
Esta matéria faz parte de uma série sobre as eleições de 2026, com enfoque nas perspectivas das favelas do Grande Rio.
No primeiro turno das eleições de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) determinou a alteração de 277 locais de votação ao todo, sendo 72 destes justificados por motivos de segurança da população, visando “impedir” que a votação fosse realizada em locais dominados por facções criminosas e milícias ou classificados como de alto risco. Algo praticamente impossível no Rio de Janeiro.
No entanto, eleitores de favelas vivenciaram um verdadeiro transtorno para votar: mudanças repentinas nos locais de votação, desorganização, falta de informação e filas imensas com tempo de espera de até quatro horas.
Entre os territórios mais impactados, estão o Complexo da Maré, os bairros de Ramos, Olaria e Penha, onde votam muitos moradores dos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da cidade, a Rocinha, na Zona Sul, e a Cidade de Deus, na Zona Sudoeste. Historicamente, territórios que se manifestam eleitoralmente, que defendem a democracia e que têm dado a vitória ao Presidente Lula, tanto na eleição de 2022 quanto na de 2026.
Zonas Eleitorais Retiradas das Favelas e Filas Sem Fim
Para quem já estava acostumado a votar perto de casa, a mudança foi radical. O Complexo da Maré, por exemplo, teve cinco pontos eleitorais retirados da comunidade, o que impôs deslocamento a 52% da população. Foram mais 30.000 mareenses que tiveram suas zonas eleitorais transferidas para Bonsucesso ou Avenida Brasil.
Para se ter uma ideia da distância, usando como base o Google Maps, o deslocamento entre um dos locais antigos de votação e um dos novos chega a três quilômetros e meio, com quase 50 minutos de caminhada entre os locais. Muitos eleitores descobriram essa mudança na hora de votar ou poucos dias antes.

Para o público com restrições de acessibilidade, como idosos e pessoas com deficiência, a mudança de local de votação atrapalhou ainda mais. Esse foi o caso de Vitor Santiago, cadeirante e morador da Vila do Pinheiro, na Maré:
“Eu votava na Escola Josué Castro, na Vila do João [comunidade vizinha ao Pinheiro] e aí mudaram [o local]. Eu fiquei sabendo [da mudança] há uns três dias atrás. Da minha casa, que é no Pinheiro, para a escola é bem perto. Cadeira de rodas é sempre complicado por conta de quebra mola, carro, moto, gente… Mas era relativamente tranquilo. Agora que mudou pra Bonsucesso ficou um pouco mais complicado porque preciso pegar um carro por aplicativo. [Tenho que] desmontar cadeira, montar. A logística é bem mais complicada.”
Muitas das filas também foram em função de quem ficou esperando no lugar errado. Em função da falta de comunicação da alteração, alguns eleitores só descobriam no local e na hora de votar que tinham que ir para um bairro vizinho realizar seu direito democrático de votar. Assim sendo, muitos que já tinham perdido tempo no antigo endereço teriam que enfrentar uma nova fila em outro. Isso levou muitos eleitores a desistirem de votar.

Apesar da informação ter sido publicada no portal do TRE-RJ, não houve uma comunicação eficiente e a população foi prejudicada. O perfil Maré Vive divulgou a relação de locais para facilitar o acesso a essa informação, o que mesmo assim não impediu o transtorno.
Ver esse post no Instagram
No Complexo da Maré, que engloba as zonas eleitorais 161ª e 162ª, moradores chegaram a esperar quatro horas na fila, segundo dados da Redes da Maré. Em publicação nas redes sociais da instituição, é possível ver a extensão da espera e a bagunça em diferentes pontos de votação.
Ver esse post no Instagram
Na Rocinha, o Ciep 303 Ayrton Senna, localizado na zona 211ª, viveu o mesmo. Em alguns momentos do dia, as filas chegaram a ter um quilômetro e meio de extensão, impondo horas de espera aos eleitores da favela. Ainda na comunidade, o enguiçamento de um ônibus e um carro no mesmo dia piorou o cenário, causando um congestionamento gigante até as 14h. Mesmo não havendo relação direta com as eleições, a situação joga luz sobre a importância de se pensar em melhorias na acessibilidade e no deslocamento de moradores nas favelas da cidade.
