E Se Cada Morador Cultivasse sua Própria Horta? Conheça o Sonho da Horta-Escola Comunitária Maria Angu, na Favela da Kelson’s, na Maré

Solução Local por Soberania Alimentar e Justiça Climática

Horta-Escola Comunitária Maria Angu, na Favela Kelson's, Complexo da Maré. Foto Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)

Já pensou que poderíamos ter uma horta comunitária em cada favela da cidade? E que por meio dela conseguiríamos colher e fornecer legumes e verduras orgânicas para as mesas de cada casa? Ou ainda, que cada morador cultivasse sua própria horta? Entra nessa história comigo que vou te contar como estamos construindo parte desse sonho na Kelson’s, no Complexo da Maré

Atividade de Dia das Crianças de caça ao tesouro, na busca por mudas nativas da Mata Atlântica. Foto: Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)
Atividade de Dia das Crianças de caça ao tesouro, na busca por mudas nativas da Mata Atlântica. Foto: Maria Helena Pereira da Silva

Observa-se que todo território periférico, de uma favela ou outra área vulnerabilizada, recebe pouca ou nenhuma atenção do poder público. Lixo na rua, esgoto entupido, poluição, desastres naturais, e proliferação de doenças são alguns dos resultados emplacados pelo sistema que não assiste a favela e não reconhece a população de baixa renda como ser humano, negando-lhe o direito das garantias básicas para a sobrevivência, práticas típicas do racismo ambiental.

Racismo ambiental é um conceito que delimita a prática discriminatória na elaboração de políticas públicas ambientais e regulamentação de leis aplicados em territórios negros, periféricos e favelados, por exemplo. O primeiro uso do conceito foi abordado pelo ativista afro-americano Benjamin Franklin Chavis Junior em 1981, no contexto das manifestações do movimento negro americano contra as injustiças ambientais. Chavis Junior definiu racismo ambiental como “a discriminação racial no direcionamento deliberado de comunidades étnicas e minoritárias para exposição a locais e instalações de resíduos tóxicos e perigosos, juntamente com a exclusão sistemática de minorias na formulação, aplicação e remediação de políticas ambientais”.

Além disso, o adoecimento e mortes precoces de crianças, jovens e adultos vêm sendo cada vez mais recorrentes devido a uma desertificação alimentar. Segundo o World Health Report 2002, a cada ano, o baixo consumo de frutas e verduras causa 2,7 milhões de mortes. Com o aumento dos preços, muitas famílias não têm condições de comprar alimentos frescos e a base da dieta brasileira—feijão, arroz, hortaliças e carnes—e optam pela compra de produtos industrializados mais baratos—miojo, refrigerantes, salsichas, biscoitos recheados, suco em pó etc. Contudo, o barato sai caro. 

Durante a pandemia, essa perversa tendência se tornou ainda mais forte com o desemprego recorde e a queda de renda generalizada nas favelas. No entanto, é extremamente importante mencionar a luta de diversas entidades da sociedade que se comprometeram a diminuir os impactos causados pela pandemia do coronavírus nas favelas. Porém, mesmo com tantas ações de impactos imediatos, como as distribuições de cestas básicas, não foi suficiente para sanar os problemas locais de insegurança alimentar.

Ao observar os territórios, percebi que podíamos mudar a realidade das famílias da favela. Muitas casas na comunidade possuem quintais, varandas, vasos de plantas não-comestíveis e há também a existência de ambientes comunitários que poderiam ser ferramentas de mudanças promissoras na realidade da favela. Por que isso não acontece? A informação precisa chegar!

Enxergando toda essa realidade, em 2021 começamos a sonhar com a criação de uma horta na comunidade em que sou cria: Favela da Kelson’s, no Complexo da Maré. Isso só foi possível através de uma organização horizontal de vários atores sociais que se uniram em prol da elaboração de um projeto para ser enquadrado no edital interno do Instituto de Estudos Avançados em Humanidades (IEAHu) da PUC-Rio, onde sou funcionário, e conseguimos o patrocínio de R$7.715,00 para construirmos cinco canteiros produtivos e dar o pontapé inicial no projeto. 

Com o recurso em mãos, convocamos diversos colaboradores voluntários para construir os canteiros e mobilizar a nossa comunidade a participar do projeto. Uma das atividades de mobilização que vale destacar foi a celebração do dia das crianças em 12 de outubro de 2021.

