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Racismo na Favela: Como os Moradores Entendem o Preconceito Racial [PODCAST]

Racismo e Antirracismo São Termos que Têm Rondado Becos e Vielas

Racismo e Antirracismo nas favelas. Arte por: David Amen Arte original por David Amen

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Esta matéria faz parte da série de matérias do projeto antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021: Enraizando o Antirracismo nas Favelas. Para contribuir com essa pauta, clique aqui.

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Em 2020, houve momentos em que o racismo e o antirracismo foram pautas altamente debatidas mundo afora. Violências como a morte do norte-americano George Perry Floyd Jr., 47, acenderam uma luz de alerta no mundo sobre os crimes que, diariamente, são varridos para baixo do tapete da branquitude. O jogador de futebol americano foi assassinado em Mineápolis, no dia 25 de maio de 2020, asfixiado até a morte por um policial branco, Derek Chauvin, 44, que se ajoelhou em seu pescoço por longos 8 minutos e 46 segundos, com George repetidamente falando aos quatro policiais presentes na cena do crime: “I can’t breathe!”, em português, “Não consigo respirar!”. O assassinato causou indignação à população negra e a muitos americanos foram às ruas protestar por George Floyd e por todos os negros que perderam sua vida pelo simples fato de serem pretoscomo Breonna Taylor, 26, e Ahmaud Arbery, 25, também assassinados pela polícia no início de 2020 e também ajudando a levar ao Levante Negro de 2020.

George Floyd, Breonna Taylor e Ahamaud Arbery. Ilustração do site Struggle-La Lucha

Os protestos antirracistas nos Estados Unidos mobilizaram ativistas dos quatro cantos do mundo, pessoas de vários países foram às ruas protestar sob as frases “Vidas negras importam”, “Eu não consigo respirar!”, “Mãos para cima, não atire!”, “Sem justiça: sem paz! Sem polícia racista!” e “Digam o nome dela!“—referindo-se à Breonna Taylor, assassinada dentro de casa por policiais, bem como a outras mulheres negras vítimas de violência policial. Essas mortes galvanizaram a maior onda de protestos em toda a história dos EUA, os maiores protestos raciais desde o assassinato de Dr. Martin Luther King Jr, nos anos 1960.

No Brasil não foi diferente, muitos afro-brasileiros perderam suas vidas nas mãos do Estado em 2020, o que fez com que militantes de diversas cidades se levantassem contra o genocídio do povo preto, no país em que a cada 23 minutos morre um jovem negro, onde 75,7% de todas as pessoas assassinadas são negras. Este número é bem parecido com aquele dos que foram assassinados durante intervenção policial, 75,4% deles negros, entre 2017 e 2018. Segundo o Mapa da Desigualdade da Casa Fluminense, há cinco municípios no estado do Rio de Janeiro onde 100% dos mortos pela polícia entre junho de 2019 e maio de 2020 foram negros. São eles: Seropédica, Petrópolis, Guapimirim, Cachoeiras de Macacu e Rio Bonito. Sem falar que, ainda no estado do Rio, 91% das crianças mortas por bala perdida foram crianças negras, entre 2016 e 2019.

Pessoas negras assassinadas pelo Estado. Fonte: Mapa das Desigualdades/Casa Fluminense

O racismo existe e está enraizado na sociedade, ancorado em falas, comportamentos, atitudes, sistemas e narrativas que excluem e matam pessoas negras. Mas e na favela? Como a estrutura de preconceito racial se apresenta nos becos e vielas das comunidades cariocas?

Moradora acredita que dentro da favela existe menos racismo. Foto por: Gracilene Firmino

Segundo o ativista social e professor de Literatura e Língua Portuguesa, Jonas Di Andrade, 27, “a favela é um dos territórios que mais sofre com o racismo, principalmente advindo do estado e de seu aparato repressivo: a Polícia Militar. Por meio das diversas violações e violências físicas e simbólicas, tendo em vista o grande número de pessoas negras nesses lugares, percebe-se como o racismo opera e ceifa vidas, o que não acontece normalmente em bairros nobres onde há pessoas brancas”.

