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EDUCAP: Espaço Democrático e Abrangente do Alemão #RedeFavelaSustentável [PERFIL]

Perfil da Rede Favela Sustentável*

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Iniciativa: Espaço Democrático de União, Convivência, Aprendizagem e Prevenção (EDUCAP)
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Ano de Fundação: 2008
Comunidade: Complexo do Alemão
Missão: Contribuir com a promoção da cidadania para os moradores do complexo de favelas do Alemão e demais contextos populares, prestando acolhimentos às demandas sociais, estimulando a autonomia, a participação comunitária e desenvolvendo metodologias que possam cooperar com as políticas públicas nas áreas de educação, saúde, empregabilidade, lazer e direitos humanos.
Eventos públicosUma série de oportunidades educacionais para os moradores do Alemão de todas as idades. Frequentes oficinas de arte, debates e reuniões comunitárias.
Como Contribuir: EDUCAP solicita doações de alimentos, material escolar, papel, tinta spray e outros materiais para uso em programas de educação e arte. Também são bem vindas colaborações com organizações sociais locais e internacionais. Entre em contato com a equipe da EDUCAP pelo Facebook.

O Espaço Democrático de União, Convivência, Aprendizagem e Prevenção, conhecido como EDUCAP, é uma ONG comunitária localizada no Complexo do Alemão na Zona Norte do Rio de Janeiro. A educadora e organizadora, nascida e criada no Alemão, Lúcia Cabral, fundou a organização em 2008 para adotar uma gama de projetos com foco na saúde e educação dos moradores da favela. Nove anos depois, o EDUCAP ocupa uma colorida sede feita de contêineres empilhados na rua Canitar, construído em parceria com a Embaixada Britânica e inaugurada pelo Príncipe Harry. Lúcia tornou o EDUCAP um espaço de aprendizagem, eventos comunitários e parcerias produtivas com outras ONGs e projetos comunitários.

Lúcia se iniciou na educação quando criança. Em 1967, com seis meses de idade, sua família se mudou para o Alemão vindo da Paraíba, seguindo uma onda de migração do Nordeste para centros industriais como o Rio no Sudeste. A maior parte do crescimento do complexo de favelas se deu durante as décadas de 1960 e 1970, conforme as famílias se estabeleceram nos arredores de seus empregos industriais. Em 2012, o complexo era composto de 15 comunidades com uma combinação populacional de 70.000 pessoas, tornando-o uma das maiores favelas do Rio.

Lúcia conta: “Com doze anos eu resolvi que eu tinha que ser professora, mas era porque meu pai também amava o profissão. Professora para ele era uma deusa… Eu queria alfabetizar os adultos que chegavam do Nordeste e queriam escrever para os familiares [na cidade natal]. Aí, eu ia e escrevia as cartas, e eles mandaram”. 

Como a maioria das favelas, o Alemão tem sido historicamente desatendido e negligenciado pela prefeitura. Operações policiais violentas contra traficantes de drogas e uma relação tensa com as UPPs instaladas em 2012 frequentemente fecham escolas e impedem os moradores de sair de casa. O Alemão também carece de instituições educacionais de qualidade para sua população. Em 2014, 72% dos alunos de escolas públicas de ensino médio estavam dois ou mais anos atrasados em seus estudos, e 22% abandonaram a escola totalmente.

Observando essa realidade, Lúcia se envolveu em muitos esforços para proporcionar educação às comunidades do Alemão. Ela começou usando sua casa como uma pequena escola em 1986. Em muitos momentos dos anos que se seguiram, ela trabalhou com o projeto de alfabetização do Serviço Social da Indústria (SESI), participou de projetos administrados pelo Centro de Promoção da Saúde (CEDAPS) relacionados à saúde sexual e reprodutiva, e gerenciou uma pequena escola. Lúcia também lutou pelos direitos humanos dos moradores do Alemão, trabalhando com a Anistia Internacional para expor as violações que ocorreram durante a operação policial de 2007 que matou 19 pessoas na favela.

