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Uma Crítica ao (Nem Sequer Lançado) Museu do Amanhã

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O Museu do Amanhã, uma das obras mais ambiciosos do programa de revitalização do Porto Maravilha, abrirá as suas portas neste sábado, 19 de dezembro. Ocupando um pier que adentra a Baía de Guanabara na região do Porto, o museu é notável por sua espetacular aparência e pelas polêmicas e críticas ao projeto desencadeadas durante os quatro anos de seu processo de construção, um período durante o qual os políticos do Rio de Janeiro têm sido criticados por trabalhar em prol de um futuro sem os devidos cuidados ao passado da cidade.

Após a tentativa Guggenheim, a Cilada Calatrava

A priorização de transformar a Região do Porto em uma atração turística vem na linha de frente de uma crítica mais ampla do modelo de cidade que está sendo implementado durante o mandato do Prefeito Eduardo Paes, que se concentra nos megaeventos e no desenvolvimento especulativo das Zonas Sul, Oeste e o Centro da cidade.

As transformações urbanas realizadas por Paes são uma remanescência de tentativas ou de projetos realizados por seu antecessor e colega de partido, César Maia, que também procurou revitalizar a Barra da Tijuca na Zona Oeste, e a região do Porto no Centro, através da construção de edifícios culturais caros e supostamente emblemáticos. As tentativas fracassadas de Maia incluem a Cidade da Música–agora chamada de Cidade das Artes–na Barra da Tijuca (um edifício branco gigante subutilizado projetado pelo arquiteto francês Christian Portzamparc, que custou R$515 milhões) e o projeto de construção de uma filial do Museu Guggenheim no Rio, exatamente onde o Museu do Amanhã está localizado. César Maia promoveu o projeto como um catalisador para a revitalização da Região do Porto, há muito tempo abandonado.

Na época, no início da década de 2000, um movimento de resistência liderado pelo vereador Mario del Rei, com o apoio e ativismo dos moradores locais e outros membros da sociedade civil, insistiu no absurdo do projeto Guggenheim. O projeto foi iniciado e suspenso depois de um processo judicial contra a tentativa do prefeito César Maia. Os moradores locais afirmaram que haviam outras prioridades mais urgentes na Região do Porto, tais como a construção de uma escola e a melhoria dos serviços públicos.

Ao contrário do projeto Rio Guggenheim, a construção do Museu do Amanhã seguiu em frente. Juntamente com o Museu de Arte do Rio, uma escultura em letras que comemora a “Cidade Olímpica”, além das obras do veículo leve sobre trilhos (VLT), o Museu do Amanhã é uma pedra angular de um conjunto espetacular na renovada Praça Mauá, encapsulando o ideal de um modelo de cidade, finalmente posta em prática por Paes no âmbito do projeto Porto Maravilha.

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Santiago Calavtrava na frente do museu inacabado. Foto por Filippo Fitipaldi

Uma das principais diferenças entre o Museu do Amanhã e projetos como o Guggenheim é a participação da Fundação Roberto Marinho, uma organização criada pelos donos da Globo, para apoiar projetos culturais. A Globo apoiou bastante o projeto Guggenheim, apesar de resistência e das críticas generalizadas. No Museu do Amanhã, a Fundação Roberto Marinho é a principal construtora do museu devido a parceria público-privada que fez com que o projeto se tornasse possível. Em 2011, a Fundação recebeu R$24 milhões do Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano para a construção do Museu do Amanhã, numa transferência que foi posteriormente investigada pelo Ministério Público. É importante notar que a Globo confessou o apoio ao brutal regime militar entre 1964 e 1985, portanto, não devemos ficar esperando exatamente que seja craque em Museu da Memória.

Os custos de construção do museu são uma importante fonte de críticas públicas, algo frequente no caso das obras de Santiago Calatrava. O arquiteto espanhol é conhecido por duplicar ou triplicar o orçamento depois que os projetos são aprovados. No caso do Museu do Amanhã, reajustes orçamentais tiveram um aumento de R$70 milhões no projeto original a um custo final de R$213 milhões. Os edifícios de Calatrava muitas vezes impõem altos custos de manutenção, principalmente devido a problemas com os materiais de construção e a concepção das estruturas, resultando em despesa pública.

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Museu do Amanhã pré-lançamento

Um Museu do Amanhã, mas e o passado?

O projeto de revitalização do Porto Maravilha está em andamento em uma área historicamente conhecida como Pequena África. Tendo sido o maior porto de escravos na história do mundo, a região do porto do Rio foi o ponto de chegada de dois milhões de africanos escravizados. O professor de antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro do Movimento Negro, Rolf Malungo de Souza enfatiza a importância da herança negra para entender a configuração histórico-cultural, não só da região do Porto, mas da cidade do Rio e do Brasil como um todo. Ele argumenta que a população negra da Pequena África sofreu a primeira forma de segregação espacial na cidade de Rio e foram protagonistas nas revoltas contra os poderes imperiais absolutistas e militares.

O Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN) é uma das poucas instituições dedicadas à preservação da memória histórica Africana na Região do Porto. O IPN foi fundado em 1998, depois de Merced e Petrúcio Guimarães terem encontrado os restos de uma sepultura em massa de escravos nas fundações da sua casa. Seguindo pesquisa arqueológica, foi descoberto que o local foi um cemitério para milhares de africanos que morreram na chegada ou antes de serem vendidos. O Instituto recebeu algum reconhecimento oficial em 2009 e atenção estratégica e financiamento simbólico da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (CDURP), no entanto, ele opera com recursos básicos e conta com o trabalho voluntário de professores, arqueólogos, pesquisadores e curadores.

IPN

Merced Guimarães, fundadora e diretora do IPN, vê o Museu do Amanhã como um elemento positivo para a região, mas critica a forma como a cidade está gerindo o patrimônio arqueológico da região: “Eu não vou dizer que estou de acordo com a  maneira como a preservação arqueológica está sendo realizada. Mas eles estão inventando novos conceitos de museus, e é importante ter um museu como esse na nossa região“.

Rolf Malungo de Souza, no entanto, é mais crítico quanto a forma e o conteúdo de um museu futurista, e compartilha a preocupação com a preservação da herança negra no contexto da revitalização. Ele diz: “A cidade só quer preservar a parte festiva da herança negra”. Ele argumenta e enfatiza que os ativos do patrimônio do Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração Africana, iniciativa da prefeitura, são o samba, capoeira e carnaval–que são mercadologicamente fáceis de serem vendidos como parte do Porto como atração turística. Esta forma de ver a região é diferente da que arquitetos trabalhando com o Movimento Negro apresentam sobre o Circuito da Herança Africana, que atualmente está sendo promovido pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, representam, ou do plano que está sendo cogitado pela UNESCO fazendo da região uma área reconhecida como Patrimônio da Humanidade, um projeto criado por instituições locais, incluindo o IPN.

Dada a segregação urbana do Rio, Malungo de Souza argumenta que a quase totalidade das instituições e atrações culturais da cidade estão localizados nas regiões das Zonas Sul e Centro. Muito mais investimento cultural, diz ele, deveria ser feito nas desfavorecidas Zonas Oeste e Norte. Ele conclui que o museu que honraria de forma mais adequada e representaria a Região do Porto do Rio, como um dos locais mais significativos da história afro-brasileira, seria um Museu da Diáspora Africana.