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A História Pouco Conhecida da Pequena África na Zona Portuária do Rio de Janeiro

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A Pequena África é o lar histórico da comunidade afro-brasileira na Região Portuária do Rio de Janeiro. A região ficou conhecida como Pequena África depois que o comércio de escravos se tornou ilegal no Brasil em 1831 (ainda que a abolição da escravatura só viesse a acontecer 50 anos depois). Entre 1850 e 1920, escravos libertos permaneceram trabalhando na região. Negros e africanos libertos da Bahia ou do interior viajaram para a Pequena África a procura de trabalho e de um senso de comunidade. A Pequena África frequentemente acolheu negros de todo o país, onde se ergueram casas, locais de convívio cotidiano e centros religiosos.

Apesar dessa rica história, a herança africana do Rio e a longa história da escravidão são muitas vezes negligenciadas. Mesmo com a renovação da Região Portuária com o Porto Maravilha e da criação de um Circuito de Herança Africana, a história negra dos locais permanece amplamente desconhecida.

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Pedra do Sal

Um local popular de samba para locais e turistas, Pedra do Sal é o mais antigo bairro negro continuamente habitado no Rio. A comunidade foi oficialmente reconhecida como um quilombo em dezembro de 2005, e é uma forte fonte de cultura afro-brasileira. A Pedra do Sal é reconhecida como o local de nascimento do samba e do carnaval. O lugar recebeu seu nome devido a pedra enorme que se encontra no local, usada para secar e vender o sal na época em que as águas da baía ainda alcançavam as suas margens.

A Pedra do Sal pode ter sido o primeiro local a praticar a democracia no Brasil. A historiadora Sadakne Baroudi afirma que a comunidade da Pedra do Sal formou seu próprio governo e votava em seus reis, rainhas e tribunais. Esta estrutura tornou-se o que hoje são as escolas de samba do Rio contemporâneo.

A memória da Pedra do Sal é preservada pelos moradores da comunidade, onde as tradições de influência africana como o Candomblé e a música seguem firmes.

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Rua do Valongo

Abaixo da primeira favela do Brasil, a Providência, a Rua do Valongo é a estrada que seguia para o Largo do Depósito, onde africanos escravizados trazidos para o Brasil, via Rio, eram mantidos em casas de engorda, para aumentar seus preços no mercado, até que eles estivessem prontos para serem vendidos no mercado de escravos do Valongo. Casas e lojas ao longo dessa via também foram usadas para vender escravos e abrigá-los até que fossem vendidos. Arqueólogos descobriram uma riqueza de artefatos de uso doméstico em torno da área, que falam da vida diária ao longo da estrada.

Em 1906, um jardim suspenso foi projetado pelo arquiteto Luis Rei e construído onde antes ficava a estrada, em uma tentativa de remodelar e “embelezar” a cidade. Ele foi projetado para imitar a imagem de espaços similares em metrópoles europeias, e até hoje mantém estátuas clássicas com aparência da tradição grega ou romana, ignorando e embranquecendo a história de opressão e violência que lá ocorreu.

O jardim suspenso foi recentemente renovado pela Prefeitura como parte do projeto Porto Maravilha, e com um quadro de informação registrando a sua história. Entretanto, muitos veem isso como um testamento inadequado da brutalidade que ocorreu ali.

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A Igreja Negra

A construção da Igreja Negra, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, começou em 1700 e terminou em 1737. A igreja é um importante centro de religião, política e da vida social afro-brasileira. Ela foi o local do primeiro protesto político no Brasil, em 1822.

Em 1967, a Igreja Negra e Museu alojado dentro da igreja foram devastados por um incêndio. A construção ainda permanece e é aberta ao público, embora ela esteja parcamente decorada.

Dizem que muitos personagens afro-brasileiros importantes foram enterrados na Igreja, incluindo Anastácia, uma escrava popularmente reconhecida como uma santa. Embora a Igreja Católica negue a existência de Anastácia e afirma que não encontraram vestígios dela no local durante a reforma posterior ao incêndio, em seguida removendo sua imagem de todas as propriedades possuídas pela Igreja, ela permanece uma importante personagem de adoração de católicos brasileiros e seguidores de religiões afro-brasileiras, tais como Umbanda.

