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Alex Belchior e Seu Trabalho de Documentação da Memória da Vila Kennedy [ENTREVISTA]

Indicado para o Prêmio Faz Diferença na categoria RIO do Jornal O Globo, Alex Belchior é morador da Vila Kennedy, na Zona Oeste, e atualmente trabalha como guia de turismo e pesquisador para o Museu da Pelada. Sua curiosidade incessante e talento para a pesquisa histórica permitiram que ele traçasse graus de parentesco ao ex-presidente João Goulart e ao cantor Belchior, mas ele é mais conhecido na comunidade por seu trabalho à frente do Portal da Vila Kennedy e como historiador informal da comunidade. O RioOnWatch entrevistou Alex para mergulhar mais fundo na história da comunidade e descobrir, a partir dessa história, suas perspectivas para o futuro.

RioOnWatch: Quando você chegou na Vila Kennedy?

Alex: Eu moro na comunidade desde 1973, quando nasci. Passei 9 anos fora, mas voltei para cá.

RioOnWatch: Como começou seu trabalho de documentação?

Alex: Eu faço um trabalho de história e documentação da comunidade. Comecei a pesquisa histórica pelos monumentos. Quando eu voltei para o Rio, fiz um curso de guia de turismo e escolhi a Estátua da Liberdade da Vila Kennedy como tema do meu trabalho final. Aí acabou que monumentos viraram uma paixão. Eu criei uma ficha técnica de cada obra de arte espalhada pelo Rio de Janeiro. Eu fui a pé a 66 bairros. Foi a coisa mais gostosa que fiz na minha vida.

A partir dessas andanças, eu montei um material com imagens de satélite do Instituto Pereira Passos (IPP) de todas as comunidades e um pequeno histórico escrito pelos moradores. Em 2007 eu criei o VilaKennedy.com, primeiro portal da Vila Kennedy. Agora estou pensando em transformar o site num centro de memória da Vila Kennedy.

RioOnWatch: Trata-se do Fala Vila Kennedy?

Alex: Não, o Fala Vila Kennedy nasceu em 2013 e é exclusivo de matérias da VK, todas escritas por mim. Eu fiz o 1° Curso de Jornalismo Comunitário pela Agência de Notícias de Favelas (ANF) e aí eu fui ensinando os outros e apareceram outras páginas nas redes sociais. A ideia era fomentar um jornalismo local, com edições impressas.

RioOnWatch: E como esse jornalismo local se relaciona com a mídia hegemônica?

Alex: Os jornais de grande circulação servem de fonte para essa pesquisa histórica e documentação, pois por muito tempo foram os únicos que existiram. Em 2013 eu comecei a pesquisar o acervo do Jornal O Globo sobre a Vila Kennedy. Também pesquisei o Jornal do Brasil e do Extra. Só no O Globo devem ter mais de 400 publicações falando da Vila Kennedy, desde a história até a violência e a luta dos moradores. Tinha mais atenção da mídia no início, porque em 1964 a comunidade era a menina dos olhos do governador.

RioOnWatch: Por que ela era a menina dos olhos do governador?

Alex: Porque a Vila Kennedy surgiu como um produto do Estado em 1964, como uma ideia do próprio Carlos Lacerda. As terras já foram do INCRA, já foram da fábrica de tecidos Bangu, já foram fazendas. Aí surge um conjunto habitacional de aproximadamente 5.000 casas, todas iguais–que, aliás, mostrava o descaso do governo, pois até as fechaduras eram iguais e uma chave abria todas as outras. A Vila Aliança¹ nasce em 1963, a Vila Kennedy em 1964 como Vila Esperança. Aí [o presidente americano] Kennedy morre e Carlos Lacerda decide homenagear o ex-presidente. Foi um projeto muito divulgado, que muitos chefes de Estado quando vinham ao Brasil queriam conhecer.

O primeiro chefe de Estado a visitar foi o presidente do Senegal. E ele ficou fascinado que as ruas da comunidade tinham nomes de países africanos. Mas não tinha do Senegal, então o Lacerda mandou trocar a Rua Burundi por Senegal. Eu por exemplo moro na Rua Zâmbia. O Rei da Bélgica também esteve aqui em 1965. Uma senhora começou a cantar o hino da Bélgica em francês na ocasião, porque tinha sido criada numa casa de família de um diplomata belga.

RioOnWatch: A Estátua da Liberdade que fica na entrada da comunidade tem a ver com essas visitas?

