Lixo é Ouro: Recuperação Energética Como Solução Para as Favelas [OPINIÃO]

Lixo é Ouro nas favelas. Ilustração por: David Amen
Arte: David Amen

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Esta matéria faz parte de uma série sobre justiça e eficiência energética nas favelas do Rio.

Diariamente toneladas de lixo são recolhidas por veículos da COMLURB (Companhia de Limpeza Urbana) nas favelas do Rio. Segundo dados da Associação de Moradores do Itararé, no Complexo do Alemão, compartilhados por Renato Santos, presidente da Associação, entre os meses de outubro e novembro de 2020 foram coletados um total de 2.369,63 toneladas de resíduos sólidos no Complexo do Alemão, sendo 1.180,30 toneladas no mês de outubro e 1.189,25 no mês de novembro. O problema da falta de destino dado ao lixo é uma realidade historicamente presente nas favelas e periferias cariocas. Geralmente é visto pelos moradores apenas como um problema de prestação de serviço ou de ausência de recolhimento. Contudo, o lixo pode ser encarado como uma possibilidade de geração de renda para as favelas, além de ser uma saída para melhorar as questões socioambientais, energéticas e de saneamento básico nos becos e vielas das favelas.

No Complexo do Alemão e em várias favelas íngremes cariocas, alguns becos, são formados por escadarias, que dão acesso às casas. Foto por: Cleber Araújo

Com o difícil acesso a dados públicos atualizados e confiáveis sobre as favelas, esta reportagem contactou a COMLURB solicitando as informações disponíveis sobre a quantidade de lixo coletado no Complexo do Alemão nos últimos meses, ao mesmo tempo que buscava outras fontes de informação da favela. Dias depois, recebemos um email de uma funcionária da companhia, dizendo: “Nós não separamos o lixo por comunidades. Você deve ter visto alguma estimativa. Pode nos passar para vermos qual é?”

Partindo desta realidade—a da estratégia do desconhecimento cotidiano das favelas pelo Estado como política pública—buscou-se estimar, com base nos dados públicos disponíveis e nos de instituições da sociedade civil, um intervalo, em toneladas por dia, que representasse uma aproximação da quantidade de lixo produzida no Complexo do Alemão. Para isso, o primeiro desafio foi determinar o número de habitantes do Complexo e, uma vez tendo este número, pudemos fazer uma estimativa da produção—e coleta—de lixo nestes territórios. Matematicamente chegamos a um caminho para um cenário plausível sobre o volume de resíduos produzidos diariamente neste conjunto de favelas: multiplicando-se o número de moradores pelo volume, em quilos, de lixo produzido em média por brasileiro por dia.

As estimativas populacionais do Complexo variam muito, fruto da negligência estatística do Estado com as favelas. Segundo o Censo de 2010, há 70.000 moradores, já segundo estimativas de associações locais, há 120.000, e de acordo com outras fontes, como o Wikifavelas, haveria até mesmo 180.000 moradores. Tendo isso em mente e levando em consideração que, segundo a ABRELPE (2020), o brasileiro gera, em média, 1,04kg de lixo por dia, chega-se à conclusão que, diariamente, são produzidas entre 80 e 206 toneladas de lixo no Complexo do Alemão.

Antigo local de descarte de lixo na Alvorada, uma das favelas do Complexo do Alemão. Foto por: Mariluce Mariá

Beco íngrime e estreito no Complexo do Alemão. Foto por: Cleber AraújoA logística utilizada atualmente para a coleta de todo este lixo é insuficiente. Como morador, observo há anos que a coleta ocorre apenas em pontos espalhados pelas vias principais e que, apesar de ser feita todos os dias da semana, em horário comercial, devido ao fato das ruas do Complexo do Alemão serem apertadas, com becos longos, íngremes e com escadarias, o recolhimento é sempre insuficiente, às vezes muito longe da casa dos moradores e sempre atrapalhando o trânsito.

Além disso, a coleta é feita em horários de grande movimentação de moradores nas ruas, então os grandes caminhões da COMLURB sempre têm que fazer o recolhimento do lixo de forma rápida para não interromper as vias principais de circulação na favela, que muitas das vezes são estreitas. Logo, isso acarreta uma coleta apressada: os caminhões não têm o tempo necessário para retirar todo o lixo dos pontos de coleta do morro. Logo, sempre sobra lixo, chorume e restos no local, o que gera o costume do acúmulo de lixo em pontos da favela e a constante presença de vetores de doenças, animais e insetos. Sendo assim, muito lixo acaba ficando para trás, um cenário completamente insalubre para os moradores de favela, mesmo quando a comunidade tem serviço regular de coleta.