Nosso objetivo foi aproximar as crianças da favela da história do local onde vivem. Os voluntários fizeram uma caça ao tesouro em que as pistas falavam sobre locais importantes da comunidade e o tesouro foram mudas de árvores nativas da Mata Atlântica para serem plantadas na comunidade pelas crianças. Além dessas plantas serem comestíveis, o que também ajuda na segurança alimentar da comunidade, elas ajudam a reduzir o impacto do déficit arbóreo no território, reduzindo os impactos das mudanças climáticas e das ilhas de calor.

Crianças com mudas na Kelson's. Foto Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)
Crianças com mudas na Kelson’s. Foto Maria Helena Pereira da Silva

Primeiro ocorreu uma contação de histórias relacionando o passado e construção da favela da Kelson’s em cima da antiga Praia da Moreninha, destacando a história de personagens históricos importantes da comunidade que participaram da construção das palafitas sobre o manguezal. Após a contação de histórias, as crianças receberam as pistas do lugar em que o tesouro—as mudas de árvore—estaria escondido. 

Depois das pistas serem descobertas em meio a muita brincadeira e correria, fomos para o plantio das mudas com as crianças. Isso foi feito em um terreno que teria caído em desuso na comunidade, que havia sido preparado para o plantio por uma equipe de voluntários.

Nossa ação entra em cena com o intuito de promover essa relação de aproximação entre o alimento e quem o consome. Após a mobilização da comunidade, iniciamos a construção de uma horta-escola, urbana, orgânica, agroecológica e comunitária para o desenvolvimento da temática socioambiental no território.

Chamamos nossa iniciativa de Horta Comunitária Maria Angu. A escolha do nome vem do resgate da memória da favela homônima na Leopoldina, que, em 1964/1965, sofreu com remoções promovidas pelo governo Carlos Lacerda, que a extinguiu totalmente. Seus moradores foram removidos para a Vila Kennedy, na Zona Oeste, para casas ainda em construção na época.

Crianças plantando mudas na Horta-Escola Comunitária Maria Angu. Foto Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)
Crianças plantando mudas na Horta-Escola Comunitária Maria Angu. Foto Maria Helena Pereira da Silva

Iniciamos o projeto da horta para garantir alimento orgânico plantado e colhido na comunidade, facilitar a relação dos moradores da favela com o meio ambiente e promover o envolvimento da comunidade com mecanismos sustentáveis e ecológicos. Tudo isso ajuda a proporcionar uma melhor qualidade de vida e bem-estar para a população favelada, a garantir a segurança alimentar, e a capacitar agentes comunitários de transformação, para intervirem no território de maneira a contribuir para o desenvolvimento socioambiental e humanitário do território e de nossos moradores. Esses objetivos são imprescindíveis para despertar na população o desejo de plantar o que se come e de consumir o que é saudável para seu corpo.

Nossa dinâmica participativa incentivou moradores a desenvolverem um olhar mais proativo em relação às soluções para demandas socioambientais locais. A aproximação com a natureza fortalece os laços e a organização comunitária, além de proporcionar o desenvolvimento de habilidade no plantio e construção de hortas em formatos verticais através de oficinas realizadas pela equipe.

Alimentos produzidos localmente, através da mobilização comunitária e de maneira orgânica. Foto: Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)
Alimentos produzidos localmente, através da mobilização comunitária e de maneira orgânica. Foto: Maria Helena Pereira da Silva
Walmyr Junior, cofundador da Horta Maria Angu, Tia Silvia e as crianças da Creche Hotelzinho da Criança, uma das instituições que recebem a colheita da horta. Foto: Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)
Walmyr Junior, cofundador da Horta Maria Angu, Tia Silvia e as crianças da Creche Hotelzinho da Criança, uma das instituições que recebem a colheita da horta. Foto: Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)

No curso do desenvolvimento da horta, entre o primeiro e o segundo plantio, colhemos beterraba, alface, couve, salsinha e cebolinha, coentro, beringela, quiabo, jiló, rúcula e agrião. A comunidade pôde ver os alimentos orgânicos crescerem e serem distribuídos após a colheita para duas creches da comunidade. Levamos também duas atividades socioambientais para as crianças das mesmas creches beneficiadas pelas colheitas. A distribuição de alimentos que estruturamos fortalece as redes de cooperação locais e garante a entrega de alimentos produzidos na favela para a própria comunidade.

Para Silvia Regina, carinhosamente chamada de Tia Silvia, receber a colheita da nossa horta significa “alimentação saudável e a garantia de vitaminas devidas nos pratos dos pequenos”. Ela destaca que, para manter seu trabalho com crianças em horário integral na Creche Hotelzinho da Criança, é preciso tecer redes:

“Buscamos parceria para arrecadarmos a alimentação para os nossos pequenos. Por este motivo nos foi apresentado o Projeto da Horta Comunitária Maria Angu, onde os agentes também fizeram um trabalho com nossas crianças antes do preparo da terra. Logo após a plantação fomos agraciados com verduras e legumes saudáveis sem nenhum agrotóxico e agregamos à nossa alimentação.”