Morar no Alemão teve um impacto em Lúcia. “Esse lugar aqui te faz fazer parte dos movimentos: movimentos sociais por saneamento básico, por melhor moradia, por direito à educação e saúde. E eu fui crescendo nesse meio, das associações de moradores, dos movimentos sociais da favela. E aí se tornou um pacote, uma militância. E daí eu não parei mais”, ela disse. Lúcia é membro de uma vibrante sociedade civil no Alemão que inclui jornalistas cidadãos, historiadores sociais e artistas.

Em 2007, Lúcia uniu um grupo de jovens trabalhando em diversos projetos de saúde pública e ganhou uma subvensão para fundar o EDUCAP. Quando os fundos acabaram, a organização deixou seu local inicial em 2009. Foi então possível que ocupasse sua localização atual no Campo do Sargento. Lá, uma equipe de seis pessoas deu aulas em um barraco de madeira para grandes quantidades de crianças. Graças ao trabalho incansável do grupo, o EDUCAP se registrou como ONG em 2011, e a proposta de Lúcia para o programa da Embaixada Britânica resultou na construção de sua atual instalação em 2012, com três salas de aula, escritórios, uma cozinha e um espaço ao ar livre.

Uma tarde na EDUCAP acorre uma agitada enxurrada de atividades. Lúcia critica os programas sociais com seus escopos limitados que excluem moradores. “O EDUCAP é um espaço aberto, um espaço de convivência… A gente já vive num lugar tão violado, então é muito triste ver que alguém precisa de um espaço e está limitado. Eu sei que na minha adolescência aqui no morro, eu sempre quis estar num espaço assim e não tinha… A primeira turma de ensino médio deu quase 40 alunos, não cabia na sala, mas eles queriam tanto estudar. A gente colocou cadeiras… Eu costumo trabalhar assim, eu não gosto de dizer não”.

O EDUCAP no momento sedia diversos programas educacionais. Três dias por semana, voluntários da ONG Comunidade em Ação estão no centro dando aulas de inglês e computação gratuitas para grupos de alunos de diferentes idades. A Rede Winner se juntou ao EDUCAP para oferecer cursos supletivos, que permitem que aqueles que abandonaram o ensino médio tenham uma chance de conseguirem seus diplomas através de uma série de exames. Alunos pagam uma taxa mínima por essas aulas, e uma parte é retornada ao EDUCAP para cobrir material escolar e gastos do local.

Lúcia contou a história de uma moradora do Alemão que recentemente completou a formação do ensino médio com esse programa. “Ela já concluiu, já vai pegar o certificado dela… Ela não tinha esperança de voltar para escola. Isso é gratificante porque você consegue realizar o sonho de uma pessoa. E ela agora vai fazer faculdade de pedagogia. Ela quer se formar, ela gostou de voltar para sala de aula. Essas coisas são sustentáveis”.

O EDUCAP usa o espaço de sua sala de aula para outras parcerias que ensinam habilidades específicas. Vai Na Web oferece cursos de programação grátis para jovens do Alemão com o objetivo de usar tecnologia digital como uma força democratizante. Graduandos do programa podem avançar a níveis mais altos e encontrar emprego nas áreas de design de aplicativos e codificação. Lúcia conheceu os líderes da iniciativa em uma oficina de comunicação não violenta. Ela construiu muitas das parcerias da EDUCAP dessa maneira.

“Não tem mistério. Eu participo sempre de atividades, de encontros, de reuniões. A rede acontece por que eu estou nos espaços onde tem muita gente, onde têm grupos que estão discutindo sobre o mesmo tema, com os mesmos objetivos. E aí acaba que essa rede vai crescendo”. Dado o tempo que ela já passou trabalhando no Alemão e a visibilidade que o EDUCAP atingiu, a organização é capaz de se auto sustentar através de doações e parcerias, mantendo muitos de sua programação de graça ou com baixo custo.