Jacarezinho recebe mutirão de limpeza. Foto: COMLURB/Divulgação

Pois bem, todas essas pessoas, todos os dias gerando muito lixo e esse lixo precisa ou sair daqui ou ser transformado em energia, trabalho e renda, no ideal, localmente. Desde o reaproveitamento e a reciclagem, passando pela redução no consumo, há várias destinações sustentáveis possíveis para estes resíduos, algumas mais e outras menos prevalentes. Uma sugestão que creio poder ser transformadora, ambientalmente e economicamente, além de energeticamente eficiente e promotora da justiça energética distributiva para esta e outras favelas, é transformar o lixo em gás biometano, uma estratégia energética limpa e renovável.

A geração e a produção de gás biometano vindo do lixo já é uma realidade em diversos países europeus, como Noruega e Suécia. Desde 2009, os aterros sanitários foram proibidos para resíduos orgânicos na Noruega. Com impulso semelhante ao da Noruega, a Suécia é a líder mundial na recuperação energética de resíduos, menos de 1% do lixo dos suecos vai para aterros sanitários. Os suecos, através de vários processos que passam primeiro pela intensa redução, reciclagem, reuso, e biodigestão, também aproveitam a incineração limitada em usinas de Valorização Energética de Resíduos (WTE na sua sigla em inglês)

Usina WTE SYSAV na Suécia

Mas antes disso, a Suécia tem uma das mais altas taxas de reciclagem do mundo—99% do que se descarta é reciclado. Primeiramente, deve-se evitar e reduzir o consumo e a geração de resíduos, reutilizar produtos e materiais tanto quanto for possível em sua forma atual, reciclar materiais, transformando-os em novos produtos, recuperar energia a partir do material e como última opção há o descarte de resíduos em aterros. O sucesso do sistema sueco de reciclagem é a consciência ambiental da população. Além disso há uma lei que dita que a responsabilidade é do produtor, do fabricante, garantindo que qualquer um que manufature, transfira ou importe um certo tipo de produto, deva assegurar-se de que este produto—depois de ser descartado—seja coletado, transportado, reciclado ou incinerado de maneira adequada. Garantindo modos aceitáveis para a saúde e para o ambiente de destinação de resíduos, só em último caso são usados os caros aterros sanitários suecos.

Desta forma, praticamente todos os tipos de resíduos são reaproveitados. No caso dos resíduos de jardim, eles são coletados e tratados através de digestão anaeróbica para produzir biogás, embora parte seja compostada no solo. Em 2017, o total de energia recuperada de restos de comida suecos foi de 975.680MWh, dos quais 856.170MWh foram de biogás próprio para veículos. Isso substituiu em torno de 83,3 milhões de gás natural que, quando queimado, equivale a aproximadamente 42.000 toneladas de gás carbônico.

Além disso, aproximadamente 2,2 milhão de toneladas de lixo doméstico sueco são incineradas nas WTE por ano. No bom funcionamento, os gases produzidos na queima, antes de saírem pelas chaminés, passam por um conjunto de filtros, fazendo com que a maioria dos poluentes mais tóxicos seja capturada e não lançada na atmosfera.

Levando em consideração que 3 toneladas de lixo incinerado equivale a 1 tonelada de petróleo em energia, pode-se dizer que há muita energia no lixo. As WTE trabalham bem abaixo de sua capacidade, com isso, o serviço de recuperação energética é oferecido pelos suecos a outros países como Noruega, Reino Unido, Irlanda e Itália. Pode-se dizer que a Suécia importa toneladas de lixo de outros países europeus por ano, oferecendo a eles um serviço cada vez mais buscado: uma destinação controlada, com menor impacto ambiental que os aterros sanitários. A demanda crescente se deve ao fato dos lixões serem absolutamente fora de cogitação e os aterros sanitários cada vez regulamentados e caros nestes países clientes da Suécia. O lixo é uma commodity com preços ascendentes.

No Brasil, a transformação de lixo em energia ainda não é um assunto muito debatido, mas poderia ajudar a resolver um grande problema de saúde pública e de saneamento básico. Como o lixo nos morros não é todo coletado, isso traz um enorme número de vetores que prejudicam a saúde, os ratos são os principais deles, sem falar de moscas e baratas. Além de trazer uma solução energética para nossos territórios que sofrem diariamente com desigualdades e com a falta de acesso à justiça energética.

A transformação do lixo em gás biometano já ocorre em alguns lugares do Brasil. Aqui no Rio de Janeiro o lixo está sendo transformado em energia nas usinas da Gás Verde S.A, inauguradas em 2019, nos aterros sanitários localizados em Seropédica e em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O processo de transformação do lixo em energia ocorre a partir da decomposição do lixo coletado. Durante o processo de decomposição do lixo, o gás (biometano) é liberado e, então, captado através de um sistema de tubulações. O gás coletado passa por um processo de retirada de impurezas, resfriamento e é queimado em motogeradores, convertendo-se em energia. 

