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Urbanização Maliciosa

“Fez da vida por aqui de mente erguida, sem mentira, com malícia me passou lição de vida.” Esses versos, imortalizados pelo rapper-poeta Sabotage, serviram perfeitamente para ilustrar a história desse coletivo denominado, coincidentemente ou não, Malícia Urbana Crew. O termo “crew”, que na língua inglesa significa tripulação, grupo de trabalhadores ou bando, foi apropriado por grafiteiros da periferia de todo o estado do Rio para identificar seus grupos. A Malícia está diretamente ligado a tudo o que passaram desde 2001 quando se conheceram no extinto programa “Jovens Pela Paz”, uma iniciativa do então governador Anthony Garotinho. “Passamos muita necessidade, a estrutura do programa era precária e faltava tudo, do material à comida. Nós tínhamos muito interesse e buscamos nos reunir de forma independente para correr atrás de informações sobre a cultura do graffiti, que era o que sabíamos fazer na época”, conta Rafael Araújo, conhecido como Fael Malícia Urbana.

O coletivo era formado por jovens de diversas localidades cariocas, e a sagacidade encontrada na hora de fugir das adversidades no caminho foi lembrada na escolha do nome. “O Bruno propôs o nome Malícia Urbana por tudo que tínhamos que passar para poder nos encontrar”, conta Sílvio de Souza, mais conhecido como Sílvio Koih. “Malícia pelo jogo de cintura pra driblar a dificuldade financeira e o Urbano era onde tudo acontecia mesmo, já que estávamos sempre no rolé pelas ruas pra desenvolver a arte. Nós concordamos na hora com o nome.” Infelizmente, Bruno não está mais no crew.

Em 2002 foi realizada a OficiNação, oficina de graffiti realizada pela Nação Crew, da qual fazem parte renomados graffiteiros cariocas, como Marcelo Ment e Airá Ocrespo. Seus encontros aconteciam na Fundição Progresso, Lapa, no centro da cidade, e Fael e Silvio Koih continuavam a corrida atrás do graffiti. “A estrutura da OficiNação era muito proveitosa, porque os encontros eram como um bate-papo sobre graffiti. O pessoal do Nação Crew convidava os melhores graffiteiros na época e nós tínhamos a oportunidade de tirar as nossas dúvidas com qualquer um deles”, lembra Fael. Silvio Koih também comenta sua paixão pelo graffiti: “Eu comprei uma revista de graffiti na época que comecei, que tinha uma figura fora do normal, em 3D, com uns tons de fluorescente que foi pintada em um painel gringo e pirei. Quando soube que a diferença estava na pintura, comecei a pesquisar. Aprendi muito na OficiNação com os graffiteiros Ment, Braga, Airá e Chico, que estavam sempre nos encontros na Fundição Progresso”, lembra Koih. Para pagar a taxa de inscrição do curso, eles tiveram que usar a famosa malícia. “Tinha uma taxa de R$ 50, só que quando nós chegamos lá eles já sabiam da nossa correria e fizeram pela metade do preço”, comentam entre sorrisos Fael e Silvio.

Logo surgiram os primeiros convites para trabalhos sociais, colocando-os diante um dilema peculiar à juventude da periferia: as incertezas e a falta de profissionalismo do terceiro setor ou a segurança e direitos da carteira de trabalho assinada? “Nós já vínhamos de uma experiência traumatizante com projetos sociais e eu tinha a questão da idade, que não me permitia mais perder tempo com algo que eu não tivesse a segurança que a carteira de trabalho iria me proporcionar, então o Fael começou a nos representar em projetos e está até hoje ministrando oficinas de graffiti”, diz Silvio, que lamenta não poder fazer o que ama com a frequência que gostaria. “Eu até já participei de algumas oficinas e estou sempre disposto a auxiliar quando alguém me questiona sobre o graffiti, só que infelizmente eu tenho que me manter financeiramente e esse lado acaba pesando no final”, pondera Koih.

Hoje com quase dez anos de estrada e uma vasta experiência acumulada, junto com todos os companheiros que passaram a fazer parte do coletivo, o Malícia Urbana já conta com uma sede própria, re-editores multiplicando a cultura graffiti e os ideais do coletivo, marca de roupa, além do rap e do graffiti que sempre acompanharam o MUC.