Ver esse post no Instagram
Em Ramos, no Colégio Estadual Olga Benário Prestes, a espera também era de pelo menos uma hora.
Ver esse post no Instagram
Desistência pelo Cansaço: Abstenção Produzida nas Favelas
Vale ressaltar que o dia das eleições foi ensolarado e fazia um calor forte, situação que acabou virando uma prova de resistência, implicando a desistência de muitos. Segundo dados do próprio TRE, a taxa de abstenção da Maré e da Rocinha superou a média nacional, chegando a 24,86% e 26,86%, respectivamente. Em geral, a taxa de abstenção no Brasil foi de pouco mais de 21%.
E os dados reforçam como a mudança surtiu um efeito negativo nestas eleições: a cada 100 eleitores da Rocinha aptos a votar, 27 não compareceram às urnas, cerca de um terço da comunidade. A Maré ficou em 1º lugar no país como o local com a menor porcentagem de votos. Segundo pesquisa, a mudança de local foi apontada como a principal motivação para a abstenção.
Historicamente, as regiões da Maré, Rocinha, Penha e Ramos compõem um dos maiores colégios eleitorais de Lula. Em 2022, por exemplo, a Rocinha foi a região que mais votou no candidato, com 78% dos votos.
Ver esse post no Instagram
Além disso, são os territórios com significativa presença na cidade: somando os moradores da Maré (125.000), Rocinha (72.021), Cidade de Deus (36.515), Penha (100.000) e Ramos (40.792), chega-se a um total de 374.328 habitantes, uma quantidade expressiva de pessoas com potencial para decidir os próximos quatro anos.
Ver esse post no Instagram
Para Gizele Martins, jornalista da Maré, essa mudança não é mera coincidência:
“Mudaram nossos locais de votação em cima da hora. Imagina: cadeirantes e idosos deixando de votar na Maré para votar em outros bairros? Chegando no bairro você enfrentava duas, três, quatro horas de fila. Todo mundo muito estressado, confuso, cansado. Isso não foi à toa. Fizeram favelas enormes como as nossas a mudarem o local de votação. Você acha que a pessoa vai para Bonsucesso, Ramos, Olaria [pra longe] pra votar? Algumas foram e passaram horas na fila. E muita gente ficou do lado de fora [não conseguiu ou desistiu]. Deu 17h, os portões foram fechados. Foi essa a realidade [das eleições 2026 para os moradores de favela].”
Ver esse post no Instagram
O combo de complicações vivido pelo eleitorado favelado neste primeiro turno teve impacto significativo também para o resultado e reforçou a importância da acessibilidade para o exercício da democracia em favelas. Em nota, a Redes da Maré questiona a motivação da decisão:
“Em dez anos de monitoramento, o projeto De Olho na Maré não registrou confrontos armados nos dias de eleição. Os locais transferidos funcionam em escolas municipais. Se esses prédios recebem crianças diariamente, por que seriam inadequados para adultos votarem por algumas horas? Sem critérios transparentes, a decisão reforça o estigma da favela como território perigoso e desconsidera a sua organização comunitária. A qualidade da democracia se mede também pela capacidade dos territórios populares de participar das decisões sobre seu presente e futuro.”
Antes de votar no segundo turno das eleições 2026, que acontecerá no dia 25/10/2026, verifique sua Zona e Seção Eleitorais no portal do TRE.
Sobre a autora: Amanda Baroni Lopes é formada em jornalismo na Unicarioca e foi aluna do 1° Laboratório de Jornalismo do Maré de Notícias. É autora do Guia Antiassédio no Breaking, um manual que explica ao público do Hip Hop sobre o que é ou não assédio e orienta sobre o que fazer nessas situações. Amanda é cria do Morro do Timbau, no Complexo da Maré.
