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A Realidade dos Moradores do Parque Carioca Após Reassentamento da Vila Autódromo [IMAGENS]

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Construído para acomodar os moradores removidos da Vila Autódromo e custando R$105 milhões, o Parque Carioca tem sido amplamente utilizado pela administração do Prefeito Eduardo Paes como um modelo exemplar do programa Minha Casa Minha Vida. No entanto, muitos moradores da Vila Autódromo resistiram durante muito tempo ao transplante de sua comunidade para este complexo habitacional público e as condições não refletem a retórica da administração municipal.

Ainda recentemente, o Prefeito Eduardo Paes insistia que todos os moradores que deixaram a Vila Autódromo estavam felizes em partir e que as 341 famílias reassentadas no Parque Carioca estavam satisfeitas com a gestão das unidades habitacionais. Durante uma recente entrevista reveladora para o jornalista esportivo Dave Zirin, do The Nation, Eduardo Paes disse, “Vamos até o condomínio para onde a maioria deles se mudou e você verá se sou popular por lá ou não; se eles estão felizes ou não”.

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Portões fechados dos lotes para a rua principal do Parque Carioca.

Eduardo Paes afirma que as famílias saíram por vontade própria. Isso contradiz relatos dos moradores sobre a constante pressão para saírem, com a Prefeitura forçando lentamente as famílias para fora, usando medo, intimidação e alimentando a desunião.

A remoção para o Parque Carioca deveria fornecer casas através de uma “troca de chaves”, que significa a simples troca de uma casa por outra, com os mesmos direitos e sem pagamentos extras. Em vez disso, a Caixa Econômica Federal pagará 120 parcelas mensais durante dez anos, o que significa que os moradores não podem realmente vender suas casas, e por consequência terão que permanecer no local sendo bom para eles ou não, até que os pagamentos tenham terminado. Além disso, a falta de fiscalização por parte do governo fez com que alguns dos problemas associados a negligência do Estado, que não existiam na Vila Autódromo devido à forte estrutura social da comunidade, aparecessem no Parque Carioca, como o uso de drogas dentro dos condomínios.

Em um artigo do O Globo de 2014, um morador explicou: “Nós já temos moradores usando drogas nos corredores. O espaço é bonito, mas não é bem administrado”. Outro morador comentou “Achei que poderíamos fazer o que quiséssemos com o apartamento. Agora estamos presos aqui por dez anos. Por enquanto está bom, mas tenho medo de que isso se torne uma segunda Cidade de Deus“. É importante observar que esse artigo de O Globo já tem quase um ano e meio; devido à baixa qualidade da construção, o complexo habitacional já não é tão “bonito”, sinais de degradação estão por toda parte.

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Cercas separaram os lotes. Para alguns se assemelham mais a prisões do que lares.

É raro ter acesso a esses condomínios habitacionais públicos. Frequentemente, os moradores ficam sensíveis ao expor suas experiências, pois não querem reviver a experiência da remoção de suas comunidades ao falarem sobre ela, uma vez que já aconteceu e nada pode ser feito. Além do mais, muitos disseram ao RioOnWatch que estão relutantes em falar por temerem que a moradia pública possa lhes ser tirada por vingança, ou até porque essas comunidades fechadas são frequentemente controladas por milícias.

Aqui o RioOnWatch documenta algumas das preocupações e experiências expressadas por moradores do Parque Carioca em uma visita recente. Devido ao medo das pessoas de falarem publicamente sobre suas preocupações, não estaremos atribuindo citações a ninguém diretamente, como uma forma de proteger identidades.

Cartaz na janela de um prédio do Parque Carioca - "Quero meu dinheiro"

Cartaz na janela de um prédio do Parque Carioca – “Dinheiro, quero meu.”

Conhecendo os moradores

O Parque Carioca é dividido em quatro lotes separados e sem conexão. Cada lote é uma seção da comunidade rodeada por grandes cercas de arame com alguns prédios de condomínio dentro delas. Para entrar em um lote, os moradores usam dois portões: um para carros e outro para pedestres. Do lado de fora, os condomínios parecem construções simples, com cinco andares, janelas com bom tamanho e uma pequena varanda para cada apartamento.

Quase imediatamente após entrar na comunidade, o RioOnWatch foi recebido por uma moradora cuja família havia deixado a Vila Autódromo após negociarem um preço por sua moradia. A moradora disse que apesar de ter procurado por outras opções, não foi capaz de encontrar moradia adequada com a indenização que recebeu por sua casa na Vila Autódromo. Decidiu então adquirir um apartamento de um parente no Parque Carioca, pois poderia manter seu filho na mesma escola onde estudava quando na Vila Autódromo. As ruas pavimentadas e a falta de lodo foram vistas como um aspecto positivo do complexo.

Essa moradora falou sobre a falta de manutenção dentro do complexo. O destaque do Parque Carioca é uma grande piscina com um escorrega que é usada frequentemente como material de marketing do Parque Carioca juntamente com reportagens inicialmente publicadas no O Globo que glamourizavam o condomínio. Agora, a piscina está cercada por fita isolante e a água tem um tom esverdeado. Foi dito aos moradores que se quisessem utilizar a piscina, eles mesmo deveriam fazer a manutenção.

Parque piscina

A piscina, comemorada frequentemente nos materiais de marketing, está repleta de algas ha muitos meses. Moradores foram informados que agora teriam que mantê-la eles mesmos.

