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Perfil de Mídia Comunitária: Boca de Favela

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Esta matéria faz parte de uma série sobre veículos de comunicação comunitária.

Boca de Favela é uma página no Facebook que desconstrói estereótipos comuns sobre favelas, com o objetivo de ir além dos clichês e dos estigmas sociais. Os criadores da página, Mayara Ximenes, 24 e Jeandson Moreno, 23 anos, são moradores das favelas Engenho da Rainha e Muzema, respectivamente. Mayara e Jeandson planejam os conteúdos da página e capturam momentos da vida dos moradores de favelas, contando suas narrativas na legenda das fotografias publicadas, num estilo similar ao utilizado pela página Humans of New York (Humanos de Nova Iorque). Essas histórias não só capturam a diversidade dos moradores de favelas como também mostram que as favelas são vibrantes comunidades culturais.

Descrevendo como o projeto da página começou, Mayara diz: “A ideia da página surgiu quando começamos a nos sentir incomodados com a maneira pela qual a mídia retrata os territórios das favelas e quem vive nelas. As narrativas sobre estes espaços vêm sempre carregadas de clichês relacionados com criminalidade, violência, hipersexualidade, etc. E nós, que moramos em favelas, sabemos que as favelas são muito mais que isso, sabemos quanta gente potente e de luta existe dentro desses espaços”.

A página teve início em maio de 2016 e já conta com 17.000 seguidores. Boca de Favela também divulga notícias sobre as favelas da cidade do Rio, com foco nos grupos comunitários, iniciativas e soluções. A combinação entre ação comunitária e narrativas ajuda a demonstrar não só a força, a criatividade, inteligência e capacidade de resistência dos moradores de favelas, mas também a sua capacidade de reinventar-se constantemente. Como descrito pelos próprios criadores da página, Boca de Favela se utiliza das narrativas pessoais para tecer uma estória, fazendo a história.

Abaixo seguem algumas das postagens exibidas no perfil Boca de Favela.

Mirna Moreira

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“Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: ‘ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica’. Uma vez numa aula no pré vestibular, um professor entrou em algum tema de redação, que eu não lembro qual foi, e falou: ‘olha pro lado e me diz quantos negros tem nessa sala’. Foi aquele momento que todos os olhares da sala se viraram pra mim.

O meu maior acerto foi ter assumido minha estética enquanto mulher negra antes de entrar nesse espaço da universidade. Eu entendi que é muito importante estar ali porque existe a questão da representatividade, que se estende para fora da academia também. Quando eu visto meu jaleco branco e subo o Morro dos Macacos representando a instituição UERJ, como fiz em uma ação sobre sexualidade na adolescência numa escola pública, e as meninas negras dessa escola pedem para tirar fotos comigo, elogiam meu cabelo crespo, e de alguma forma me veem como referência, eu só tenho mais certeza disso.

No dia dessa ação na escola eu voltei no mesmo ônibus que uma aluna, e quando eu desci no mesmo ponto que ela aqui no Complexo, ela perguntou: o que você tá fazendo aqui?

Ela não esperava que eu descesse aqui na favela. Eu chorei muito. Isso me marcou demais, até porque eu nunca tive uma representação física e próxima que eu pudesse me espelhar nesse campo profissional, essa mulher, negra, médica. Sabe?

Por isso, principalmente nos espaços acadêmicos, eu faço questão de afirmar que sou do Complexo do Lins. Esse lugar faz parte da minha identidade. Sei da onde eu vim, quem me ajudou a chegar até aqui, e não foi nenhum médico de formação, foi minha mãe que trabalhou como diarista por muitos anos, meu pai que já trabalhou como pedreiro, e que sempre priorizaram meus estudos. Eu sei quem são os pretos que construíram a base pra que hoje eu esteja aqui hoje.”

– Mirna Moreira do Complexo do Lins, Zona Norte

Nélio Fernando

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“O teatro é poderoso, por isso ele não está em todo lugar.

Vim para o Rio para continuar meu trabalho com arte, me envolvi com um grupo de teatro aqui da Cidade de Deus, e estou morando aqui há 10 anos. Quem vem de fora tem que conquistar a confiança de quem vive aqui. As pessoas daqui já foram muito exploradas, já estão ariscas, e a gente precisa mostrar que os projetos que a gente traz são sérios e têm continuidade. Nós chegamos com uma proposta, e a favela também tem a sua proposta. Certa vez um colega disse que ia trazer cultura pra esse lugar, e eu contestei, porque a favela tem cultura. A gente precisa é dialogar, trocar vivências e a partir dessa troca de vivências a gente descobre outras possibilidades de construção.

Aqui existe um trabalho interessante com o teatro, do grupo Os Arteiros, que já se tornou uma referência. Além disso, a Cidade de Deus tem uma diversidade artística incrível; tem o funk, o samba, a black music, os Mcs, o pessoal do passinho, e o rock também acontece aqui, o CDD Rock Baile, inclusive, já está em sua décima sétima edição, e eu me apresento como performer desse festival há 15 edições.”

– Nélio Fernando da Cidade de Deus, Zona Oeste

Cheyenne

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“As pessoas já chegam aqui perguntando: pô, o mecânico está aí?

Eu sofri muito preconceito por ser mulher e trabalhar com mecânica, hoje sofro menos, mas ainda sofro. É um ramo muito machista. Tem cliente que quando me vê pergunta: é você que vai fazer o conserto? tem certeza que você sabe fazer isso? Mas muita gente elogia também. Eu prefiro guardar os elogios.

Aprendi a consertar bicicleta com um tio, que também trabalhou a vida toda com isso. Meu conhecimento é todo baseado na prática, não fiz nenhum curso teórico. Já trabalhei em lojas de conserto de bicicleta no Leblon, Copacabana e Barra, e por fim resolvi montar a minha loja. Tem três anos que tenho ela aqui na Muzema.

Moro aqui com a minha companheira e nossa filha adotiva. Quem nos conhece sabe o carinho que temos por ela, era nosso sonho ter um filho. Sempre digo que se eu adotei é porque um casal dentro do padrão tido como ‘normal’ não quis mais a criança, né?”

Cheyenne de Muzema, Zona Oeste

João

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“Sou conhecido como João das Pipas. Eu vivo de pipa!

Vim pra Rocinha com dois anos de idade, do Ceará. Moro aqui há 58 anos, só. Eu vim do Ceará de Pau de arara, naquela época não tinha transporte, era só caminhão. Quando eu tinha uns dez anos de idade já trabalhava na banca de verduras, no Boiadeiro, parte baixa aqui do morro. Depois trabalhei em loja de móveis usados, e quando fiquei maior de idade trabalhei em restaurante, mas não gostei muito de ser cozinheiro. Virei farmacêutico! E trabalhei nessa profissão por trinta e poucos anos.

Depois de ficar um tempo desempregado comecei a fazer pipa em casa pra vender. Já tive lojinhas em várias partes da Rocinha. Sempre gostei muito de soltar pipa, mas no meu tempo a gente soltava pipa do chão e do telhado, não tinha laje ainda, era só barraco e dava para contar nos dedos os que tinham. Na infância já apanhei muito por causa de pipa. Meu pai me batia muito. Esse ano fazem dois anos que meu pai faleceu, e ele falava comigo que se arrependeu por ter me batido por causa disso. Hoje, quando eu passo na rua é todo mundo me gritando. Sou conhecido como João das Pipas. Eu vivo de pipa

João da Rocinha, Zona Oeste

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