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Projeto ‘Recriando Raízes’ Transforma, Empodera e Salva Jovens em Costa Barros

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Esta é a nossa mais recente matéria sobre a Covid-19 e seus impactos sobre as favelas.

‘Me Ajuda a Recriar Minha Vida’

Estas foram as últimas palavras que Ilma Rocha ouviria de um adolescente cuja vida terminaria tragicamente devido à violência no Quitanda, Costa Barros em 2006. No entanto, suas palavras de coragem ajudariam a desencadear um movimento para acabar com a violência e trazer vida à sua comunidade por meio de projetos sociais voltados para o empoderamento de jovens e famílias da região. Costa Barros, na Zona Norte, é um bairro formado, principalmente, por um conjunto de favelas. Esta área tem sido historicamente descrita pela imprensa como devastada pelo crime e frequentemente descrita por sua penúltima classificação no Índice de Desenvolvimento Humano no início dos anos 2000. Mas há muito mais lá, como uma forte vontade de progredir e muitos sonhos a serem realizados.

Hoje Ilma ou, como a chamam os jovens que ela atende, Tia Ilma, conta essa lembrança transformadora de 2006, que inspirou o nome e a visão do já consagrado projeto social conhecido como Recriando Raízes. Este momento de mudança de vida serviu como um catalisador para deixar sua antiga vida como cabeleireira e se dedicar a salvar outras pessoas. Recriando Raízes é uma homenagem ao jovem que ela não sabia como ajudar anos atrás, mas cuja memória serviria como uma lembrança de seu compromisso com sua comunidade e sua vontade de fazer todo o possível para evitar a perda de outra vida jovem.

Com o apoio da co-fundadora e amiga Alba Almeida, ela decidiu que fariam algo sobre a crise em sua comunidade e começou a oferecer trançar cabelos gratuitamente, para jovens, fora de seu salão de beleza. Vendo o impacto positivo e o interesse crescente, elas decidiram encontrar um espaço para exibir filmes e fornecer um refúgio seguro para os jovens locais. Um membro da comunidade ofereceu um pequeno local para receber 60 crianças do Quitanda, o que marcou o primeiro evento do Recriando Raízes, e validou a necessidade de um espaço seguro e com uma programação para os jovens locais. E assim, começou a busca por um local para alugar para dar suporte a crianças e jovens.

A comunidade juntou-se e encontrou um local para alugar, mas as condições não eram adequadas. Chuva, ratos e um telhado caindo consumiram o espaço. Não era o que eles imaginavam e com os recursos pessoais esgotados, Ilma pensou em fechar as portas do projeto. No entanto, um dia, as crianças se reuniram e arrecadaram fundos para mantê-lo aberto. Depois de testemunhar a solidariedade e a união dos jovens, ela sabia que Recriando Raízes nunca mais fecharia suas portas, enquanto houvessem as crianças e o apoio dos moradores da comunidade. Hoje, Recriando Raízes recebe apoio não apenas de moradores, mas também de patrocinadores e organizações que acreditam na missão e visão do projeto social local.

‘A Comunidade é Muito Unida’

Durante o surto do coronavírus e devido aos efeitos mais severos da pandemia nas favelas, moradores de favelas foram afetados de forma desproporcional pela falta de dados, serviços de apoio do Estado e infraestrutura para manter as condições de segurança sanitárias para todos os moradores. Há famílias passando fome devido ao desemprego, algumas famílias precisando de suprimentos sanitários e algumas, mesmo aquelas com membros sofrendo de Covid-19, com acesso limitado a cuidados de saúde. No entanto, existe uma união especial e solidariedade nas favelas, particularmente visível em face da adversidade. Ilma acredita que esta é a verdadeira magia e força de sua favela. Ela elabora mais explicando como a própria comunidade é ainda mais unida quando surgem desafios. Por exemplo, Recriando Raízes ajudou a organizar a distribuição de alimentos e suprimentos para membros da comunidade necessitados por meio de uma iniciativa chamada Fome Nunca Mais. Os moradores receberam cestas básicas e, em um ato de grande generosidade, muitos redistribuíam suas cestas para outras famílias que acreditavam que precisavam mais do que eles.

Ilma relata essa demonstração de solidariedade, que ajuda o Recriando Raízes a continuar lutando pelas vidas de crianças perdidas no crime, na violência e nas lesões autoprovocadas. Junto com ações essenciais, Recriando Raízes executa sua iniciativa Jovens em Transformação. O projeto empodera e emancipa jovens locais, ensinando-lhes novas habilidades e incentivando-os a se tornarem empreendedores, com mais de 16 cursos em um período de oito meses. Existem cursos que vão desde cabeleireiro e barbearia até informática e telemarketing.