Na Visão do Morador

Para Joyce Barbosa 'Mesmo com a maioria da população sendo preta, o racismo estrutural está enraizado na favela'. Foto do acervo pessoal de Joyce BarbosaJoyce Barbosa, 29, é moradora da Rocinha, na Zona Sul do Rio, e define o racismo de forma direta: “são ações, atos, falas que pessoas privilegiadas usam para discriminar outras que não são da mesma raça, etnia que a dela”. A assistente financeira e graduanda em ciências contábeis acredita que o preconceito racial está em todo lugar. “Mesmo com a maioria da população sendo preta, o racismo estrutural está enraizado. Até nas mínimas ações e falas tem racismo. Até na favela.” Mas acredita que na favela exista menos racismo que no asfalto. “Creio que seja pelo fato de haver mais pretos como moradores. Entretanto, a favela é menos racista porém sofre mais racismo. Porque além de pretos, somos pobres, então, os preconceitos se somam, de raça e o social também, acabam se misturando”, argumenta.

Isaias trajano admite 'Já tive atitudes racistas, é uma coisa que vem da minha geração com piadas racistas e frases racistas.' Foto de Acervo pessoal de Isaías TrajanoPara Isaías Trajano, 33, também morador da Rocinha, que se identifica como homem branco, o racismo está em toda parte e na história, mas ninguém se identifica como racista. “As pessoas não se assumem racistas, vão driblando de várias formas para tentar fugir de abordagens atuais e fazer valer atitudes e costumes tradicionalistas e racistas, mas em resumo é mau caráter. Infelizmente, já tive atitudes racistas, é uma coisa que vem da minha geração ainda, quando era mais novo replicava piadas racistas, frases racistas, etc. Mas tenho aprendido e evoluído nesse ponto, acompanho conteúdos nas redes sociais e influencers que abordam o tema”. O técnico de eletrônica diz que já viu amigos negros, também moradores de favela, sofrerem racismo. “Por ser branco, sempre sofri menos preconceito por morar na favela. Existia discriminação depois que dizia onde morava, mas até chegar nesse ponto, conseguia chegar em lugares que meus amigos negros não chegavam. Várias vezes fui parado pela polícia com amigos negros e não fui revistado, por ser branco”, conta, expondo a filtragem racial das polícias fluminenses.

Elaine Pacheco se pergunta 'Qual é o negro que nunca foi seguido no supermercado ou chamado de macaco'. Foto de acervo pessoal de Elaine PachecoJá para Elaine Pacheco, 42, mulher negra e moradora do Complexo do Alemão, na Zona Norte, o racismo é o preconceito com a cor de pele, classe social e religião. Para Elaine, o Brasil é um dos países mais racistas do mundo e especificamente nas favelas o racismo acontece por parte da polícia. “Acho que racismo tem muito a ver com ignorância e [falta de] caráter. Eu já sofri racismo… qual é o negro que nunca foi seguido no supermercado ou chamado de macaco? Antigamente eu não tinha visão disso, mas tem apelido que é racista e as pessoas acham que é só uma forma de falar”, declara. A moradora do Alemão destaca que existe um pré-julgamento de que todo negro mora em comunidade. “Acham que todo negro é morador de periferia, as pessoas olham para o negro com olhar de favelado, baixa renda”.

Glóra Alves certifica que mesmo morando em favela, não sofre os mesmos preconceitos que os negros que habitam as comunidades. Foto por Vilma RibeiroGlória Alves, 60, também mora no Complexo do Alemão e afirma que, como mulher branca, já pronunciou diversos termos racistas. “Foi sem saber que estava sendo racista e algumas palavras eu tento não pronunciar. Coisas como ‘você está na minha lista negra’, que a gente escutou a vida inteira e hoje já consegue enxergar que é errado, mas ainda tem muita gente viciada, que fala sem pensar e ofende. Hoje eu já paro e penso, é só querer que a gente aprende a tirar essas palavras do nosso vocabulário”, confessa. Glória certifica que, mesmo morando em favela, não sofre os mesmos preconceitos que os negros que habitam as comunidades. “Nunca fui parada por policiais em lugar nenhum. O único problema é dar meu endereço para algum trabalho. Todos os dias fico sabendo de pessoas que sofrem algum tipo de preconceito, racismo mesmo, na TV, nas redes sociais”, conta.

