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Explorando o “Outro” Rio: Aprofundando o Debate Sobre o Turismo em Favelas

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Ao lado do Cristo Redentor, Pão de Açúcar e do estádio do Maracanã, as visitas às favelas do Rio estão agora enraizadas firmemente no mapa turístico da cidade. Hotéis e albergues oferecem aos visitantes passeios em favelas por toda a cidade, com uma gama cada vez maior de alternativas: dos mais tradicionais “tours” para experiências culinárias, e até mesmo “favela paintball” estão nos pacotes. Inúmeras pessoas (de grandes empresas a empreendedores individuais), a maioria delas não moradores de favelas–estão agora envolvidas nesta indústria em expansão.

No entanto, o turismo nas favelas é freqüentemente tão controverso quanto popular, acusado de ser apenas mais uma manifestação do “turismo da pobreza” explorador e voyeurista. Busco aqui dar uma visão geral do turismo em favelas, examinando algumas das alternativas e avaliando suas problemáticas e aspectos, bem como os benefícios que o turismo nas favelas podem trazer.

Este boom do turismo nas favelas é resultado de inúmeros fatores, mas em grande parte devido à presença das UPPs que têm minado o poder das facções nas favelas ocupadas. Isso criou um ambiente muito mais propício para visitas–o turista comum vai se sentir muito mais confortável passando por um policial fortemente armado do que um traficante de drogas fortemente armado. Sem UPP, diz Cleber Geraldo Santos, fundador do Turismo no Alemão, no Complexo do Alemão, “você nem sequer  podia pensar em turismo“.

Turismo de Pobreza

Um vídeo do grupo Porta dos Fundos, intitulado “Pobre”, satiriza um guia ignorante e tosco durante um tour na favela. Enquanto os turistas estão dentro de um jipe, o guia diz para eles tirarem quantas fotos eles quiserem, adicionando ainda que “não alimenta não, porque eles já estão bem alimentadinhos”. grupo então entra na casa do Sr. Jair, passando por seus pertences e o guia explica as curiosidades da casa “do pobre” (“uma coisa interessante é a geladeira de pobre…”). Finalmente, o guia se desculpa com o grupo dizendo que “não está fácil achar pobre… a gente tem que viajar para achar pobre de verdade… Se você tem alguma coisa para doar, não doe, por favor, porque a gente vive disso”.

Esta caricatura capta o que muitos, dentro e fora das favelas, sentem como o que há de errado com esses tours. É voyeurístico, paternalismo condescendente, e cheio de estereótipos, servindo finalmente para reproduzir os mitos e preconceitos que mantêm as condições sociais que excluem as favelas e seus moradores do resto da cidade.

E, na verdade, este é um problema significativo criado por empresas de turismo que trabalham em favelas, muitas vezes com guias que nãoo da própria comunidade. “[Eles] vêm com guias externos, que não sabem a história, a parte cultural, não têm memória de coisa alguma, e inventam muitas coisas”, reclama Vitor Lira, que oferece o Tour Histórico do Pico do Santa Marta, no Santa Marta. “Eles tiram foto de criança sem autorização, eles tiram fotos de mulheres tomando banho de biquini sem autorização, tiram fotos de pessoas dentro de casa sem autorização”.

Passeios de jipe, onde o visitante não precisa sequer descer para andar na favela, são alvos óbvios para a analogia com um safari. Mas no Complexo do Alemão, Cleber Geraldo Santos destaca a “humilhação” dos moradores causada por turistas que circulam acima de suas cabeças no teleférico, inaugurado em 2011. “Não queremos mais um safari”, explica. De fato, o Alemão, localizado na Zona Norte do Rio, torna-se uma escolha menos óbvia para visitas turísticas do que a maioria das favelas da Zona Sul; e ele quer que os visitantes tirem o máximo de fotos possíveis. Ele acredita que as fotos dos turistas podem ser um veículo de mudança trazido através da visibilidade, pressionando governo: “[O visitante] vê muitas coisas que o deixam chocado: muito lixo e coisas que são desagradáveis de ver. Nosso objetivo é que as pessoas vejam isso, fotografem e espalhem para o mundo inteiro”.

