Saúde Mental de Crianças Negras e a Importância das Emoções [PODCAST] #DesenraizandoRacismo

Arte original por Yara Santos

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A matéria deste 12 de outubro—dia das crianças—ilustra os efeitos do racismo na saúde mental de crianças negras. Ela faz parte da série antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021—Enraizando o Antirracismo nas Favelas: Desconstruindo Narrativas Sociais sobre Racismo no Rio de Janeiro.

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Ando bem triste. Nunca pensei em atravessar uma crise sanitária como a pandemia do coronavírus. Tudo anda em alta por aqui: meus sentimentos, a falta de perspectiva, o desemprego, a gasolina, os preços no supermercado e todos os meus dilemas pessoais. Está tudo à flor da pele.

Mas antes de ser um homem, eu fui uma criança. Uma criança negra. Todas as camadas e autocobranças do que eu sou hoje vêm dessa criança. Eu, Cleyton Santanna, jornalista e roteirista, cria da Baixada Fluminense, vou, através de relatos da minha vivência, trazer alguns dados recentes sobre um tema pouco falado: a saúde mental de crianças negras.

Cleyton Santanna ontem e hoje
Cleyton Santanna ontem e hoje

Freud, o pai da psicanálise, introduziu que a época mais importante para a formação de nosso caráter é a primeira infância—fase onde as experiências e as mais diversas relações familiares influenciam nosso desenvolvimento e moldam o adulto em que nos transformaremos. Por isso, a saúde e os estímulos mentais às crianças e bebês são tão essenciais.

Ser uma criança nos anos 2000 foi viver a promessa de um mundo novo e mais conectado. Ser uma criança negra na virada do milênio foi viver debaixo da responsabilidade de fazer cumprir essa promessa de ascensão social e desenterrar uma história engasgada ao longo dos mais de 400 anos de injustiça social que foi o período de escravidão e pós-escravidão no Brasil.

Lembro de passar tardes inteiras agoniado, com uma angústia que não cabia em mim, por volta dos meus sete, oito anos de idade. Morava em uma casa com muita umidade e sem conforto algum. E eu pensava já naquela época: “Cara, eu preciso ser alguém por essas paredes sem reboco, por esse banheiro sem piso e pia, por essa cozinha no chão de cimento.” Essa realidade da casa dos meus pais só veio a se transformar em um tempo ainda recente. Mas esse atravessamento segue comigo até hoje. Sim, eu era uma criança ansiosa e com cobranças internas que nenhuma criança merece ter. Só agora percebo que a estrutura racista que construiu o caminho da minha família desde a escravidão prejudicou muito a minha saúde mental.

Cleyton Santanna ainda criança, sentado no sofá da sala de sua casa. Arquivo pessoal de Cleyton Santanna
Cleyton Santanna ainda criança, sentado no sofá da sala de sua casa. Arquivo pessoal de Cleyton Santanna

Em 2017, foi apresentada na Reunião da Sociedades Acadêmicas de Pediatria dos Estados Unidos uma pesquisa que demonstrou os efeitos prejudiciais à saúde que o racismo pode ter sobre as crianças. A pesquisa mostrou que a combinação de fatores como discriminação e a renda econômica baixa proporcionam taxas mais altas de transtornos de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), ansiedade e depressão em crianças estadunidenses.

Quando ainda estamos aprendendo a lidar com as nossas emoções na infância e somos bombardeados pela realidade dura do racismo, fatores como uso problemático de substâncias viciantes, incapacidade de viver de maneira independente, problemas com a justiça, evasão escolar, limitações econômicas, problemas de saúde física e o suicídio se tornam desafios mais prováveis na vida adulta. Muitos de nós não sabemos como sair desse lugar. Corroborando com o alerta global da Organização Mundial da Saúde, que diz que “não há saúde sem saúde mental”, uma grande parcela da população negra está doente. No Brasil, o Ministério da Saúde, em 2019, mostrou que no Brasil 60% dos jovens entre 10 e 29 anos que cometem suicídio se autodeclaram negros.