Urbanização Maliciosa

“Mais do que urbanizar maliciosamente as ruas da cidade, o Evento Urbanização Maliciosa tem como objetivo principal promover o encontro e o diálogo nos espaços populares, além, é claro, de democratizar o acesso e a produção de arte em áreas onde dificilmente as pessoas teriam a oportunidade de participar das manifestações que acontecem durante o encontro.” É assim que Fael define o evento idealizado no ano de 2004, onde ocorreu a primeira intervenção no bairro de Bento Ribeiro. “Foi uma ideia minha e do Wagner. A iniciativa partiu mesmo do Wagner, que foi correr atrás dos lanches para os artistas que iriam participar”, continua Fael, que se surpreendeu com o sucesso de público foi em uma época em que a cultura do graffite tinha poucos adeptos. A divulgação se concentrou no pessoal que participava da OficiNação, que reunia a nata do graffiti. “A rapaziada toda foi.”

Apesar do sucesso na estreia, o Urbanização só voltou realizado novamente em 2007, ano em que houve três edições, na favela do Para Pedro, em Colégio, Zona Norte do Rio, Vila Mimosa, zona de prostituição mais antiga e popular do Rio localizada no centro da cidade, e na favela da Malvina, no Irajá, Zona Norte. O último Urbanização Maliciosa foi em fevereiro de 2010, novamente na favela do Para Pedro, dessa vez com um sabor todo especial para Fael. “Além de ser a comunidade em que me criei, e do evento ter participado do documentário “Comendo Tinta”, após o último Urbanização que tinhamos realizado no ParaPedro a comunidade passou por guerras entre facções, e todas as artes que haviam sido feitas foram apagadas pela facção que herdou o controle do tráfico na época. Quando devolvemos o colorido às ruas daquela comunidade foi realmente uma realização pessoal.”, comemora.

Com o amadurecimento dos idealizadores e a adesão de outros coletivos no movimento, o Urbanização Maliciosa volta em 2011 com novidades no formato e maiores opções de artes para o público. “Apesar de ser um dos primeiros eventos de graffiti voluntário do Rio, hoje o Urbanização tomou uma outra proporção”, avalia Fael, para quem o rap e a capoeira não podem ficar de fora. A tendência é que continue sempre assim, incorporando todos os coletivos que se identifiquem com os ideais do MUB. As próximas comunidades a receberem o Urbanização Maliciosa serão a Faz Quem Quer, em Rocha Miranda, Manguinhos, em Bonsucesso, ambas na Zona Norte.

MUC RAP

O rap e o graffite são dois dos mais conhecidos elementos da Cultura Hip-Hop, juntamente com o dj e o b-boy, e sempre estiveram presentes no cotidiano do coletivo Malícia Urbana. E não foi diferente com o coletivo, no qual Fael e Poc, que já está em outra, cantavam rap e graffitavam desde que se conheceram . A única exceção foi o Mc Kelson, que entrou para o coletivo tão logo conheceu seus integrantes em um evento de rap no Acari, favela nas imediações da Avenida Brasil, na Zona Norte. “Me chamaram para declamar uma poesia na apresentação do grupo de rap formado por Poc e Fael”, conta o MC. Começava aí a parceria de Kelson nas letras e nas batalhas de mc’s.

MC Kelson, que já venceu uma batalha de mc’s e participou das gravações do filme “L.A.P.A.”, diz que hoje o que une os integrantes do Malícia Urbana é a experiência de seus integrantes. “Hoje a nossa cabeça é muito mais técnica e preza muito mais pelo conjunto da obra. Temos mais vontade de oferecer oficinas de grafitti e trabalhar a cabeça dos mais jovens que de certa forma estão com a mentalidade meio perdida ainda, porque você sabe que a idade de 12 ou 13 anos hoje é uma idade de formação moral, é quando eles se interessam por uma coisa ou por outra, eles estão deixando de ser crianças para entrar na adolescência, o que eles aprendem ali eles vão levar pra vida deles todinha”. Kelson acredita que um jeito de mudar a vida de crianças e jovens seja por intermédio da arte. “Talvez um grafitti ou um rap, onde cada um pode descobrir sua aptidão para cada segmento, pode ser uma oportunidade. É o tempo em que eles vêem jovens armados ganhando algum dinheiro, vendendo, consumindo e comprando drogas. Eles precisam ver que tem mais coisas, coisas melhores a serem feitas”, reflete Kelson.

Com uma mixtape já gravada (veja na página no MySpace, e outras composições que já estão na fila para ir para o estúdio, o Malícia Urbana continua sua árdua e promissora caminhada. “A dificuldade que sempre tivemos para nos manter financeiramente foi um dos principais empecilhos para continuarmos com o rap, só que agora com toda a experiência que absorvemos temos muita coisa a falar e iremos continuar com o rap”, finaliza Fael. Mc Kelson ainda manda um recado: “Só baixar e ouvir”.

Locais de eventos do Urbanização Maliciosa


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