No entanto, muitas das queixas típicas podem ser evitadas se o passeio é feito com responsabilidade. Levando um grupo de visitantes a uma favela, provavelmente um lugar diferente de tudo o que já experimentaram antes, sem dúvida, promove um certo nível de voyeurismo. Tantas coisas novas para explorar que os deixarão de bocas abertas. No entanto, como pesquisador Tucker Jordan observa em seu blog de três partes sobre o turismo de favelas, todo o turismo é por natureza voyeurístico, e não se deve cair no erro de descartar visitar uma favela apenas por causa desse potencial.

Talvez o mais importante seja ressaltar que as visitas turísticas nas favelaso se qualificam como simples “turismo de pobreza”. Simplificando, as favelasoo “slums” (bairros sórdidos) e não necessariamente pobres. Um estudo do Data Favela, um instituto especialista em condições econômicas das favelas, descobriu que, com a explosão da “Classe C”, 65% dos moradores da favela do Rioo agora de classe média. Isso não é para negar que a pobreza é um problema significativo, mas nem os que vão nos passeios, nem aqueles que os criticam devem simplesmente presumir que eles são focos de miséria e sofrimento. Na verdade, o resultado disso é mostrar ao ingênuo turista exatamente isso nas favelas: mesmo com todos os problemas como a pobreza e questões afins, as favelaso lugares ricos em cultura, história e até mesmo economicamente.

Exotização

Em um artigo do Huffington Post, Gabriela Kruschewesky denuncia, sem aparentemente ter estado em um dos “tours” em favelas, a “exotização do outro” inerente ao processo de levar turistas estrangeiros às favelas. Ela argumenta que o turismo de favelas solidifica a posição de exotizado do “outro” dentro de um sistema mundial onde aqueles com mais dinheiro e capital cultural podem tanto ficar de queixos caídos quanto tirar vantagem do “presumido inferior”. Seu conselho para turistas estrangeiros que podem considerar visitar essas “belas”, mas “frágeis, complexas, imprevisíveis e problemáticas” comunidades em última análise é: Não vá–“fique no hotel, atravesse os cartões postais e as partes seguras… a alternativa é a exploração e promoção da ignorância de toda a realidade de um povo”.

A exotização é, sem dúvida, um problema potencial. No entanto, apesar de sua abordagem simpática, Gabriela parece levar muitos dos sutis preconceitos que, ironicamente, faz da exploração desagradável deste “outro“, uma coisa importante. Durante anos, turistas–e na verdade, a maioria dos nativos não-favelados do Rio–o sonhariam em entrar em uma favela, por causa de uma infinidade de medos. E é precisamente a “alteridade” criada por essa falta de contato e os preconceitos gerados como consequência, que leva a exclusão social ao centro de muitos problemas nas favelas.

A pesquisa de Percepções Sobre a Favela realizada pela Comunidades Catalisadoras, mostra como as visitas às favelas ajudam a quebrar essa alteridade. Dos estrangeiros entrevistados, 64% dos que nunca visitaram uma favela tiveram uma percepção desfavorável delas, sendo que apenas 14% tiveram uma percepção favorável. A situação mudou em relação a perspectiva daqueles que estiveram nas favelas: 29% enxergaram os bairros de um ponto de vista desfavorável e 71% tiveram uma visão positiva dos moradores. A pesquisa também mostra que, esmagadoramente, aqueles com uma percepção desfavorável de favelas aprendem sobre elas através de noticiários ou filmes.

