Ilhas de Calor e Ilhas de Frescor: ENACTUS-UFRJ Ajuda Comunidades Contra Temperaturas Extremas

COMEMORANDO A SEMANA DO MEIO AMBIENTE NO RIOONWATCH

ENACTUS-UFRJ, criado em 2012 por estudantes da Engenharia de Produção da UFRJ, hoje conta com mais de 40 colaboradores de diferentes graduações, professores e parceiros e atua em quatro comunidades

Esta matéria faz parte de uma série gerada por uma parceria, com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia, para produzir matérias sobre impactos climáticos e ação afirmativa nas favelas cariocas e de uma parceria com o Núcleo de Estudos Críticos em Linguagem, Educação e Sociedade (NECLES), da UFF, para produzir matérias que serão utilizadas como recursos pedagógicos em escolas públicas de Niterói.

O processo desordenado de ocupação urbana, de expansão desenfreada nos últimos 200 anos e da influência da ação antrópica intensificada no Brasil, a partir do século XX, causou diversos problemas ambientais e climáticos, que provocaram modificações na cidade do Rio de Janeiro. Quando se pensa em urbanização, algumas imagens vêm à mente: automóveis, poluição, edifícios, ruídos, etc. Em nosso país, a ocupação das cidades se deu de forma acelerada. Nos últimos 70 anos, passamos de 70,2 milhões para 209,3 milhões de pessoas e a população urbana cresceu 41%, fazendo com que 85% dos brasileiros estejam vivendo em cidades. O aumento dramático da população e sua concentração nos grandes centros gerou uma demanda por um planejamento urbano adequado que nunca acompanhou esse crescimento. 

Em 2017, estimava-se que a região metropolitana do Rio de Janeiro crescia cerca de 32 quilômetros quadrados por ano. A falta de política urbana eficiente se evidencia através do estímulo ao crescimento desordenado da cidade numa vasta área com falta crônica de infraestrutura e de serviços públicos. Faltam escolas, hospitais, postos de saúde, transporte, saneamento básico, e rotineiramente, água encanada, energia elétrica e coleta de lixo. As políticas públicas não são eficientes nessas regiões e precisam mudar.

As áreas verdes seguiram sendo, em última análise, cada vez mais raras e concentradas em bairros de alto poder aquisitivo. O plano de arborização urbana do Rio de Janeiro, por exemplo, varia muito de acordo com a região. A separação econômica existente é visível e gritante. A Zona Sul da cidade possui uma cobertura ampla de vegetação, parques e praças disponíveis: as ilhas de frescor. Enquanto isso, a Zona Norte, com seu baixo poder aquisitivo, é vitimizada por infraestruturas públicas precárias e falta de árvores, o déficit arbóreo, gerando ilhas de calor. É um problema que ultrapassa a questão do lazer: a presença de árvores significa qualidade de vida e saúde.

Mapa das Ilhas de Calor no Rio de Janeiro. Instituto Pereira Passos (IPP)
Mapa das Ilhas de Calor no Rio de Janeiro. Instituto Pereira Passos (IPP)

Desconforto Térmico e Soluções Convencionais

As modificações provocadas na atmosfera pelas ações humanas podem ocorrer em escalas maiores ou menores e podem ser irreversíveis. Ilhas de calor, poluição do ar, a variação no regime de chuvas, o calor intenso, a inversão térmica, a ventilação alterada e umidade são fenômenos impactados pelas mudanças climáticas e que desafiam, cada vez mais, à vida.

A cidade do Rio de Janeiro se localiza em um território exposto a acidentes climáticos extremos. Oficialmente há diretrizes e estratégias de construção de edifícios e casas com condicionamento térmico passivo, para atingir maior qualidade de vida e bem-estar térmico. A partir do cruzamento de dados climáticos e zonas de conforto térmico humano deveriam ser definidas estratégias oficiais e economicamente viáveis de construção de condicionamento térmico passivo para atingir maior qualidade de vida e bem-estar térmico de maneiras sustentáveis.