Jorge Padilha lamenta 'As pessoas discriminam por achar que porque moramos na favela e somos pretos, somos ladrões'. Foto do acervo pessoal de Jorge Padilha.jpgBarbeiro e morador da Cidade de Deus, na Zona Oeste, Jorge Padilha, 43, entende que racismo é discriminar o outro pela cor da pele. Como homem negro, para ele existe racismo na favela e nos demais lugares do mundo, mas o fato de morar em comunidade agrava o preconceito. “As pessoas discriminam por achar que porque moramos na favela e somos pretos, somos ladrões, sendo que na favela moram pessoas dignas como em qualquer outro lugar. Esse tipo de gente poderia se tornar um ser humano melhor se não deixassem a cor da pele interferir na nossa vida, porque o maior Criador nos fez sem nenhuma distinção de raça ou cor. Quem somos nós para fazer isso?”, questiona.

Moradores de favela acreditam que na favela existe menos racismo. Foto por: Gracilene Firmino

Afinal, o Que é Racismo?

Jonas di Andrade afirma 'A favela é um dos territórios que mais sofrem racismo, principalmente advindo do estado, com violência física e simbólica . Foto por Selma Souza.jpgJonas Di Andrade explica que o preconceito racial é mais do que uma atitude, é uma estrutura. “Racismo, pela própria palavra, diz respeito à divisão das pessoas por meio do critério de raça, cor da pele. Levando em consideração o nosso passado colonial escravocrata, no qual pessoas arrancadas da África foram forçadas a vir para cá no intuito de servir não só de mão de obra, mas também de produto, herdamos um conjunto de práticas sociais, políticas, jurídicas, institucionais, de caráter discriminatório. As pessoas, racializadas, não brancas, negras e indígenas, são vítimas desse sistema de poder, que é estrutural (e estruturante), individual e institucional”, esclarece.

O que muitas pessoas ainda têm dúvida é sobre o antirracismo, que são práticas de caráter político, social, institucional, individual, que têm por objetivo ir contra todo o sistema de poder que divida, desumanize, marginalize, estereotipe e subalternize pessoas racializadas (negros e indígenas). Em Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, a autora aborda que para ser antirracista é preciso informar-se sobre o racismo, enxergar a negritude, reconhecer os privilégios da branquitude, perceber o racismo internalizado em si, apoiar políticas educacionais afirmativas, transformar o ambiente de trabalho com a inclusão de funcionários negros, ler autores negros, questionar a cultura que se consome, conhecer desejos e afetos, e, por fim, combater a violência racial.

Protestos que aconteceram em junho de 2020, mobilizaram muitos moradores de favelas. Foto por: Thiago Lima

Favela e Racismo

O negro que não mora em favela também sofre racismo. No entanto, o negro favelado está na interseção entre o preconceito racial e a desigualdade social. Vale ressaltar que boa parte das pessoas que moram em comunidades não têm consciência das opressões que vivem e a educação possui um papel importante neste contexto. “A escola, que poderia ser um lugar de tomada de consciência e de libertação, tem sido um espaço não só de reprodução do racismo, e de outras violências concretas, mas também reprodução das opressões no âmbito do símbolo, ou seja, não se valoriza a história africana e afro-brasileira, bem como a cultura e as artes destas populações afrodescendentes em diáspora”, afirma Jonas Di Andrade.

Favelados sofrem mais discriminação porque o preconceito racial e o social se misturam. Foto por: Thiago Lima

Por fim, Jonas deixa uma mensagem: “o favelado, o negro favelado, precisa se conscientizar das diversas violações e violências com os quais seus corpos lidam diariamente, precisa lutar não só por eles próprios, mas também por todos os outros que vão ser acometidos pelo racismo. A educação tem um papel fundamental nisso. Se tivermos investimento em educação, colocando a África no centro, não mais a Europa, em uma abordagem afrocentrada, vamos conseguir caminhar para a construção de uma sociedade antirracista”.

Jonas é ativista social e luta pela causa negra. Foto por: Selma Souza

Sobre as autoras:

Gracilene Firmino é jornalista, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), tendo se especializado em produção de conteúdo digital. Cria da Rocinha, é comunicadora comunitária há oito anos. Hoje trabalha como jornalista no Voz das Comunidades e repórter do site FavelaDaRocinha.com. Gracilene já foi colaboradora da Agência de Notícias das Favelas e do jornal Fala Roça.

Amanda Botelho tem 23 anos, é carioca e cria de favela, formada em Jornalismo pela Unicarioca, e repórter do Voz das Comunidades.

Sobre o artista: David Amen é cria do Complexo do Alemão, co-fundador e produtor de comunicação do Instituto Raízes em Movimento, jornalista, grafiteiro e ilustrador.

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