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A Quem Servem as Pesquisas Sobre Favelas? Moradores e Acadêmicos Demandam Troca Recíproca

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Esta é a nossa mais recente matéria de uma série gerada por uma parceria, com o Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias para o Digital Brazil Project sobre direitos humanos e justiça socioambiental em favelas para o RioOnWatch.

No dia 14 de outubro foi realizada a aula pública online “Diálogo Favela e Academia: Caminhos Necessários Para Educação Ambiental“. O evento, organizado pelo Grupo de Trabalho de Educação Ambiental da Rede Favela Sustentável (RFS)*, debateu as tensões na relação entre universidades e favelas. Os participantes desaprovaram padrões comuns nas abordagens acadêmicas direcionadas às favelas, ao mesmo tempo em que ofereceram novos modos de pensar que visam reconfigurar essa relação que é, frequentemente, exploratória. O encontro realizado pelo Zoom, que fez parte do Circuito Urbano 2020 da ONU Habitat, foi exibido ao vivo em seu canal do YouTube e ilustrado pela artista Geisa Paganini.

O painel foi formado por Fransérgio Goulart, coordenador executivo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial e fomentador do Espaço Pra Que e Pra Quem Servem as Pesquisas sobre Favelas?; Daniel Fonseca, do Laboratório de Ações e Pesquisas em Educação Ambiental (LAPEAr) da UNIRIO; Camilla Reis, também do LAPEAr; Gildete Barros, diretora da Escola Municipal Jornalista Brito Broca, no Morro da Formiga; Iara Oliveira, cofundadora do Alfazendo, na Cidade de Deus; Zoraide Gomes, conhecida como “Cris dos Prazeres”, do ReciclAção, no Morro dos Prazeres; Verônica Parente, diretora do Projeto Escola Verde, na Cidade Alta; e Alan Brum, do Instituto Raízes em Movimento e da iniciativa CEPEDOCA, no Complexo do Alemão. O debate foi moderado por Iamê da Silva, do Laboratório de Ecologia Vegetal da UFRJ e integrante do Grupo de Trabalho de Educação Ambiental da RFS.

“A gente é um país de rótulo, a gente é um país de título. A gente não é um país de quem faz. Quem constrói essa cidade, esse estado e esse país somos nós: essa população [das favelas] que não é acadêmica e que ainda tem e retém muito conhecimento… que se constrói de acordo com os desafios”, disse Cris dos Prazeres, expressando um entendimento em comum no evento—de que favelas são produtoras de conhecimento através de sua constante invenção e reinvenção diante dos desafios—e que, em vez de reconhecidas por isso, são com frequência exploradas.

“A academia… sempre foi para mim um lugar de muita inquietação, de muita irritação”, continuou Cris, exortando os acadêmicos a entender que a favela “não é um safari… É um lugar de vivência, de sabedoria e de conhecimento”.

Iara ecoou as palavras de Cris, afirmando que diversos pesquisadores atuando nas favelas dizem “que nós somos criativos, mas nós somos sobreviventes… O que os técnicos estão aprendendo na universidade, a gente aprendeu na prática”.


Descrevendo a relação entre favelas e academia, Fransérgio disse que há uma “visão salvacionista” que sustenta o desejo dos acadêmicos de conduzir pesquisas em favelas: “Eles acham, que com as suas teses, eles vão salvar o mundo!”

Alan e Fransérgio destacam a apropriação linguística e a hierarquização adotadas por muitos acadêmicos: “Só basta descer do pedestal“, reforçou Alan, que denunciou o usa da linguagem acadêmica como meio de impor um falso senso de superioridade. Alan também disse que pesquisadores não devem simplificar seus diálogos; as pessoas nas favelas entendem “um ser humano normal falando de igual para igual“. Tanto o excesso de simplificação linguística quanto o uso de vocabulário elaborado para construir uma hierarquia de poder, Fransérgio acrescentou, “é o papel do colonizador”.

Daniel confirmou esse entendimento, como sendo um condutor da natureza sistemática do problema: “A universidade é uma construção do colonizador” e, como resultado, permanece uma instituição eurocêntrica, que vê o outro como um objeto.


Ambos moradores de favela com um pé na academia, Fransérgio e Alan lamentaram que a riqueza da literatura acadêmica a respeito de favelas fez pouco para mudar a realidade nelas. À luz dessa questão, um dos princípios centrais do trabalho de Alan, no Centro de Estudos, Pesquisa, Documentação e Memória do Complexo do Alemão (CEPEDOCA), é colocar sob escrutínio “o tensionamento do saber acadêmico e do seu processo histórico”, ao mesmo tempo que cria “espaços e caminhos de fluxo da produção do conhecimento [das favelas]”. O CEPEDOCA oferece, desde 2013, uma plataforma de convocação para todos os pesquisadores que atuam no Complexo do Alemão, por meio da qual as universidades que atuam na área possam se engajar com os moradores, para desenvolver pesquisas com eles, para que estas beneficiem e empoderem a comunidade.