Aterro sanitário de Seropédica. Foto por: Luiz Calderini

No interior do estado de São Paulo, outro exemplo é o aterro sanitário de Guatapará que recebe 2,2 mil toneladas de lixo por dia e gera energia suficiente para abastecer uma cidade com 18.000 habitantes.

Além dessas experiências de sucesso, há na comunidade do Vale Encantado, no Alto da Boa Vista, um exemplo de que transformar resíduos em energia, em pequena escala é possível. A partir da biodigestão da matéria orgânica presente nos esgotos domésticos da própria comunidade há a geração do biogás, que é captado e pode ser aproveitado alimentando um fogão ou mesmo um aquecedor. Esses exemplos fazem a gente ver que ter uma mini usina para processar o lixo e torná-lo gás biometano, é viável e possível nas favelas do Rio. Fazendo com que os próprios moradores possam eles mesmos gerir, separar, reciclar e alimentar uma mini usina com o seu lixo e esgoto domésticos e utilizar a energia comunitariamente transformada ou gerar renda através da venda do biogás ou de produtos feitos a partir dele, como no caso das comidas cozinhadas com o biogás no Restaurante da Cooperativa do Vale Encantado.

Biodigestor do Vale Encantado

Já imaginou? Todos sabendo que seu lixo vai ser revertido em algo de grande valor econômico, com potencial de gerar energia limpa e melhorar o ambiente em que vivemos, melhorando a questão ambiental e de saneamento básico? Isso seria algo muito bom e revolucionário.

Potencial brasileiro de produção de Biogás. Fonte: ABIOGÁSAlém do potencial residencial urbano na produção de biogás a partir dos resíduos, a maior possibilidade de produção é a partir do lixo industrial, por razões de escala de resíduos e capacidade de produção. Os setores sucroenergético e agroindustrial têm o maior potencial de produção de biogás no Brasil.

E nosso estado poderia estar numa posição de vanguarda nessa transição energética verde para o biogás, já que este combustível tem desempenho energético semelhante ao do GNV e o Rio Janeiro tem a maior frota de carros movidos a Gás Natural Veicular (GNV) do país. Além de gerar créditos de carbono e poluir menos o ar, é menos nocivo à camada de ozônio, até 90% menos danoso quando substitui o diesel. Portanto, no estado do Rio, o gás biometano tem acesso garantido para uso na indústria, sobretudo na automotiva, usado como combustível em veículos leves e pesados, um mercado em expansão.

GNV usado como combustível.

Com alta disponibilidade de matéria-prima e demanda crescente, sistemas de produção de biogás podem ser um fator transformador, inclusive no âmbito educacional com relação ao descarte correto do lixo e do esgoto. Nesta via de produção de energia limpa, é possível auferir lucros de natureza financeira e ambiental, além de poder transformar o morador no grande protagonista do processo de gestão dos resíduos locais.

Fazer com que os moradores entendam que seu lixo pode virar recurso energético renovável ao invés de um problema sanitário, pode ser uma política pública que solucione gargalos da falta de planejamento urbano e da negligência do estado, gerando demanda pela formação de profissionais com novas habilidades, voltadas à sustentabilidade, profissionais capacitados para atuar em um mercado verde do lixo, ainda incipiente no Brasil.

Além do problema do lixo, a escassez energética já é uma realidade e os meios tradicionais de geração de energia em escala estão ultrapassados. É necessário tanto diversificar a matriz energética, quanto abandonar as técnicas de gestão de resíduos arcaicas e ambientalmente ineficientes, visando deixar um legado positivo para as gerações futuras.

Quanto biogás poderia ser produzido a partir de e consumido nas favelas do Rio de Janeiro? Quanta energia está sendo desperdiçada só no Alemão com a falta de destinação ambiental e economicamente adequadas dessas 80 a 206 toneladas de lixo produzidas diariamente por seus moradores? Quanta renda essa transformação poderia gerar, se adotada como política pública para as favelas?

O lixo é predominantemente visto como problema pela sociedade, apesar de ser renda para alguns. Mas lixo pode ser ouro! Se transformado em energia limpa, lixo é ouro!

Ponto com lixo acumulado no Complexo do Alemão. Foto por: Bruno Itan

Sobre o autor: Cleber Araújo é morador do Complexo do Alemão e comunicador comunitário.

Sobre o artista: David Amen é cria do Complexo do Alemão, co-fundador e produtor de comunicação do Instituto Raízes em Movimento, jornalista, grafiteiro e ilustrador.

Esta matéria faz parte de uma série sobre justiça e eficiência energética nas favelas do Rio.


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