O relevo da cidade e as condições de muitas favelas do Rio de Janeiro intensificam a sensação de desconforto frente a extremos térmicos. Quase todas as áreas da cidade são impermeáveis e feitas com materiais que absorvem calor ao invés de refleti-lo, como o próprio asfalto. As favelas não são exceção a esse modelo de urbanização. A ocupação do solo nas favelas, em geral, é feita através de autoconstrução devido à falta de política habitacional e aos valores crescentes do mercado imobiliário formal, o que faz com que haja muitas áreas densamente povoadas nesses territórios, gerando, naturalmente, um déficit arbóreo. Além disso, os materiais utilizados na cultura de construção carioca não são adequados às condições microclimáticas da cidade. Eles armazenam energia térmica ao invés de repelirem, o que transforma várias áreas da cidade e muitas favelas em ilhas de calor.

O Rio de Janeiro é uma cidade de muitos contrastes, na qual zonas com condições socioeconômicas e benefícios e prejuízos vindos do meio ambiente muito diferentes localizam-se lado-a-lado. Mesmo que os territórios, por vezes, estejam próximos a regiões vegetadas, o desconforto térmico é latente. Nesse contexto, é comum recorrer a estratégias tecnológicas e de alto consumo de energia, como ventilador, ar-condicionado e umidificador de ar. Apesar dessas soluções convencionais funcionarem a curto prazo, promovendo um conforto térmico temporário, o uso desmedido delas leva à ineficiência energética e consequentemente intensifica ainda mais as mudanças climáticas

Essa relação fica evidente, por exemplo, na Nota Técnica da estatal Empresa de Pesquisa Energética, que estima que “o consumo de energia elétrica por condicionadores de ar no setor residencial tenha aumentado cerca de 237% nos últimos 12 anos, atingindo 18,7 TWh em 2017”. Consumir mais energia significa desmatar mais e emitir mais carbono, seja a partir de áreas alagadas, quando a escolha for pela matriz hidroelétrica, seja através da emissão de gases do efeito estufa através da queima de carbono fóssil nas termelétricas. Além disso, ironicamente, o consumo de energia elétrica como estratégia para aliviar o calor demanda a expansão e a maior manutenção da rede que, recorrentemente, é motivo para poda e remoção de árvores, o que, por sua vez, também contribui para o aumento do calor.

Emaranhado de fios em um tronco de árvore usado como poste bem próximo à casa de moradores, no Morro do Sereno, representa risco de incêndios e choques. Foto por Karina Figueiredo
Emaranhado de fios em um tronco de árvore usado como poste bem próximo à casa de moradores, no Morro do Sereno. Foto por Karina Figueiredo

Condições específicas da paisagem urbana se repetem em bairros populares, tornando-os mais quentes: falta de planejamento urbano, densidade populacional elevada, poucas infraestruturas verdes, habitações com baixa ventilação, poluição e o descarte inadequado de resíduos. A desigualdade na ocupação do solo urbano somada ao clima e ao relevo acidentado introduzem diversos riscos, como deslizamentos, enchentes, exposição à radiação solar extrema, entre outros. Nesse sentido, políticas públicas eficazes são urgentes. Problemas urbanos complexos demandam soluções inteligentes e assertivas para a transformação social.

Escala Global e Infraestrutura Verde contra as Ilhas de Calor

Em cidades tropicais, como o Rio de Janeiro, a sensação térmica vem atingindo novos recordes com o decorrer dos anos, devido às mudanças climáticas. O bairro da Barra da Tijuca registrou, no dia 18 de janeiro de 2022, na estação de monitoramento do Riocentro, uma sensação térmica de 50,8°C, a maior do ano e uma das maiores já registradas na cidade. A maior foi em Guaratiba, em 2014, quando a sensação térmica atingiu 55°C. Para combater o desconforto térmico, muitos recorrem ao uso do ar condicionado, um aparelho que polui o meio ambiente, principalmente pela liberação do gás clorofluorcarbono (CFC). Mesmo usado dentro das especificações, o aparelho continua sendo prejudicial à natureza e aquecendo o clima. O clorofluorcarboneto é um dos maiores gases de efeito estufa e também causador do rompimento da camada de ozônio, que protege a Terra dos raios ultravioleta do sol.

