições de problemas que já aconteceram no passado:
“A exposição, eu achei muito interessante! E a forma como o próprio Bruno tinha falado especialmente sobre como cada roda funcionou e como as pessoas esquecem dessas memórias e de como eventos [climáticos extremos] que aconteceram há muito tempo, que são esquecidos, acabam se repetindo… Como se acontecesse uma vez atrás da outra.”
A exposição Memória Climática das Favelas está em exibição no Palacete Princesa Isabel, no Centro Cultural Municipal de Santa Cruz Doutor Antônio Nicolau Jorge, localizado na Rua das Palmeiras Imperiais, s/n, de terça a sábado, das 10h às 15h, até o dia 31 de março. A entrada é gratuita.
Sobre a autora: Bárbara Dias, cria de Bangu, possui licenciatura em Ciências Biológicas, mestrado em Educação Ambiental e atua como professora da rede pública desde 2006. É fotojornalista e trabalha também com fotografia documental. É comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e co-fundadora do Coletivo Fotoguerrilha.
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