Moradores mostraram-se preocupados com a segurança e bem estar das pessoas no Parque Carioca. Alguns estão profundamente insatisfeitos com a qualidade dos prédios construídos em 2013. A Prefeitura descreve o Parque Carioca como “um empreendimento com padrão classe média”. Porém moradores nos relataram casos de infiltrações e vazamentos.

Moradores também fizeram reclamações sobre altas temperaturas nos prédios já que praticamente não há árvores no complexo e circulação de ar é pouca. Apesar do material promocional do Parque Carioca citar a inexistência de insetos e mosquitos, tubos de drenagem estão abertos próximos dos pátios de alguns prédios, fazendo com que a água parada e os insetos sejam um problema. O Zika vírus já era uma preocupação para os moradores da Vila Autódromo devido às poças de água parada geradas pela demolição de casas e pela construção do Parque Olímpico, e ao que parece eles não foram capazes de escapar do problema após a mudança.

Alguns moradores mostraram-se arrependidos da decisão de mudar-se para o Parque Carioca e dizem que foram pressionados a isso. O Prefeito Eduardo Paes tem falado continuamente que não forçou ninguém a sair e que qualquer pessoa que quisesse permanecer na comunidade poderia, mas os moradores dizem que foram comunicados por agentes municipais que não teriam escolha e acabariam sendo forçados a sair, portanto optaram pela mudança para reduzir o risco de maiores problemas.

Essa preocupação é confirmada em outras histórias como nessa reportagem da TV Record abaixo, em que uma mulher fala sobre as falsas promessas do prefeito. Originalmente foi prometido aos moradores que eles não seriam obrigados a ficar e que seriam os donos de suas moradias, podendo vendê-las se assim quisessem, como eram capazes de vender suas antigas casas na Vila Autódromo. Na verdade, os moradores são obrigados a manter seus apartamentos por 10 anos antes que possam vendê-los legalmente. “Uma prisioneira em sua própria casa”, foi como Vânia foi descrita na reportagem:

No geral, os moradores foram bastante receptivos e abertos a falarem conosco anonimamente sobre diversas armadilhas do complexo, o que trouxe um forte contraste na forma com a qual a Prefeitura descreve as condições do Parque Carioca.

Ao partirmos, no entanto, uma mulher surgiu e explicou que trabalhava para a síndica do complexo. Ela começou a gritar e disse que era proibido visitantes na área sem um guia adequado e que também era proibido tirar fotos sem permissão. Ela insistiu que os visitantes deveriam ser acompanhados até a saída do complexo, para que não ficassem circulando por ali, e que visitantes que desobedecessem as regras do complexo deveriam se retirar sem questionamentos. Vizinhos do complexo nos disseram mais tarde que tais cargos são preenchidos por pessoas ligadas a Prefeitura, com o intuito de não deixar que as queixas e frustrações dos moradores saiam do complexo.

Problemas no Parque Carioca representam um descontentamento generalizado com políticas fracassadas e falsas promessas

Além das histórias individuais dos moradores, a situação no Parque Carioca representa um problema muito maior, que é a disparidade contínua entre políticas no papel e na implementação. Os moradores da Vila Autódromo foram tirados de sua comunidade com a promessa de uma melhoria no padrão de vida a partir das moradias providenciadas pela administração de Eduardo Paes. Os numerosos vídeos promocionais e as visitas chamativas empreendidas pela Prefeitura para atrair os moradores da Vila Autódromo não refletem a atual realidade no Parque Carioca–um complexo habitacional mal executado e mal mantido que reflete a falha de outras iniciativas políticas como o Morar Carioca, a UPP Social e até o programa da UPP. De uma perspectiva política e de planejamento urbano, há inúmeros erros gritantes na execução do complexo habitacional além dos descritos pelos moradores acima.

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No Parque Carioca falta a vibração e o movimento nas ruas que é característico de comunidades informais.

Primeiro, há uma pobre conectividade entre os prédios do condomínio. Embora tenha um amplo estacionamento para os moradores, o formato dificulta a circulação através do complexo e faz um nítido contraste com a comunidade densa, conectada e vibrante que existia na Vila Autódromo. Ao invés de fazer consertos e urbanizar a comunidade que representava tantas qualidades urbanísticas positivas, a Prefeitura optou por lotes isolados orientados para carros, que dificultam o crescimento da comunidade e reprimem a interação entre vizinhos.

Em segundo lugar, o formato do complexo tem muitas falhas e defeitos. Os parquinhos para crianças já estão todos em ruínas, cheios de equipamentos quebrados. Os equipamentos de metal ficam quentes demais para se brincar neles. E o problema não se limita as áreas de lazer. Os espaços comunitárias não estão conectados; a falta de sombra é opressiva; muitos bancos estão quebrados, e ficou claro que os moradores não dispõem de liberdade para interpretar os espaços de uma forma que dê a eles um propósito útil.

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Espaço designado para carros, não para interação entre moradores.

Além do mais, os clássicos contentores de lixo laranjas da Comlurb se encontravam pela metade–tampa sem receptáculo–no lote que visitamos, o que resultou em inúmeros montes de lixo atirados pelo complexo. Muitos moradores se mostraram preocupados com a baixa qualidade de serviços urbanos que possuem dentro do Parque Carioca.

Também ficou claro que há uma estrutura de poder na comunidade que não representa seus moradores e é usada para suprimir suas vozes. Em um período em que a futura urbanização da Vila Autódromo permanece incerta, não são só as 20 famílias que continuarão morando na Vila Autódromo que precisarão de atenção, mas também as centenas de famílias que seguem sofrendo por causa de promessas não cumpridas.

Veja imagens do nosso dia no Parque Carioca (clique aqui para legendas):