Recriando Raízes recentemente ampliou e renovou um espaço na Lagartixa, uma comunidade dentro do complexo de favelas Costa Barros, e agora está oferecendo cursos para mais de 1.800 jovens por meio do Jovens em Transformação. Ilma explica como é importante que os jovens aprendam habilidades e gerem uma renda que lhes ofereça uma alternativa a uma vida de contratempos, permitindo que tenham orgulho de poder trabalhar e sustentar sua família. Isso é especialmente verdadeiro durante uma pandemia, quando o desemprego é alto e há poucas oportunidades de emprego.

Ilma teme que a pandemia já tenha prejudicado o progresso anterior, mas espera que o lançamento de novos cursos do Quitanda e Lagartixa em setembro de 2020 ajude a manter os jovens ocupados e longe dos perigos das ruas. Ela diz: “Precisamos agir rápido, porque as facções são rápidas. Portanto, precisamos chegar aos [jovens] antes que as facções façam”. Ilma acredita firmemente que tudo o que os jovens precisam é uma alternativa e alguém que acredite neles. Assim que descobrirem isso, começarão a sonhar novamente. Ela conta a história de uma conversa que teve com um jovem envolvido no crime, na qual perguntou-lhe seu nome, idade e por que ele estava vivendo a vida que estava vivendo. Ela perguntou: “Você estuda?” e o jovem respondeu: “Não. Eu parei na 5ª série”. Ela continuou: “Você quer voltar para a escola?” Ele respondeu: “Quem vai me levar?” “Eu. Eu levo você ”, respondeu Ilma. Cerca de duas semanas depois, o jovem veio visitar Ilma e pediu para ser colocado na escola. Ele agora é um aluno modelo e um dos muitos exemplos de jovens que mudaram suas vidas por causa de Ilma e do Recriando Raízes.

Recriando Raízes e a visão que Ilma tem para o projeto social continua crescendo e evoluindo. Ela levou um grupo de crianças para visitar o Forte de Copacabana, e muitas nunca tinham visto ou tocado o mar. Enquanto voltavam para o ônibus, uma criança perguntou se a água era realmente salgada, pois ela nunca havia tocado na água do mar. Ela explicou que muitos nascem, crescem e morrem nas favelas sem ver os monumentos e belezas naturais mundialmente famosos do Rio de Janeiro, como o Cristo Redentor e suas praias. Ela diz que um turista estrangeiro vê mais o Rio de Janeiro do que crianças das favelas. “Essa é a nossa cultura! E não temos direito a isso!” Ilma espera poder organizar muitas mais viagens como esta, mas enfrenta muitos desafios logísticos e burocráticos ao alugar transporte e organizar visitas a pontos turísticos para os jovens. Ela espera não só levar crianças, mas também suas famílias. Ela observou que muitos dos pais dessas crianças tiveram essas viagens negadas quando eram jovens. Ilma acha que as viagens em família proporcionariam uma oportunidade especial para criar laços. “Se a família é boa, os filhos são bons.”

Recriando Raízes espera expandir os serviços de apoio às famílias, não apenas criando oportunidades de viagens, mas também apoiando mulheres de cada família com oportunidades de geração de renda e criação de grupos de apoio com a ajuda de psicólogos treinados. Além dos serviços de apoio à família, Ilma sabe que a chave para envolver os jovens é através da música e do esporte. Ilma espera reformar duas quadras de futebol de salão e expandir os cursos de música para incluir rap e mais aulas de música contemporânea. Moradores de outras áreas estão pedindo que o Recriando Raízes venha para suas comunidades. “Venha salvar vidas aqui” é um assunto comum que ela ouve de pessoas que vivem em favelas próximas de Costa Barros. Recriando Raízes espera se expandir em breve para Pedreira, Final Feliz e Obrigado Meu Deus, que são algumas das favelas mais negligenciadas do Complexo de Costa Barros. A atual sede fica no Quitanda, mas ela espera se instalar em outras comunidades de Costa Barros, como Tom Jobim, Terra Nova, Favelinha, Fim do Mundo e Mangueirinha.

‘S.O.S. Costa Barros!’

Ilma diz que tem muitas outras ideias para apoiar os jovens. Recriando Raízes conta com o amplo apoio da comunidade e uma excelente equipe de funcionários e voluntários. Ilma está buscando ativamente apoio para poder oferecer uma bolsa a professores voluntários, pois são essenciais para os cursos ministrados no Recriando Raízes, e para reformar as áreas esportivas, pois estão seriamente danificadas e precisam de grandes reparos. Ela também espera tornar a internet amplamente disponível no futuro, uma vez que, especialmente durante a pandemia da Covid-19, sua importância para a vida dos moradores se tornou ainda mais clara. Apesar de tantos avanços, Ilma afirma que ainda não são suficientes e que a pandemia só piora as coisas. Diz que ainda há muitas crianças a sofrer e continua a defender e a procurar apoio para as várias iniciativas que ajudam jovens e famílias de Costa Barros a recriar as suas vidas.

Image of building and residential electronics course. Photo by Júlio Ribeiro.

Atualmente, Ilma e os integrantes do Recriando Raízes estão comemorando, já que Tia Ilma será a estrela convidada do Caldeirão do Huck, neste sábado, 6 de fevereiro.

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