
Preocupado com o extermínio de árvores em sua região, o escritor e jornalista, Magnum Alves, compartilhou relato em suas redes sociais sobre podas assassinas que vêm devastando há dois anos o bairro da Taquara, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Magnum é colaborador do Jornal Abaixo Assinado Jacarepaguá (JAAJ) e documenta diversos temas relativos ao cotidiano da região, entre eles a poda predatória que vem se mostrando atrelada à construção de novos empreendimentos imobiliários, estabelecimentos comerciais e uma urbanização insensata.
As Sombras Estão Acabando: Árvores Centenárias Fatiadas
Aos poucos, Jacarepaguá tem perdido o clima de bairro bucólico. O que avança ultimamente com muita velocidade é a derrubada de árvores adultas, aquelas mesmas que por anos geraram sombra, frescor e ainda embelezavam as nossas ruas.
A remoção de uma árvore na Rua Alberto Soares Sampaio, na Taquara, já estava feita quando cheguei. [Aos responsáveis] flagrados em pleno ato, pedi a ordem de serviço. Educadamente, me apresentaram uma autorização. Durante a conversa surgiu a explicação que sempre ouvimos: “A cada árvore derrubada, a Prefeitura planta mais dez ou vinte.”
A árvore removida era abrigo antigo de pássaros e também um importante ponto de sombreamento na região. O espaço ficou evidentemente destruído, mostrando que houve esforço considerável para sua retirada.
Mas um ecossistema inteiro se perde junto com uma árvore desse porte: diversas aves, saguis e outras formas de vida que dependiam dela. Então, fica a pergunta: nosso bairro realmente não precisa de árvores?
Jacarepaguá já sofre com alagamentos, porque grande parte do bairro está tomada pelo concreto. E em outros momentos, enfrentamos um calor absurdo, agravado pela falta de áreas verdes. Plantar árvores em áreas afastadas ou em colinas onde houve queimadas pode até ser compreensível, mas o que estamos vendo acontecer é outra coisa: calçadas que antes tinham árvores, sendo transformadas em estacionamento. E isso não acontece apenas em Jacarepaguá.
Cada vez mais o Rio de Janeiro vê suas árvores adultas desaparecerem enquanto surgem empreendimentos. Não adianta uma foto bonita plantando uma muda para aparecer em reportagem ou nas redes. Quem vive o dia a dia da cidade sabe a diferença entre uma muda e uma árvore que levou décadas para crescer.
Outros episódios se espalham pelo bairro. Na Avenida dos Mananciais, nº 748, onde haviam também árvores centenárias, já podadas e voltando a brotar, as mesmas foram removidas—seus troncos foram retalhados e retirados durante a noite. Há poucos números de distância nesta mesma avenida, na altura do nº 128, uma árvore foi perfurada com veneno. O método é utilizado para ressecar raízes, as matando de dentro para fora. Um outro ponto, localizado na Estrada do Tindiba, altura do nº 2.620, mostra um local onde havia uma árvore, agora com seu solo cimentado.

Estas árvores eram tão robustas e com raízes tão profundas que a remoção levou mais de uma noite de trabalho. Após toda a extração, o que antes era um pequeno ecossistema se tornou apenas terra compactada. Carros passaram a ocupar as calçadas, as fazendo de estacionamento, prejudicando o direito de ir e vir, especialmente à noite, em dias de jogos e durante eventos em outros empreendimentos da região.
E fica a pergunta para todos nós: que cidade queremos deixar para os próximos anos?
Além das derrubadas, também sofremos com podas mal feitas, quando árvores são cortadas apenas de um lado, perdendo sua estabilidade e aumentando o risco de quedas em grandes temporais—como ocorreu em novembro de 2025.
Uma cidade que antes era de sombra e vida, agora começa a ser assombrada por concreto e calor. O paisagismo urbano deixou de ser pensado de forma inclusiva e, muitas vezes, parece servir mais aos empreendimentos do que à população.
Sobre o autor: Magnun Alves é escritor e comunicador, sendo autor do livro infantil “As aventuras de Arthur na Barriga da Mamãe”. É mediador do coletivo Encanto do Sertão Carioca e colaborador no Jornal Abaixo Assinado, reportando sobre a Zona Oeste do Rio de Janeiro.
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