Como discute Tucker Jordan em seu blog, os estrangeiros não crescem com “preconceitos sócio-espaciais construídos localmente” e, portanto, “adotam facilmente a narrativa fornecida por seus guias, agências de turismo e outros”. Isso é tão perigoso quanto benéfico e por fim há todas as demais razões pelas quais os turistas devem ter cuidado com a escolha dos passeios. Eles podem acabar repetindo o que os guias turísticos sensacionalistas dizem (alguns guias dizem que exageram a violência para entreter os visitantes), mas ao mesmo tempo eles podem abraçar as comunidades com uma abertura que aqueles que cresceram na cidade formal com tais preconceitos nem sempre conseguem. Cleber destaca a demografia dos visitantes que recebe: “99% são estrangeiros e 1% brasileiros. E deste 1%, nunca houve um carioca… até hoje, ninguém”. Em sua opinião, ele continua: “brasileiros não querem saber de favelas “.

Na verdade, alguns guias assumem a responsabilidade de desafiar mitos e falsas narrativas. Vitor usa seus passeios para chamar a atenção para as questões que Santa Marta enfrenta, principalmente a persistente ameaça de demolições de casas no pico, sob a desculpa de saúde e segurança. Em suas visitas, ele explica que precisamente é para “dar visibilidade à ameaça de remoções, algo que teve muitas repercussões”, promovendo a consciência política entre os moradores e pessoas de fora “e assim estamos conseguindo manter o pico através dessa visibilidade”.

A Favela e a Cidade

Há uma implicação final, preocupante, do turismo nas favelas. Conforme observado, as UPPs foram importantes para “abrir” as favelas a visitantes externos. Como resultado, além de visitas como as dos turistas, estrangeiros até começaram a morar nas favelas. Um artigo recente, embora possivelmente superestimado, colocou o número de estrangeiros no Vidigal em 1000. Qual é a consequência disso? Os moradores têm encontrado seus espaços públicos cada vez mais monopolizados por pessoas de fora, e festas para estranhos sendo priorizadas dentro de sua própria comunidade, sem alternativas claras para os moradores tradicionais. Simultaneamente, o mercado de habitação a preços acessíveis do Rio de Janeiro não se expandiu para acomodar os deslocados.

“[O guia de fora] diz que aqui é um lugar público e ele faz o que ele bem entende”, diz Vitor. “Se fosse público, a gente também tinha que fazer um outro contraponto. Vamos começar a abrir os condomínios de luxo no Recreio e na Barra, para os favelados também ir lá conhecer a riqueza… Acho que não vou passar da portaria. Então por quê aqui pode e lá não pode? Espera aí, dessa forma não quero ninguém aqui dentro não”.

Tudo isso ecoa com a questão cada vez mais persistente da gentrificação: como aqueles com maior poder aquisitivo cada vez mais monopolizam a comunidade, os moradores vêem o custo de vida subir e suas vidas se tornam pouco manejáveis. O turismo pode, sem dúvida, fazer parte desse processo, pois, tanto quanto aqueles com espírito empreendedor podem capitalizar benefícios econômicos, ao mesmo tempo, não é claro que esses benefícios irão permear o resto da comunidade.

Em última análise, o turismo de favelas é um tema complexo e problemático. No entanto, não deve ser posto de lado. Tanto quanto pode ser vulgar e explorador, e reproduzir narrativas perigosas e exotizar as favelas, quanto também pode ajudar a quebrar essas narrativas e promover um diálogo saudável sobre as favelas e a cidade.

Para que o turismo de favelas seja feito adequadamente é necessário que os turistas busquem além das grandes empresas de turismo, e encontrem narrativas alternativas–que não são reproduzidas no discurso dominante, dando expressão às vozes das próprias comunidades. Os turistas devem tomar nota de guias que, como Vitor e Cleber, tentam trazer benefícios reais às suas comunidades, criando consciência social e mudança–mesmo que isso signifique transformar os próprios conceitos de turismo. E políticas, como controle de aluguel em favelas pacificadas, devem ser debatidas para que moradores vulneráveis à especulação possam se beneficiar sem se perderem no processo.

Para entrar em contato com Cleber, visite a página no Facebook do Turismo no Alemão.

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