Com o aumento do uso de eletricidade em verões com períodos de estiagem ou seca, recorrentemente é necessário acionar a bandeira vermelha na conta de energia. A bandeira vermelha sinaliza uma piora nas condições de geração de energia. Nesses casos, as usinas termelétricas são acionadas para gerar energia através da queima e evitar a escassez de eletricidade. No entanto, usinas termelétricas geram como subprodutos gases poluentes, entre eles o monóxido e o dióxido de carbono (CO e o CO2), o óxido e o dióxido de enxofre (SO e SO2) e o óxido de nitrogênio (NO). Sendo assim, usamos meios mais fáceis para aliviar nosso desconforto térmico, mas não nos damos conta de que estamos contribuindo para piorar o problema. 

A preservação do meio ambiente tem ganhado espaço em debates pelo mundo. Grandes eventos, como a COP-26, em 2021, discutem os impactos gerados pelas atitudes humanas. Nesse contexto, as chamadas “tecnologias verdes” têm ganhado espaço nas discussões. Soluções baseadas na natureza e infraestruturas verdes vêm sendo cada vez mais pesquisadas e financiadas, pois se apresentam como as únicas formas de impedir o colapso ambiental. 

O naturalista britânico David Attenborough, que dedicou toda sua vida aos estudos da vida na Terra, oferece sua visão de um futuro possível para a raça humana se as medidas necessárias para o combate do aquecimento global forem tomadas imediatamente. Em seu documentário David Attenborough e o Nosso Planeta, ele faz comparações impressionantes: o mundo perdeu cerca de 3 trilhões de árvores nos dois últimos séculos e cerca de 15 bilhões são derrubadas a cada ano. Quando o ambientalista nasceu, em 1926, a população mundial era de cerca de 2 bilhões de habitantes. Desde então, em menos de 100 anos, a população mundial quadruplicou, atingindo 8 bilhões de pessoas. Além disso, ele também faz uma correlação entre o aumento da presença do gás carbônico (CO2) na atmosfera, o consumismo e a destruição de habitats naturais. A continuidade da civilização tem sido ameaçada por nossas próprias ações.

As mudanças climáticas já apresentam sinais irrefutáveis, porém ainda é possível controlar essa situação para as próximas gerações. No documentário do ambientalista britânico, soluções, como a agricultura sustentável na Holanda, que tornou o país um dos líderes mundiais na exportação de alimentos, são retratadas. As soluções baseadas na natureza (SbN) buscam construir cidades resilientes frente às mudanças climáticas. Dentro disso, a infraestrutura verde é uma solução ambiental que pretende incorporar a vegetação que foi expulsa do meio urbano como forma de amenizar as ilhas de calor e de proporcionar qualidade de vida, conforto térmico e visual.

Essa reintrodução verde vem ocorrendo cada vez mais ao redor do mundo. Um exemplo é a cidade de Medellín, Colômbia, onde corredores verdes foram construídos em diversas zonas estratégicas para diminuir as temperaturas. Tetos verdes, paredes verdes, hortas verticais e comunitárias têm sido cada vez mais difundidas entre a população. A conscientização da necessidade do uso dessas tecnologias é necessária e urgente. 

A ação conjunta entre países e os acordos para diminuição dos gases do efeito estufa são importantes para combater as mudanças climáticas. Entretanto, esse enfrentamento deve ser feito em diferentes campos, por toda a sociedade, levando em consideração que as populações marginalizadas são as mais atingidas pelas transformações no clima. É preciso pensar a nível global, mas, acima de tudo, agir localmente. Ações comunitárias que promovam a expansão das áreas verdes em grandes centros e bairros com densa malha urbana e pouca cobertura verde, regiões onde as ilhas de calor são tipicamente acentuadas, precisam ser apoiadas.

A série Vida a 50°C, por exemplo, retrata como cidades ao redor do mundo têm lidado com esse problema de temperaturas crescentes, fruto das mudanças climáticas. Na Índia, surgem projetos de comercialização de gelo e projetos sociais que promovem a pintura de telhados da cor branca, o que resfria as casas através da reflexão da luz, característica física da cor branca. No Paquistão, na cidade de Kairachi, enquanto muitos sofrem com a falta de conexão a redes de distribuição de água, enfrentando um calor à beira dos 50 graus, um só homem sonha e age para reflorestar sua cidade, almejando diminuir o termômetro. Ações como estas são vistas e replicadas mundo afora.

