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Um Sistema de Agrofloresta Urbana Está em Curso no Morro da Providência

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Esta é a oitava matéria de uma série gerada por uma parceria, de um ano, com o Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental em favelas para o RioOnWatch.

No dia 15 de fevereiro, um sábado ensolarado, o Morro da Providência recebeu voluntários para um mutirão de manejo de um sistema agroflorestal sintrópico. A Providência está ganhando cada vez mais atenção pelas suas iniciativas de agrofloresta. Este sistema em particular já está sendo desenvolvido no local, na região portuária, há nove meses em cima do Túnel João Ricardo. Além da manutenção e expansão da agrofloresta, no dia 15, o foco foi em montar um cantinho de leitura na área.

A iniciativa faz parte do projeto Horta Inteligente baseado na primeira comunidade denominada ‘favela’, nascida em 1897 como Morro da Favela, hoje a Providência. O projeto criado em 2015 por Elisângela Almeida Oliveira, com apenas 18 anos na ocasião, também é gerido pela engenheira ambiental Lorena Portela, uma jovem atuante em agroecologia e permacultura, que se uniu a Elisângela um ano depois do início do projeto.

Nos seus primeiros dois anos, o Horta Inteligente concentrou-se em atividades semanais de educação ambiental atendendo mais de 400 crianças que participavam de atividades de reciclagem, plantio, culinária e arte, na Creche Municipal Tia Dora, e em oficinas durante feiras ou no pequeno jardim da centenária Igreja Metodista, na Gamboa. Inicialmente, as ações contaram com o apoio da Agência Redes para a Juventude. Durante vários períodos, o projeto foi mantido inteiramente com o trabalho voluntário e a persistência de Elisângela, de sua mãe e de Lorena. Aos poucos, com apoio de parceiros na comunidade foi possível expandir as atividades para crianças maiores, entre 6 e 12 anos, de dentro e de fora da favela.

Com quase 5 anos de existência, há nove meses, o projeto tomou a iniciativa de revitalizar um espaço público e baldio, em cima do Túnel João Ricardo construído em 1919, na Gamboa. Este local acima do túnel conhecido como Java é um dos principais acessos ao Morro da Providência. Antes da iniciativa, este espaço era usado para descarte de lixo e o mato alto dominava o terreno, tornando o local propício para focos de doenças. Após nove meses de ocupação o espaço já está transformado, e neste sábado de mutirão o Horta Inteligente fortaleceu a ação convidando voluntários, moradores e de fora da comunidade, para realizarem o manejo do local e refazer um cantinho de leitura, para doação e troca de livros.

O mutirão trabalhou para impulsionar o crescimento das árvores frutíferas e manejo em geral. As etapas foram: limpeza e remoção do lixo acumulado no entorno; retirada da grama; poda dos margaridões, mamonas, chayas, taiobas e inhames crescidos; poda de crescimento nas árvores frutíferas; instalações de estacas de amora; plantio de inhame, mandioca, sementes de girassol, milho e crotalária nos espaços com boa iluminação. A ação do dia contou com doze voluntários.

A voluntária Mariana Vannier e a moradora Alice Santos participam do mutirão. Foto: Bárbara Dias

Motivação para Revitalização do Espaço

Java, a área acima do túnel, consiste em um trajeto cercado por uma pequena mata. Anteriormente, o local, além de conter lixo, causava medo aos moradores que transitavam por ali. Porém, Elisângela tinha uma visão diferente do local, ela nos conta: “Eu sempre passava por ali quando eu estava no ensino fundamental. Nestes momentos eu pensava: ‘Nossa que gostoso ficar aqui’. Eu sentava ali numa pedra e ficava observando. Era um sonho meu fazer alguma coisa naquele espaço”. Elisângela prossegue: “No começo muitos moradores falaram que não iria dar certo, mas conversando com moradores a gente propôs o apoio deles. Ali é de todo mundo, e eles entenderam que o espaço também é nosso”. 

Segundo Lorena, os moradores do entorno e alguns comerciantes começaram a apoiar a iniciativa cedendo o uso do banheiro e de geladeiras para guardar os lanches dado para os voluntários durante os mutirões. Para Lorena o objetivo de modificar este local é “criar um espaço comum, um espaço de convivência, mudando a relação das pessoas com o espaço. O lixo diminuiu muito e os moradores começaram a trazer mudas para plantar. Alguns falam que era um desejo plantar ali”.

Lorena Portela, engenheira ambiental, em ação no mutirão. Foto: Bárbara Dias

Lorena complementa: “Muitos moradores falam que passam e estão sempre olhando, e quando acontece de ver alguém tentando arrancar alguma planta eles sinalizam que não pode. A gente não tem o que reclamar. Uma rede se formou. A gente sempre conta com os moradores e alguns donos de bares. A nossa maior vitória foi o fato de ter plantado e ter ficado. A gente já estava preparada para arrancarem tudo, mas a gente apostou e deu certo. Todos falam que está lindo ”.

O espaço conta com uma ambientação muito cuidadosa com placas sinalizando os nomes das árvores frutíferas e frases como: “ Você faz parte da natureza” e “ Lixo no lixo”. Tem até uma instalação artística feita com os lixos retirados nos dias de manejo. Estes detalhes criam um ambiente acolhedor e de pertencimento. No dia do mutirão era comum ver os moradores descendo por ali sorrindo, dando bom dia e até mesmo fotografando a agrofloresta, que todos chamam de hortinha.

