Últimas Notícias

Remoção na Telerj: Uma Nova Favela Morre, Tão Rapidamente Quanto Nasceu

Click Here for English

No site em inglês
Milhares de famílias foram ocupando o complexo da ex-Telerj abandonado no Engenho Novo, Zona Norte, onde os recém-chegados tinham reivindicado pela moradia desde domingo, 30 de março. A ocupação envolveu mais de 8.000 pessoas, de acordo com os moradores, com mais chegando a cada dia. Muitas famílias deixaram suas casas das comunidades de Mandela, Rato Molhado, Jacarezinho, Cosmos, Manguinhos, Duque de Caxias e Morro do Sampaio. Outros que vivem sem-teto nas ruas próximas também participaram da ocupação.

O espaço foi distribuído coletivamente, na medida em que as famílias chegavam e começavam a erguer seus barracos individuais improvisados​​ feitos de madeira compensada e materiais recuperados, sem qualquer telhado, móveis, ou piso. Muitos barracos (geralmente 4×4 metros de tamanho) foram construídas sobre o interior e sob os telhados dos edifícios, enquanto outros continuaram surgindo nos espaços restantes, desocupados ao ar livre. Todo barraco tinha um nome pintado nele, reivindicando o seu espaço pessoal.

O complexo de 50.000m2 fica ocultado por dois prédios de seis andares e um armazém, todos organizados em torno de um vasto estacionamento ao ar livre. Anteriormente, como parte da Telerj, o complexo foi vendido na privatização das telecomunicações brasileiras, em 1998, para a Telemar (hoje Oi). Oito anos atrás a Oi largou o edifício deixando-o abandonado e vazio. Moradores de Engenho Novo afirmaram que o espaço foi utilizado, frequentemente, para venda e uso de drogas, reportou O Globo.

A Juíza Maria Aparecida Silveira de Abreu ordenou uma liminar de remoção contra os ocupantes, sem espaço para as negociações. A reunião teve lugar no Tribunal Civil do Fórum do Méier, na terça-feira 08 de abril, para decidir uma estratégia e um cronograma para a desocupação. Nenhuma conclusão da reunião foi revelada ao público. Maria José da Silva, a única representante pública com laços aparentes com a comunidade, Guilherme Simões do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto de São Paulo, Humberto Cairo da Associação dos Advogados do Brasil (OAB) representando a Polícia Militar, representantes da Defesa Civil, Bombeiros, ambos os governos estadual e municipal, e os proprietários do local (Oi) todos se reuniram para discutir a estratégia da saída. Uma reunião com os moradores, agendada para mais tarde naquela noite, com Maria José da Silva, foi cancelada.

Moradores respondem a vários problemas

A especulação sobre o preço de moradias, serviços de saúde e educação inadequados, transporte caro, ameaça de remoção, risco de enchentes e deslizamentos, e outras questões que sentem que estão sendo ignoradas pelo Estado, estavam entre as razões articuladas pela comunidade recém-formada, como os fatores que os levaram a ocupar o espaço.

Até recentemente, Joseli, 61 (foto ao lado), morava em uma casa de um único cômodo alugado em Manguinhos com a filha e quatro netos onde pagava R$600,00 por mês. Ela continua a ganhar o salário mínimo de R$724,00 por mês em seu trabalho como cozinheira onde ela, diligentemente, tem trabalhado por mais de 30 anos. Apesar de seu trabalho duro, ela salienta que o salário não cobre os custos básicos de vida. Ela explica que, “Quando as crianças ficam doentes, ou não há médicos, ou não há medicação no hospital”, ecoando um sentimento comum a toda a ocupação. Joseli aguarda pelo seu 65º aniversário, quando ela poderá solicitar o seu passe de ônibus.

Apenas a 4,5km do local da Telerj, o estádio do Maracanã, local da Copa do Mundo, oferece uma manifestação física para os ocupantes concentrar as suas frustrações. Marcela, 26 anos, morava no Jacarezinho com seu filho e marido até recentemente. Seu marido trabalha longas horas entregando tinta de bicicleta ao redor da Zona Norte, mas ainda assim eles continuam a lutar para comprar os bens básicos. “Um trabalhador não vale nada nesta cidade”, explicou ela. “Para que tudo isso? Se não podemos pagar as contas? Só quero uma casinha. Uma casinha não e nada em comparação ao que gastaram na Copa”.

Na quinta-feira, 10 de abril, o Prefeito Eduardo Paes tentou desviar a atenção do foco da mídia sobre a responsabilidade do governo. Paes afirmou: “Eu não conheço nenhuma Favela da Telerj. Eu conheço uma invasão, com todas as características de ser profissional, organizada”, em uma tentativa de cooptar a opinião pública e criminalizar a ocupação. Ele sugeriu que era uma tentativa premeditada de obter habitação social, como por exemplo, através do programa Minha Casa Minha Vida, destinado a assentar quem precisa, mas muitas vezes usado para reassentar as vítimas de remoções forçadas. O Globo também indicou que a ocupação foi organizada por um único ou um grupo de organizadores, sugerindo que uma campanha no Facebook informou muitos dos moradores. Quando perguntados, os moradores da Favela da Telerj não estavam cientes da campanha de mídia social.

Embora os mecanismos precisos da mobilização permaneçam obscuros, por agora, está claro pela escala e velocidade da ocupação que esta é uma resposta da comunidade (“organizada”, ou não) para uma ampla gama de questões sociais compartilhadas por um número de diversas comunidades em todo o Rio de Janeiro.

Famílias salientaram que queriam uma solução não-violenta para a situação, alegando estarem abertos ao diálogo com o Estado.

Telerj Eviction

Uma remoção como muitas outras

A remoção da Telerj começou às 4:00 da manhã ontem, sexta-feira, 11 de abril. Segundo  O Globo, 1.500 policiais do BOPE, o Batalhão de Choque e UPP participaram. Funcionários do Corpo de Bombeiro e do Tribunal Civil do Méier também estavam presentes.

Em uma reportagem de televisão ao vivo O Globo relatou as mortes não confirmadas de três crianças, mortas por bombas de gás lacrimogêneo, sugerindo, em seguida, que elas estavam feridas. No momento da publicação, a comunidade recém-formada continua a mostrar solidariedade e resistir contra o ataque da polícia com gás lacrimogêneo e balas de borracha. Enquanto isso, O Globo relata atos de “vandalismo” pela comunidade.

Apesar da remoção, as qualidades dos ocupantes e sua iniciativa serão lembrados como efêmeros, injetando criatividade, improvisação, coletividade, ética e de solução em um espaço anteriormente abandonado e deserto.

Para seguir o caso, siga o RioOnWatch no Facebook.


(Fotos por Nick Pope e Midia NINJA; álbum por Midia NINJA)