Creche Hotelzinho da Criança, uma das instituições que recebem a colheita da Horta-Escola Maria Angu. Foto: Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)
Creche Hotelzinho da Criança, uma das instituições que recebem a colheita da Horta-Escola Maria Angu. Foto: Maria Helena Pereira da Silva

Um outro projeto beneficiado com nossa colheita é a Creche Ovelhinha de Jesus, administrada pela Denise Gonçalves, que descreve o recebimento com muito entusiasmo:

“Tem sido maravilhosa a colheita dos legumes e das verduras. Eu estou gostando muito. Está sendo de grande apoio à alimentação para minhas crianças. As crianças gostam quando chegam os alimentos, querem até tirar fotos, porque é diferente para eles… as verduras e legumes orgânicos [agora] já fazem parte da vida dos nossos baixinhos. É alimento rico em vitaminas.”

Creche Ovelhinha de Jesus, administrada pela Denise Gonçalves, recebe alimentos da Horta-Escola Maria Angu. Foto: Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)
Creche Ovelhinha de Jesus, administrada pela Denise Gonçalves, recebe alimentos da Horta-Escola Maria Angu. Foto: Maria Helena Pereira da Silva

A experiência ímpar em colher produtos orgânicos para o consumo das crianças, nos leva a pensar até onde podemos ir com este projeto e nos seus respectivos passos futuros. Além de sonharmos em fazer dele um meio de geração de emprego e renda, através de uma possível parceria com o programa Hortas Cariocas da Prefeitura do Rio de Janeiro, projetamos a extensão do plantio, ampliando nossa horta e a colheita para comercializar alimentos orgânicos a preço baixo na favela. Porém, nossa maior meta é constituir uma consciência socioambiental na comunidade e consolidar um programa de segurança alimentar periférico.

Creche Ovelhinha de Jesus, administrada pela Denise Gonçalves. Foto: Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)

Essa dinâmica da Horta Maria Angu se dá em função de uma participação ativa de muitos colaboradores. Marina Mahfuz, integrante do Instituto Perifa Sustentável e voluntária do nosso projeto, acredita que contribuir com a segurança alimentar dessas creches comunitárias traz muita felicidade e uma esperança:

Tia Silvia da Creche Hotelzinho da Criança, uma das instituições que recebem a colheita da Horta-Escola Maria Angu. Foto: Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)
Tia Silvia da Creche Hotelzinho da Criança, uma das instituições que recebem a colheita da Horta-Escola Maria Angu. Foto: Maria Helena Pereira da Silva, Nena (@nenapereiradasilva)

“Saber que a minha dedicação e conhecimento podem ajudar a garantir uma vida mais digna pra alguém é algo que me enche de satisfação e me reconecta com o sentido de estar vivo em comunidade… Para além disso, quando penso no fato de que essas creches são compostas de pessoas que dedicam suas vidas a sanar uma necessidade coletiva, que é o cuidado das crianças da comunidade que não têm com quem ficar enquanto as mães trabalham, consigo refletir sobre a importância do que fazemos com o projeto. Essas mulheres [que tocam as creches] são potências para as suas comunidades. Muitas vezes não conseguem nem fechar as contas com a contribuição que recebem das famílias das crianças. Poder apoiá-las a acreditar na força da rede e a garantir um alimento sem veneno e seguro para essas crianças é algo indescritível.”

Marina depõem sobre o que sentimos desta experiência. É a favela, a periferia e as pessoas que nela vivem que nos impulsionam a movimentar estruturas sociais. É a justiça socioambiental, segurança e soberania alimentar, além de justiça climática no centro da agenda de lutas pelo desenvolvimento local sustentável.

Nossa singela horta pode parecer pequena e tímida ao se projetar em uma favela com índices de vulnerabilidades sociais tão elevados, porém a agenda está posta e a soberania alimentar na favela é nossa meta. Ainda que o projeto não tenha sido capaz de promover a total autonomia dos agentes e a total apropriação comunitária do espaço, notamos seu potencial de desenvolvimento no território. O sorriso de uma criança alimentada saudavelmente e com segurança não tem preço. É isso que nos impulsiona a ir além.

Sobre o autor: Walmyr Junior é professor, militante do Movimento Negro Unificado (MNU), mestrando em Ciencias da Sustentabilidade pela PUC-Rio, co-autor do livro Porta Vozes da Resistência e fundador da Horta Comunitária Maria Angu.


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