Os palestrantes concordaram que a mudança precisa acontecer e que ela pode vir tanto de um reconhecimento das falhas de estruturas existentes quanto de um esforço proativo, de baixo para cima e cooperativo (entre moradores da favela e acadêmicos) para transformá-las.

Políticas de cotas têm realizado incursões para democratizar as universidades brasileiras. Daniel descreveu como a Lei Nacional de Cotas mudou “a paisagem da universidade de uma maneira muito radical“. A lei exige que 50% das vagas em universidades públicas sejam reservadas para estudantes que frequentaram escolas públicas. Dessas vagas reservadas, a porcentagem de pessoas negras, mestiças e indígenas precisa ser proporcional ao censo oficial mais recente, e 25% das vagas devem ir para estudantes cuja renda familiar per capita não passe de um salário mínimo e meio.

Embora as cotas tenham garantido que a demografia das universidades refletisse um pouco mais a sociedade brasileira, uma pesquisa realizada com base no Censo da Educação Superior federal sugere que a não divulgação de informações raciais continua sendo comum, dificultando o monitoramento do sucesso da Lei de Cotas.

Os participantes do painel também discutiram sobre barreiras culturais que atrapalham a diversificação total da educação. Camila contou que, quando começou seu mestrado na UNIRIO, havia apenas um outro aluno negro. “A gente entra, [mas] não é a mesma universidade que a gente vai frequentar [a] que todo mundo frequenta”, ela disse, notando como ela muito raramente via estudantes negros nos espaços de sociabilidade da universidade. “[Precisamos] criar uma outra universidade de dentro [da universidade]… para pensar de outro jeito”, ela disse.

A fim de encorajar mais crianças das favelas a frequentarem a universidade, Iara disse que pesquisas preliminares precisam avaliar as necessidades de cada comunidade. Ela realizou esse estudo por muitos anos através de sua organização comunitária, Alfazendo, na Cidade de Deus, e afirmou, que em primeiro lugar, muitas crianças são analfabetas, tornando impossível o acesso universal à faculdade.

Jovens fora da escola por região, renda e raça, 2018. Fonte: IBGE.

Números do IBGE de 2018 mostram que, no Sudeste do Brasil, 26,3% de jovens negros e pardos entre 18 e 24 anos estão fora da escola, com menos de onze anos de educação formal completados. O mesmo se aplica a apenas 13,6% de jovens brancos da mesma idade. Entre os brasileiros com a renda familiar per capita 20% mais baixa, a quantidade de jovens negros e pardos fora da escola sem 11 anos de educação formal aumenta para 44,6%. E, enquanto 53,2% dos brasileiros brancos que completam o Ensino Médio entram no Ensino Superior, apenas 35,4% de negros e pardos façam o mesmo.

Foi destacado pelo grupo que muitos pesquisadores que trabalham em favelas, em vez de reconhecerem a construção do conhecimento que estão estudando por parte dos moradores que o desenvolvem, acabam se apropriando do conhecimento da favela e empacotando para benefício próprio em suas teses e publicações.

Iara evidenciou que deveria ocorrer o oposto, que o pesquisador precisa olhar para a favela e tratar sua pesquisa como um mecanismo para o crescimento social, e não como uma oportunidade para o progresso acadêmico individual. O papel social da universidade, para Iara, “é pensar em melhorar a qualidade de vida das pessoas, independente de onde elas estejam“. É fundamental para as universidades “pensar em uma sociedade onde não tenha negação de direitos“, que é frequentemente como as favelas são vistas pelos acadêmicos.

Discutindo caminhos para mudar a forma como as favelas são tratadas pela academia, Gildete disse que pesquisadores devem assegurar que suas relações com os sujeitos não sejam “fortuitas”. É fundamental, ela afirma, que pesquisadores saibam o propósito de seus estudos. E os métodos de pesquisa devem ser pensados sob medida para cada comunidade, disse Gildete: “As favelas não são iguais, as comunidades não são iguais, os grupos não são iguais”.

Verônica é uma cientista que passou pelos canais acadêmicos tradicionais, mas diante da frustração com o distante discurso acadêmico, lançou um programa de educação ambiental altamente prático em parceria com uma escola pública. Ela afirma que, em vez de ver o trabalho em favelas como um favor, os acadêmicos deveriam procurar construir relações duradouras com as comunidades, que sejam recíprocas e equitativas. Seu Projeto Escola Verde—que envolve professores de escola pública e trabalhadores, como funcionários da cantina, em iniciativas de educação ambiental—é um modelo de educação ambiental sob medida, apropriada e responsiva.

Assista à Aula Pública Aqui:

*A Rede Favela Sustentável (RFS) e o RioOnWatch são projetos da Comunidades Catalisadoras. A RFS tem o apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil.


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