Além das condições precárias da minha jornada pessoal de vida, como mencionei, estamos submetidos também não apenas à agressão racista aberta, mas a uma estrutura social que nos inferioriza, nos apaga, nos humilha ou nos associa ao que há de ruim. O primeiro momento em que se vê isso é no período escolar, onde as crianças negras podem ser vítimas de estigma e discriminação pela sua aparência. Como consequência, internalizamos ali características negativas que são atribuídas a um sentimento de inferioridade, comportamentos de isolamento, timidez, agressividade e a eterna sensação de não pertencimento. Comigo a escola foi um ambiente tranquilo, mas sei que essa não é a realidade de muitos de nós, especialmente para meninas negras.

Como Identificar Esses Sintomas nas Crianças?

Antes de tudo, é importante sinalizar para as crianças que sentimentos como medo, raiva, tristeza e angústia são inerentes a qualquer pessoa. Para isso há um livro ótimo chamado Emocionário: Diga o que Você Sente, de autoria de Cristina Núñez Pereira e Rafael Valcárcel. As autoras propõem às crianças um diálogo sobre as mais diversas emoções, que acaba sendo bom para os adultos também, afinal muitos de nós não sabemos acolher as nossas emoções e muito menos entender que somos dignos de viver aquele sentimento.

Emocionário definindo o que é solidãoO foco da sua atenção deve ser se você sente ou percebe em suas crianças essas emoções mais frequentes e intensas que o habitual. Na minha infância, por exemplo, eu lembro de ficar assim, angustiado, todo fim de semana ou quando o dia estava para acabar. Minha mãe sempre tentava entender e mandava eu tomar um banho para relaxar. Eu lembro que depois do banho eu abraçava ela no sofá e chorava bastante. Se o seu filho apresenta sintomas como aumento ou perda de apetite, dificuldade para adormecer ou com sono aumentado, ou caso ele se isole de amigos ou do convívio familiar, é importante consultar um profissional da saúde, pediatra ou psicólogo, e jamais tratar com desdém o sentimento dessa criança. Pelo contrário: essa criança precisa ser escutada. A escuta é uma fonte importante para acolher questões relacionadas ao bem estar físico e emocional. Todos esses esforços reverberam no desenvolvimento mais saudável de crianças e adolescentes e possibilitam que sejam mais felizes ao longo da jornada da vida.

É evidente que não podemos olhar o assunto pensando exclusivamente nas dificuldades que temos em lidar com as nossas emoções. Além da falta de acesso ao conhecimento, faltam políticas públicas multisetoriais que envolvam as famílias, a comunidade, o sistema de saúde, a educação e a assistência social. Saúde mental deve estar em primeiro plano, pois, só com ela em equilíbrio, há desenvolvimento humano com qualidade.

Sobre o autor: Cleyton Santanna é jornalista e roteirista, formado pela UFRRJ e pela CriaAtivo Film School. Em seu canal no YouTube, discorre sobre curiosidades, ancestralidade e cultura afro-brasileira. Em 2017, produziu dois documentários: “Entre Negros” e “Tudo Vai Ficar Bem”, e em 2018, foi premiado como roteirista, com o curta-metragem: “Vandinho” pela Creative Economy Network. Atualmente, atua como comunicador no Museu do Amanhã e apresentador do podcast Influência Negra.

Sobre a artista: Sobre a artista: Yara Santos, ilustradora, estudante de design generalista pela Universidade de São Paulo, nascida e criada na periferia da Zona Sul de São Paulo, busca representar em suas artes elementos da cultura negra e periférica na qual ela está inserida. A maior parte de sua produção se concentra em técnicas digitais.

Esta matéria faz parte da série antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021—Enraizando o Antirracismo nas Favelas: Desconstruindo Narrativas Sociais sobre Racismo no Rio de Janeiro.

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