Alex: Ela veio da França, Dom Pedro II visitou o escultor na época. O livro que ela carrega no braço dela não reflete a independência nem da França nem dos Estados Unidos, mas da proclamação da república do Brasil. Ela então foi trazida de fora pelo Barão do Rio Branco, então ministro das Relações Exteriores, para a residência de um parente dele na Urca. Carlos Lacerda morava na Urca e, na ocasião da morte do Kennedy, lembra-se da estátua e emite um decreto para torna-la patrimônio público e trazê-la para a comunidade para homenageá-lo. Desde então ela já faz parte do imaginário e do cotidiano da população.

RioOnWatch: Como se dá essa participação no imaginário e no cotidiano da população?

Alex: A estátua ficou anos com o braço quebrado. A restauração era uma luta antiga minha. Mas quando a prefeitura tira a estátua para fazer a restauração e não avisa nada, isso mexe muito com o imaginário da população–“roubaram a estátua?!” A praça onde fica a estátua foi gradeada em 2003 para evitar que ela fosse vandalizada. Logo depois do restauro eu criei um projeto para que a praça fosse um espaço de cultura.

RioOnWatch: E deu certo?

Alex: Eu levei o projeto Mais Leitura para lá. A Vila Kennedy foi a comunidade pacificada na qual se vendeu mais livros. Uma vez por mês também tinha lá a batalha da liberdade, uma batalha de hip-hop, passinho, capoeira. Na década de 1980 e 1990 a praça foi palco de sarau de poesia, roda de violão.

RioOnWatch: E hoje? Como é a vida cultural?

Alex: Isso tudo foi se perdendo com o tempo, as pessoas não usam mais o espaço devido às grades e às barracas que ficam em volta. Além disso, temos um teatro, mas que se encontra abandonado pelo Estado. Centro Vocacional Tecnológico fechado, Vila Olímpica fechada, Casa da Ciência fechada. Iam construir uma Nave do Conhecimento na praça da estátua, mas o vice prefeito da época era da Vila Aliança e levaram o projeto pra lá. Sem cultura, o território fica muito pobre, mais inseguro. Recuperar isso requer muitos recursos.

RioOnWatch: E esse centro de memória poderia ocupar esse vácuo? Como que você imagina que ele seria?

Alex: Quero construir um centro de memória não só da Vila Kennedy, mas falando de todas as comunidades, porque não existe um. O IPP tem uma boa documentação, mas não tem o histórico completo. Quero documentar histórias de personagens emblemáticos como o Conde Belamorte, que só se vestia de preto. Diziam que ele era afilhado do diabo. Ele tinha uma barbearia, mas era também poeta e escritor. Eu ia cortar cabelo lá quando era criança, mas morria de medo. Diziam que ele dormia em um caixão–e era verdade. Quero documentar os seus poemas também.

Quero um espaço online, mas também físico, no qual os próprios moradores tragam objetos para ficarem lá registrados eternamente. Seria uma referencia à memória para toda a comunidade. É importante pro morador atual perceber que todos os benefícios que tem são resultado de uma luta mais antiga de outros moradores. As pessoas que saem da comunidade têm que querer voltar por gratidão. Garrincha tinha parentes na Vila Kennedy, Jurandir da Mangueira era da Vila Kennedy, o coreógrafo da Madonna na década de 1980, o Toni Garrido, o André Ramiro, que fez o Mathias no Tropa de Elite. Nenhum deles voltou, faltou gratidão.

É um trabalho difícil, pois leva tempo. E aí quando a coisa está decolando, acaba o projeto, acaba o apoio.

RioOnWatch: Além da cultura, o que mais falta na comunidade em termos de políticas públicas?

Alex: Tudo, né? Iluminação, tratamento de esgoto, segurança, educação, saúde. A depressão está aumentando, a loucura, as pessoas estão ficando doentes. Tem a UPA, que abre e fecha toda hora. Mas não tem acompanhamento psicológico. Na Zona Oeste, quem tem problema psiquiátrico está morrendo.

Tem também a questão do emprego. Vila Kennedy nasceu para moradias, mas nunca teve emprego aqui. Tinha uma padaria comunitária que empregava 16 padeiros do bairro, mas fechou. O último grande investimento para geração de renda na comunidade foi uma fábrica têxtil na época do Brizola. Eram 150 mulheres costurando os uniformes dos garis da Comlurb. Hoje o comércio é fraco. A Vila Kennedy precisava de apoio institucional e de voluntários que capacitem os moradores para desenvolver o comércio local. Já perdemos toda uma geração de jovens para o tráfico.

