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O Espaço Público É Para O Afeto

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Esta matéria é a primeira de uma série de três que exploram a arquitetura dos bons espaços públicos, as métricas intangíveis que dão ao espaço público um senso de lugar, com base em entrevistas, em vídeo, com Fred Kent. Este primeiro artigo desta série explora o afeto no espaço público. Leia a matéria original em inglês no site Projeto por Espaços Públicos (PPS) aqui. O RioOnWatch traduz matérias do inglês para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar temas ou análises cobertos fora do país que nem sempre são cobertos no Brasil.

Um espaço público pode ser funcional, cheio e altamente Instagrameável, e ainda não significar nada para as pessoas que o utilizam. Um senso de pertencimento só surge em um espaço público quando muitas pessoas atribuem significado a este espaço ao longo do tempo.

No momento, nenhuma quantidade de coleta de dados quantitativos pode capturar como esse placemaking (criação de lugares) ocorre. A atribuição de significado e de apego ao espaço é lenta, internalizada e dispersa, acumulando-se através de incontáveis ​​pequenos momentos de afeição, surpresa e simbolismo que são melhor captados através da observação pessoal direta. Esses momentos requerem interpretação–através de sinais como expressões faciais, linguagem corporal, proximidade e tom de voz–em que os neurotípicos humanos se sobressaem.

Fred Kent, o fundador da PPS, passou sua vida aprimorando esse tipo de observação como forma de arte, analisando as qualidades que dão origem a esses momentos significativos e, por sua vez, um senso de pertencimento ao lugar. No vídeo, abaixo desta matéria, ele compartilha suas ideias sobre uma fonte crucial de significado–o afeto–incluindo porque ele é importante, o que se deve procurar e como fazê-lo acontecer. Leia sobre os cinco pontos chaves a serem buscados para avaliar o afeto no espaço público.

MEDINDO A MAGIA: AFEIÇÃO

Locais exalam uma espécie de magnetismo, um atrativo que aproxima as pessoas–namorados ou desconhecidos. Seja compartilhando um beijo ou simplesmente compartilhando um banco, existem infinitos exemplos de proximidade e afeto, todos gerados por bons espaços públicos.

Esse afeto não é apenas uma cereja no topo do bolo; é uma necessidade humana básica. “É uma grande ideia, o afeto”, observa Fred Kent, fundador da PPS, “porque está em todo lugar. Toda comunidade, toda cultura, todo ser humano tem necessidade de afeto, de se envolver com as pessoas, de se conectar com elas”. Como nosso recente relatório Healthy Places (Lugares Saudáveis) revela, o apoio social e a interação proporcionam benefícios importantes para o bem-estar mental e sensação de segurança. Enquanto isso, o isolamento social contribui para a depressão, para o estresse e também pode prejudicar a resiliência de uma comunidade diante de desastres.

‍Em 1974, a New York Magazine apresentou estudos, em andamento, de Whyte sobre o espaço público, com uma capa celebrando as interações sociais cotidianas: “Beijar está em alta nas ruas de Nova York”.

Mas o afeto depende de um profundo sentimento de conforto. As pessoas devem sentir-se fisicamente e mentalmente à vontade antes de se abrirem para mostrar sinais de amor e amizade. Espaços estéreis e hostis refletirão nos comportamentos das pessoas que usam o espaço. Fred observa que, quando um espaço é agradável e relaxante, “as pessoas têm orgulho de estar com alguém e orgulham-se de amar alguém e de compartilhar esse amor de uma maneira que contagie a todos”. Em outras palavras, como William H. Whyte observou em seu Street Life Project (Projeto Vida da Rua) em 1974, no qual Fred Kent estava envolvido, beijar, sorrir, tocar e manter contato visual estão entre os melhores sinais, que uma pessoa pode dar, de que um espaço público é confortável e apreciado. As pessoas demonstram seu afeto por um espaço público em seu afeto um pelo outro.

É importante, entretanto, pontuar que afeto é mais do que apenas beijar. Como Fred observa, “é uma coisa casual”. Há uma ampla gama de comportamentos afetuosos que se pode observar em espaços públicos que vão do sutil ao flagrante, da intimidade à cortesia:

Beira Mar, Tel Aviv, Israel

1. Demonstrações Públicas de Afeto

As formas mais óbvias de tal comportamento são “demonstrações públicas de afeto” (DPA), como beijar, abraçar, dar as mãos, um braço em volta do ombro ou uma selfie. Contraintuitivamente, como William H. Whyte observou, elas são encontradas nas partes mais visíveis de um espaço público, não nos cantos mais escuros.

Columbus Circle, Cidade de Nova Iorque, NY, EUA

2. Compartilhar

Seja um milkshake ou um aperto de mão, o compartilhamento e a reciprocidade são sinais de intimidade e confiança. O compartilhamento não apenas exige que uma das partes renuncie a um certo controle sobre algo que possui, mas o ato de compartilhar geralmente requer comportamentos que variam de três a cinco: toque, proximidade, contato visual e, esperançosamente, um sorriso.

Jackson Square, Nova Orleãs, LA, EUA

3. Toque

Além de apenas DPA, um toque educado no ombro, um beijo na bochecha (ou dois ou três), ou até mesmo um toque entre cotovelos, representam formas suaves de comportamento afetivo, especialmente entre conhecidos.

Fonte Charles Buls, Bruxelas, Bélgica

4. Proximidade

O quão perto as pessoas se sentam pode ser uma boa indicação da relação afetuosa que compartilham entre si, bem como do nível de “conforto social” entre estranhos em um espaço público. Surpreendentemente, à medida que mais pessoas se aglomeram em um espaço, a tolerância das pessoas à proximidade pode aumentar a ponto de os estranhos se sentarem tão próximos uns dos outros enquanto membros de uma família podem estar em um espaço menos ocupado.

Battery Park City Promenade, Nova Iorque, NY, EUA

5. Sorriso e contato visual

Embora as convenções sejam diferentes de cultura para cultura, variações de um sorriso indicam felicidade para todo o mundo. Mas quando duas pessoas retribuem um sorriso ou uma risada, isso também é um sinal de sociabilidade. Da mesma forma, simplesmente olhar alguém nos olhos, em vez de evitar o olhar, é um ato de confiança, respeito e afeto.

Embora essas várias formas de carinho sejam sinceras, elas também são uma espécie de performance. Casais, famílias e amigos se comportam de maneira diferente em público e no privado, e muitas vezes seu comportamento afetivo se torna mais evidente, não menos.

E esse grande show é frequentemente o que atrai as pessoas para um espaço público, seja para assistir ou para ser observado. Afeto atrai e contribui para a riqueza da vida pública. É a matéria prima para memórias, atribuição de significado e um forte senso de pertencimento. Assim, nas ótimas palavras de Lewis Mumford, vamos “esquecer o maldito automóvel e construir as cidades para namorados e amigos”.

Em inglês, o vídeo que acompanha a série original:


Série Completa: Arquitetura dos Bons Espaços Públicos

Parte 1: O Espaço Público É Para O Afeto
Parte 2: Entre em Sua Zona de Conforto: Cinco Indicadores de Conforto em Espaços Públicos
Parte 3: Torne-o Seu: Improvisação no Espaço Público