Os Projetos ENACTUS-UFRJ

Também por aqui, a necessidade de fortalecer projetos sustentáveis de amenização das temperaturas é gritante. Soluções verdes locais e mobilização comunitária são a resposta para as temperaturas escaldantes vivenciadas por favelas cariocas.

Para responder a essa necessidade, em 2012, ENACTUS-UFRJ, foi criado por estudantes da Engenharia de Produção da UFRJ. Hoje com mais de 40 membros atua em projetos com base sustentável em quatro comunidades: Caju, Vila Residencial, Santa Marta e Parque Arará. Aqui falaremos de duas iniciativas que mitigam os efeitos das mudanças climáticas em favelas do Rio: Teto Verde Favela e Colhendo o Futuro.

Fortalecer projetos locais verdes, comunitários e sustentáveis de amenização das temperaturas é resposta orgânica para as temperaturas escaldantes
Fortalecer projetos locais verdes, comunitários e sustentáveis de amenização das temperaturas é resposta orgânica para as temperaturas escaldantes.

Teto Verde Favela

A iniciativa surgiu do morador Luiz Cassiano, também conhecido como Sanduba ou Careca, do Parque Arará, em Benfica, Zona Norte. Teto Verde Favela busca aumentar a área verde da favela em ações de plantio e construção de telhados verdes nos lugares que mais sofrem com as altas temperaturas. Cassiano, junto com outros moradores, além de conduzir ações de mutirão para a construção de coberturas verdes, trabalha na produção audiovisual e cultural, fazendo eventos e produzindo vídeos de divulgação de sua técnica local de teto verde.

A última ação do projeto instalou um teto verde no ponto de ônibus que passa, com isso, a servir de ponto de descanso para passarinhos e animais polinizadores, aproximando a natureza do meio urbano. Para além do combate às ilhas de calor, os benefícios vão desde diminuição da poluição atmosférica até interceptação da água da chuva, ajudando a minimizar alagamentos.

Vista do Teto Verde na Favela do Parque Arará
Vista do Teto Verde na Favela do Parque Arará

Colhendo o Futuro

O projeto Colhendo o Futuro revitaliza antigos lixões na comunidade do Santa Marta, em Botafogo, transformando esses locais em hortas comunitárias urbanas. Ao criar novas áreas verdes, a iniciativa contribui também para a diminuição da temperatura. Além disso, o projeto trabalha com educação ambiental em creches da comunidade. Assim, a iniciativa transmite uma nova conscientização ambiental e cultura alimentar para os moradores do Santa Marta. 

O projeto Colhendo o Futuro revitaliza antigos lixões na comunidade do Santa Marta, em Botafogo, transformando esses locais em hortas comunitárias urbanas.Os irmãos Mario e Marco Martins começaram a disseminar a consciência verde na comunidade através de eventos, atividades na creche local e afins. Agora, os membros do projeto atuam em um terreno de 500 metros quadrados que poderá gerar alimentos orgânicos de qualidade para uma grande parcela da comunidade e interferir diretamente no conforto térmico local, amenizando a ilha de calor formada na comunidade.

Na contramão das mudanças climáticas e das injustiças ambientais, a população das favelas do Rio de Janeiro constrói um mundo mais sustentável. Mobilizam pessoas e ideias em prol da luta pela qualidade de vida em seus próprios territórios. Afinal, o direito à cidade e à favela também passa pela justiça climática e ambiental. 

ENACTUS-UFRJ foi criada em 2012 por iniciativa de estudantes da Engenharia de Produção da UFRJ. Hoje conta com mais de 40 colaboradores de diferentes graduações, professores e parceiros. Atua em projetos com base sustentável em quatro comunidades: Caju, Vila Residencial, Santa Marta, Arará.

Sobre as autoras:

Ananda Almeida Stroke é graduanda em Engenharia Ambiental na UFRJ e, no ENACTUS, atua como líder do projeto Teto Verde.
Amanda Mesquita é graduanda em Letras na UFRJ e faz parte da equipe do Teto Verde.
Isabela Mattos e Assumpção é graduanda em Arquitetura e Urbanismo na UFRJ, além de ser a atual presidenta do ENACTUS-UFRJ.
Luana Tresoldi Sciotta é graduanda em Engenharia Civil na UFRJ e integrante do projeto Teto Verde.


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