RioOnWatch: Qual desses é o maior desafio?

Alex: Acho que o principal desafio hoje é a urbanização. Não tem saneamento adequado. Em 2010 houve uma grande obra, que beneficiou só parte da comunidade. E assim a estação de tratamento de esgoto não trata o esgoto. Todos os canos são canalizados até ela, mas de lá o esgoto é jogado direto no rio sem tratamento. Até o falecido Favela-Bairro está voltando, mas imagino que serão priorizadas as áreas [de interesse] do Índio da Costa. Eles não querem implementar melhorias aqui, porque aí os vereadores vão perder os votos nas próximas eleições, não tendo o que prometer. Ou quando fazem algo, querem colocar na conta deles. Eu estava reivindicando um sistema de iluminação novo para as ruas, mas já tinha vereador querendo colocar o nome no meio.

RioOnWatch: E a comunidade se organiza para fazer algo em relação a isso?

Alex: Mais ou menos. Hoje tem muitos mais canais de cobrança, mas muito menos interesse em cobrar. Hoje a gente tem a rede social para denunciar! Falta organizar a sociedade civil, que não consegue se unir em um projeto comum, pois cada um está fazendo o seu trabalho para tentar sobreviver. Temos que fazer como o Betinho fez. Por exemplo, em 2014 eu comecei a pesquisar sobre a situação das linhas de ônibus na comunidade–os ônibus não costumam entrar na comunidade, fazem ponto final perto da praça da estátua, uma ou outra linha entra; não tinha ônibus nem para Bangu, que é do lado. Fiz com que as pessoas se mobilizassem para ligar para ouvidoria, coisa que quase ninguém faz. Consegui que 60 dessas pessoas escrevessem seus relatos das dificuldades com as linhas de ônibus e mandei esses relatos para o prefeito na forma de um dossiê.

RioOnWatch: Essa mobilização funcionou?

Alex: Olha, demoraram dois anos para me responder, mas ganhei o respeito deles. Teve vereador me chamando para trabalhar com ele, dizendo pros outros me ouvirem, mas eu tô fora. Até uma linha de ônibus falecida há dois anos voltou a funcionar. Agora têm ônibus para todos os lugares, conectando com o BRT.

RioOnWatch: Você acha que alguma coisa vai mudar agora que a Vila Kennedy passou a ser considerada um bairro?

Alex: Foi apenas uma manobra para desvincular Bangu dos índices de criminalidade da Vila Kennedy. Como fazem um projeto de lei desses sem participação popular? Ninguém pediu isso. O autor do projeto de lei nunca pisou na Vila Kennedy. Criou-se o bairro, mas não se criou uma região administrativa. Não se criou uma sub-gerência específica da Comlurb para o local. O povo teme que tenha sido um golpe para que eles possam começar a cobrar IPTU.

RioOnWatch: Para você, qual é a maior potência da Vila Kennedy?

Alex: O morador da Vila Kennedy é alegre em qualquer circunstância. Sempre gostou de música, de festa, cada um fazendo uma festinha na sua porta. É muito solidário quando alguém precisa de ajuda. Só precisa que alguém lidere. Se alguém virar e falar “vamos arrecadar bombom para a festa de dias das crianças da favela do Quiabo”, eles dão. E cada morador tem o grande sonho de que essa realidade mude. O primeiro passo é ouvir o morador. E quando você começa a ouvir as pessoas, elas começam a querer participar também. No meu caminho para cá eu já conversei com três pessoas. “Você lembra da antiga rádio patrulha?”, “Lembro, era aqui na Vila Kennedy”, e por aí vai.

RioOnWatch: E como você vê o futuro da comunidade?

Alex: Eu acredito que um trabalho nas escolas, que conte a história do território, que realize atividades culturais, melhoraria muito os índices de violência. Eu não acredito na abordagem atual, com a presença dos militares nas ruas. Todos querem soluções imediatas, mas não querem participar. O futuro da Vila Kennedy passa pelo diálogo, pela identificação de personagens que estão fazendo acontecer e não têm visibilidade. Eu e outros já têm feito isso por meio da mídia comunitária.

[1] A “Aliança” fazia alusão à Aliança para o Progresso, programa de cooperação entre Estados Unidos e Brasil que financiou a sua construção, como parte da política de boa vizinhança americana no contexto da Guerra Fria, para assegurar a América Latina como área de influência americana.