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Largo do Depósito

Quando os africanos escravizados chegavam no Rio depois da travessia do Atlântico, eles geralmente se encontravam desnutridos, doentes e feridos. Por não poderem ser vendidos nessas condições, eles eram mantidos em “casas de engorda” para aumentar seus valores de mercado. Hoje conhecida como a Praça dos Estivadores, o Largo do Depósito era o centro das “casas de engorda” onde escravos eram mantidos, engordados e preparados para serem vendidos. Hoje, o Largo do Depósito é uma parada do tour de herança do Porto Maravilha.

Valongo visto de cima

Cais do Valongo

Os vestígios arqueológicos do Cais do Valongo, localizado no centro da Pequena África, marcam o local onde se encontrava o mais ativo mercado de escravos do Rio de Janeiro. Durante sua operação entre 1774 e 1831, um número estimado de 500.000 a 700.000 africanos escravizados e capturados foram forçados a atravessar o oceano Atlântico e desembarcar no Cais do Valongo. 

O mercado transatlântico de escravos tornou-se proibido em 1831 e o Cais do Valongo encerrou as suas atividades. O comércio de escravos continuou operando ilegalmente até que a escravidão foi oficialmente abolida em 1888.

Desde a sua construção, o Cais do Valongo também servia o propósito de esconder o mercado de escravos das elites do Rio de Janeiro, a qual estava preocupada em não contrair doenças e também em não ter que encarar a feiura do mercado. No século XVIII, a maioria dos homens, mulheres e crianças escravizadas foi levada para o centro comercial da cidade do Rio de Janeiro próximo ao que hoje é a Praça XV. Em 1774, depois de anos de reclamações das elites, o ponto de desembarque do mercado de escravos mudou-se para a região do Valongo na Pequena África.

Em 1843, a Prefeitura do Rio de Janeiro construiu uma estrutura por cima do Cais de Valongo a fim de apagar da memória o mercado de escravos e criar um novo porto de entrada para a chegada da princesa italiana Tereza Cristina de Bourbon, a esposa do Dom Pedro II. O nome da rua mudou de Rua do Valongo para a Rua da Imperatriz. Entre 1904 e 1910, a Prefeitura construiu um aterro por cima do Cais do Valongo, enterrando mais ainda a história do mercado escravo do Rio. O aterro fazia parte da Região Portuária onde hoje é a Praça Mauá.

Quando o projeto de redesenvolvimento do Porto Maravilha começou em 2009, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) foi aprovado para conduzir um estudo de pesquisa arqueológica na região do Cais do Valongo. Em 2011, o projeto revelou as diversas camadas do Cais do Valongo e os vários artefatos trazidos pelos africanos escravizados.

Tania Andrade Lima, arqueóloga do Museu Nacional da UFRJ declarou: “O Valongo cheira a uma extrema opressão, racismo, intolerância, desigualdade e marginalização. Isso evoca a um passado pesado e opressivo, cujas consequências são sentidas atualmente e serão sentidas por um bom tempo ainda no Brasil.

“Nossa intenção em trazer isso de volta e em evidência foi a de retomar para os escravos do Valongo–ignorados ou esquecidos pelas narrativas dominantes e que permaneceram nas sombras por séculos–o direito deles de serem lembrados. Nós devemos lembrar, lembrar sempre e em todas as circunstâncias.”

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Cemitério dos Pretos Novos

Muito próximo ao Cais do Valongo está o Cemitério dos Pretos Novos, onde foram enterrados entre 20.000 a 30.000 homens e mulheres capturados e escravizados, que não sobreviveram a viagem forçada da África para o Rio de Janeiro ou que morreram logo após a chegada. Muitos corpos foram esmagados e jogados em uma vala comum junto a objetos de cerâmica ou ossos de galinha.

O Cemitério dos Pretos Novos é considerado o maior cemitério de escravos nas Américas. O cemitério já era exibido em mapas que datam de 1791. O cemitério foi fechado em 1831, quando o comércio de escravos foi oficialmente extinguido no Brasil. Similar ao caso do Cais do Valongo, construções foram feitas em cima do cemitério, encobrindo-o por moradias e pelo desenvolvimento urbano durante os anos. Somente em 1996 o cemitério foi redescoberto quando um casal que estava restaurando sua casa descobriu ossos humanos debaixo da casa. Após essa descoberta, o IPHAN conduziu a pesquisa arqueológica na área e um instituto de pesquisa importante foi estabelecido pelo casal no local.

Para explorar o Porto e a Pequena África do Rio, leia mais aqui e faça um Afro-Rio Walking Tour.