Arte-instalação com lixo recolhido nos mutirões de limpeza. Foto: Bárbara Dias

Agrofloresta Urbana na Providência

Lorena relata que as técnicas utilizadas em Java, eram antes demonstradas em oficinas do projeto Horta Inteligente de forma isolada em encontros fora de espaço verdes, portanto eram menos assimiladas. Ela explica que tendo agora uma área verde com um tamanho considerável, as modificações feitas pelos moradores e voluntários, junto com a ação da natureza, são bem percebidas. Nos mutirões a engenheira descarta a necessidade de termos técnicos quando o grupo é formado por crianças pequenas, deste modo a aprendizagem acontece de maneira empírica.

Lorena, explica o que é a agrofloresta sintrópica: “Trata-se de um sistema de plantio que a gente mistura muitas espécies de plantas frutíferas num espaço reduzido. Ao invés da gente ter uma linha só de mamão, por exemplo, a gente tenta fazer o que acontece na natureza, por isso a gente chama de floresta. Pense na Mata Atlântica: várias espécies unidas, cada uma no seu tempo, umas gostam mais de sombra, outras mais de luz. A gente entende a necessidade de cada planta: a que precisa de mais água, plantas que precisam de mais luz. A gente ensina sobre estas necessidades. Por exemplo tomateiro precisa ficar perto da bananeira porque essas árvores vão se apoiar. E um dos princípios da agroecologia e da agrofloresta é plantar sem química. Não ensinamos estes termos tão específico para as crianças, elas vão aprendendo na prática de acordo com as ações que fazemos”.

 Engajamento de Voluntários Moradores e de Fora da Comunidade 

A adesão ao mutirão em uma manhã de sábado com sol de verãoem ritmo de carnaval, com blocos desfilando no entorno—demonstra que os voluntários moradores e de fora da comunidade, que foram para lá capinar e plantar, estão dispostos a manter a beleza do novo espaço, e são conscientes do valor da agrofloresta na comunidade.

Larissa Alves de 23 anos, moradora da Providência, está como voluntária no projeto desde o começo. Ela reserva um tempo nas folgas das aulas do curso de nutrição para ajudar nos mutirões.

“Para mim foi algo muito importante para a comunidade [a ocupação verde da área do túnel] porque ficou diferente para a gente que tem que passar aqui [e que] via muito, muito lixo… Agora a gente chega e já é algo diferente. [A gente] vê inhame, batata… Eu tinha 19 e a Elis [Elisângela] já tinha começado [o Horta inteligente] e estava sem equipe. Então, eu entrei. Como eu estou estudando fora [na Argentina], quando eu venho faço todas as atividades com elas. Eu quero fazer algo para a comunidade”, diz Larissa.

Já outro voluntário no mutirão, Rodrigo Toscano, conheceu o projeto através da Lorena. “Mexer com a terra é uma atividade que me interessa desde pequeno e o trabalho de plantar no contexto da cidade é algo urgente”, Rodrigo pontua. “Os moradores parecem gostar muito das idealizadoras do projeto, e acredito que criaram um laço afetivo com [elas], pois elas cuidam de um espaço público que muitas vezes passou despercebido e que ganhou uma nova vida. A ideia de uma comunidade poder ser a produtora de seu próprio alimento, com técnicas acessíveis de cultivo orgânico, quebra toda a regra mercadológica de produção que só visa o lucro. Eu também acredito que esse cuidado também ajuda na autoestima e felicidade dos moradores, que passam diariamente por ali ao sair e voltar para casa.”

Ângela Lima Almeida, mãe de Elisângela, é uma grande incentivadora do projeto. Durante o mutirão ela esteve sempre com a mão na massa, participando ativamente do manejo do espaço. Ângela parou apenas para conversar com o RioOnWatch, cheia de orgulho, sobre os primórdios da iniciativa e o impacto na sua vida e de sua família depois da criação do projeto Horta Inteligente.

“Elisângela começou [com as iniciativas] participando do projeto da Agência [Redes para Juventude]. Na verdade, esse projeto da horta ainda não tinha sido criado, porque eles [da Agência] criaram a Caçamba Inteligente, mas só que precisavam de um recurso maior e não tinham como investir, então viram que a Elisângela tinha um potencial bom e eles não queriam desistir. Foi então que eles perguntaram [à Elisângela] se ela tinha algum outro projeto que pudesse apresentar, para verem se dava para fazer essa ligação com o valor que poderia ser investido. E ela teve a ideia do Horta Inteligente… Quando ela apresentou o projeto, toda empolgada, eu fui lá ajudar. Desde então, a gente [a família toda] abraçou a causa da Elisângela e a gente está até hoje aí na luta. Sempre que tem mutirão, e a gente pode ficar junto, ficamos. Quando não, a gente sempre prepara o lanche e ajuda a levar. Vimos que ela realmente queria levar esse projeto a sério.”

Ângela Almeida, capinando o terreno da horta. Foto: Bárbara Dias

Ao testemunhar o processo de transformação do espaço, fica perceptível a sensação de pertencimento e de valorização do resultado coletivo. E este dia de ação para a manutenção da agrofloresta terminou plantando um outro tipo de “semente”: a semente da literatura!

As coordenadoras do evento perceberam que após colocarem bancos e plaquinhas na agrofloresta, o local passou a ser mais utilizado pelos moradores que por ali passavam. Foi daí que surgiu a ideia te ter ali uma caixa com livros para serem colocados, deixados ou trocados. Elisângela conta que já é a segunda tentativa de colocar o cantinho de leitura, pois na primeira vez o caixote foi levado junto com os livros que estavam nele. Mas o projeto é resiliente e o cantinho foi refeito.

Uma das características marcantes do projeto Horta Inteligente é a perseverança em manter um espaço de convivência vivo, orgânico e com a participação de todos. O resultado tem sido a materialização de um lugar transformado e transformador para todos os moradores e visitantes da primeira favela, o Morro da Providência.


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