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Não é Obesidade. É Escravidão. [OPINIÃO]

Pessoas aguardando por uma distribuição de máscaras e comida no Harlem, cidade de Nova York. Bebeto Matthews/Associated Press

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Leia a matéria original por Sabrina Strings, em inglês, no The New York Times aqui. Esta é a nossa mais recente matéria sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelasO RioOnWatch traduz matérias do inglês para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar temas ou análises cobertos fora do país que nem sempre são cobertos no Brasil. 

Nós sabemos porque a Covid-19 está matando tantas pessoas negras.

Cerca de cinco anos atrás, eu fui convidada a participar de um encontro sobre saúde na comunidade afro-americana. Diversas figuras importantes nas áreas de saúde pública e economia estavam presentes. Doutora recém-diplomada, eu me sentia estranhamente como uma intrusa. Eu era a única pessoa negra na sala.

Um dos mediadores me apresentou aos outros participantes e disse algo no seguinte sentido: “Sabrina, o que você acha? Por que as pessoas negras estão doentes?”

Foi uma pergunta sincera. Alguns dos especialistas haviam dedicado toda sua carreira a abordar questões em torno das desigualdades de saúde racial. Anos de pesquisa, e em alguns casos de intervenções sem sucesso, os deixaram desorientados. Por que as pessoas negras estão tão doentes?

Minha resposta foi rápida e inequívoca.

“Escravidão.”

Meus colegas pareciam atordoados enquanto tentavam entender a minha resposta.

Eu havia falado sério: A era da escravidão foi quando americanos brancos determinaram que americanos negros precisavam apenas das necessidades mais básicas, o que não era o suficiente para mantê-los adequadamente seguros e saudáveis. Isso colocou em prática o acesso reduzido das pessoas negras a comidas saudáveis, condições seguras de trabalho, tratamento médico e muitas outras desigualdades sociais que impactam negativamente em sua saúde.

Essa mensagem é particularmente importante em um momento no qual afro-americanos sofrem com as maiores taxas de complicações graves e mortes por coronavírus e quando a “obesidade” tem aparecido como uma explicação. A narrativa cultural de que o peso de pessoas negras é um precursor de doenças e morte tem servido há muito tempo como uma distração perigosa das reais fontes de desigualdade, e isso está acontecendo novamente.

Dados confiáveis são difíceis de se encontrar, mas análises disponíveis mostram que, em média, os índices de fatalidades em negros corresponde a mais que o dobro (2,4 vezes) de casos em brancos com Covid-19. Em estados como Michigan, Kansas e Wisconsin, e em Washington D.C., essa proporção salta para 5 a 7 pessoas negras morrendo de complicações da Covid-19 para cada morte de um indivíduo branco.

Detalhes da certidão de óbito de um homem negro que morreu do coronavírus em abril. David Ryder/Reuters

Apesar da falta de clareza em torno dessas descobertas, uma interpretação dessas disparidades que tem ganhado popularidade é a ideia de que pessoas negras são demasiadamente obesas (termo definido como o índice de massa corporal acima de 30), algo que é encarado como um causador de outras doenças crônicas. Acredita-se que isso coloca os negros em alto risco de complicações por Covid-19.

Essas alegações têm recebido intensa atenção da mídia, apesar do fato de que cientistas não foram capazes de explicar satisfatoriamente a conexão entre obesidade e Covid-19. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, 42,2% de americanos brancos e 49,6% de afro-americanos são obesos. Pesquisadores ainda precisam explicar como uma disparidade de 7% na prevalência da obesidade se traduz em uma disparidade de 240% a 700% nas fatalidades.

Especialistas levantaram questionamentos sobre a pressa em se utilizar a obesidade como justificativa, e especialmente a “obesidade mórbida” (I.M.C. maior que 40), como um fator das complicações do coronavírus.

Um artigo no periódico médico The Lancet avaliou a inclusão da obesidade pelo Reino Unido como fator de risco para complicações do coronavírus e constatou: “Até o momento, não há dados disponíveis que mostrem resultados adversos da Covid-19 especificamente em pessoas com um I.M.C. de 40kg/m2”.