Os projetos citados aqui são só um pouco do enorme engajamento de Lúcia. O EDUCAP se uniu com a ONG internacional Love.Fútbol para melhorar seus campos de futebol e agora sedia treinos semanais para moradores mais jovens do Alemão. Atualmente, eles garantiram um recurso para trazer artistas grafiteiros locais para o espaço e ensinar sua arte enquanto trabalham para pintar uma parede na sede.

O EDUCAP também funciona como uma incubadora para iniciativas comunitárias incipientes, como a Maternidade Consciente, um projeto iniciado pela assistente social Camila Habdallah para promover o parto natural e educar doulas, companheiras não médicas que assistem uma mulher durante o trabalho de parto. No Brasil, 85% de todos os partos são por cesarianas, embora a recomendação da Organização Mundial da Saúde é de que esse número seja 15%, só em casos de necessidade. A parceria de Camila com o EDUCAP tem como objetivo reduzir a violência obstétrica promovendo a união das mães do Alemão através da educação.

O EDUCAP conta com uma equipe de 20 pessoas para gerenciar suas operações regulares, com Lúcia como presidente. Dentre esse grupo há estagiários, como Tamyres Alves, que estuda Serviço Social na Universidade Veiga de Almeida. Ela explica que a EDUCAP fornece apoio diário aos moradores do Alemão de diversas maneiras. Isso inclui imprimir e revisar documentos, fornecer ligações à outros serviços sociais, e facilitar suas metas educacionais. “Nas condições em que o Brasil vive hoje, da crise, do desemprego, já é difícil [encontrar trabalho] com estudo. Sem estudo fica mais difícil ainda. Então, essas pessoas estão aqui batalhando para conseguir”, disse Tamyres.

Lúcia falou da verdadeira luta financeira para manter tantos programas e serviços. “É legal ser voluntário, mas como você pode ser voluntário se você não consegue pagar a sua passagem? Como você vai ser voluntário se você não tem dinheiro para comprar uma água quando você está na rua com sede? Ou para se alimentar no lugar que você vai trabalhar? É nessas horas que você põe a mão na cabeça e pensa: voluntariar, trabalhar sem dinheiro, como você vai se manter na época que a gente vive hoje?”

Ela compreende sustentabilidade como a habilidade de manter os projetos sociais que começou. “Para ser sustentável, você tem que ter um equilíbrio, tem que ter um capital que vai girar em torno do que você quer fazer”, ela afirma. O EDUCAP claramente valoriza seu capital humano. Ela prospera como um espaço de força de vontade combinada com reciprocidade. Durante a visita do RioOnWatch, suas três salas de aula estavam cheias de alunos, e a equipe do EDUCAP não deixou de atender as necessidades dos moradores, distribuindo canetas e até ajudando uma família a conseguir a passagem de ônibus para levar um familiar doente para o hospital.

“A gente acaba conseguindo se sustentar com o desejo, a vontade, o amor, o acolhimento e todo desejo que a gente tem de continuar a receber as pessoas”, disse Lúcia. Ela reflete: “Quando eu comecei, eu nunca imaginei ter um espaço como esse. Imaginava tudo, menos ter um espaço assim e poder atender o tanto da gente que a gente atende aqui”. Por esse motivo, ela sabe que o EDUCAP vai continuar a alcançar e ultrapassar seus sonhos, como um marco de sucesso em serviços e educação na favela no Alemão e no Rio como um todo.

*EDUCAP é um dos mais de 100 projetos comunitários mapeados pela Comunidades Catalisadoras (ComCat)–a organização que publica o RioOnWatch–como parte do nosso programa paralelo ‘Rede Favela Sustentável‘ lançado em 2017 para reconhecer, apoiar, fortalecer e expandir as qualidades sustentáveis e movimentos comunitários inerentes às favelas do Rio de Janeiro. Siga a Rede Favela Sustentável no Facebook.