Os autores concluíram: “A escassez de informações relativas a um possível aumento de risco de doenças para pessoas com um I.M.C. acima de 40kg/m2 gerou conclusões ambíguas e pode aumentar a ansiedade, dado que esses indivíduo passaram a ser categorizados como vulneráveis a doenças graves caso contraiam Covid-19”.

O uso distorcido da associação entre raça, tamanho do corpo e complicações dessa doença, ainda pouco compreendida, tem servido para reforçar uma imagem de que pessoas negras abusam de prazeres sensoriais como comer e beber, o que supostamente tornaria nossos corpos indisciplinados ainda mais suscetíveis a doenças relacionadas à obesidade que poderiam ser prevenidas.

As atitudes que vejo hoje têm seus ecos no que descrevo em Fearing the Black Body: The Racial Origins of Fat Phobia (Medo do Corpo Negro: As Origens Raciais da Gordofobia). Minha pesquisa mostrou que atitudes anti-gordos não se originaram com descobertas médicas, mas com a crença da era iluminista de que o excesso de alimentação e a gordura eram evidências de “selvageria” e de inferioridade racial.

Hoje, essas discussões são ainda mais relevantes. Quando fiquei sabendo a respeito das diretrizes sugerindo que médicos podem se valer de condições prévias de saúde, incluindo obesidade, para negar ou limitar a elegibilidade a tratamentos do coronavírus que podem salvar vidas, eu não consegui deixar de pensar sobre os debates que estudei em relação ao período da escravidão, sobre se os chamados afro-americanos “constitucionalmente fracos” deveriam ou não receber cuidados médicos.

Felizmente, desde aquele evento, ocorrido cinco anos atrás, especialistas em saúde de afro-americanos têm trabalhado para tirar o foco dos fatores de nível individual.

O Projeto 1619, do New York Times, contou com artigos detalhando como o legado da escravidão impactou a saúde e os serviços de saúde para afro-americanos e explicando como, desde a era da escravidão, os corpos das pessoas negras têm sido rotulados como intrinsicamente doentes e não merecedores do acesso a tratamentos que salvem suas vidas.

Em ensaio recente abordando especificamente a Covid-19, Rashawn Ray sublinhou o legado da negação sistemática de políticas públicas que empurrou a população negra para comunidades pobres, densamente povoadas, frequentemente com acesso limitado a serviços de saúde. E ele destacou que pessoas negras estão em números muito altos em posições de serviço e como trabalhadores essenciais que têm maior exposição no lugar daqueles com o luxo de se abrigarem.

Ibram X. Kendi escreveu que considerar “o comportamento irresponsável de pessoas de cor desproporcionalmente pobres” para culpá-los—o que é com frequência citado como um fator importante em disparidades de saúde—é um bode expiatório que tira a atenção dos americanos sobre a centralidade do racismo sistêmico nas atuais desigualdades raciais na saúde.

Avaliando e relacionando os dados inadequados e questionáveis sobre raça, peso e complicações da Covid-19 com essas reflexões, torna-se evidente que a obesidade—e a associação incorreta com escolhas no nível individual—não deveriam estar à frente quando se trata de compreender como essa pandemia tem afetado afro-americanos. Mesmo antes da Covid-19, americanos negros tinham maiores taxas de doenças crônicas múltiplas e uma expectativa de vida mais baixa do que americanos brancos, independentemente do peso.

Essa é uma indicação de que nossas estruturas sociais estão falhando conosco. Essas falhas—e o pensamento que criou a crença de que os corpos negros são intrinsecamente doentes—estão enraizadas em uma vergonhosa página da história americana que começou a ser escrita centenas de anos antes dessa pandemia.

Sabrina Strings é professora associada de sociologia na Universidade da Califórnia em Irvine e autora de Fearing the Black Body: The Racial Origins of Fat Phobia.


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