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“Excelentes Lugares Bons”: A Natureza do Espaço Público nas Favelas

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No denso ambiente construído das favelas, a prioridade espacial é dada à habitação. Espaços públicos, então, desenvolvem-se informalmente nos lugares que sobram na paisagem urbana. Vias públicas e escadarias são adotadas como lugares para conhecer pessoas, conversar e passar o tempo. Além disso, o domínio privado muitas vezes se estende para a esfera pública, resultando em espaços sociais que incluem lajes, terraços, e portas de residências que fornecem essas mesmas funções. Estes espaços são o “Terceiro Lugar” dos moradores, “excelentes lugares bons” aonde todos sabem seu nome e aonde as pessoas regularmente se encontram. Ele existe além do principal local de residência e do local secundário de trabalho, oferecendo um conjunto alternativo de relacionamentos e interações em um ambiente familiar.

O ato de “construir lugares” considera um espaço público o coração de uma comunidade. Alimentado por um sentimento de orgulho, reforça a conexão entre as pessoas e os lugares coletivos que compartilham dentro de uma vizinhança, demonstrado na infinidade de maneiras na qual os espaços são utilizados, apreciados e mantidos. Por extensão, a construção de uma comunidade emerge ao lado desse movimento, aumentando a solidariedade dos moradores e solidificando o valor e a necessidade destes espaços. A intimidade social entre os moradores das favelas e das relações formadas devido à proximidade física e circunstâncias são, de certa forma, inigualáveis.

Nas favelas que eu visitei, bem tarde da noite os adultos desfrutavam de comidas e bebidas nas dezenas de pequenos bares que margeiam as ruas, enquanto as crianças corriam e brincavam nas ruas. O desenvolvimento do uso misto que existe no interior das comunidades, combinando estabelecimentos residenciais e comerciais locais em torno de corredores tradicionalmente de pedestres, promovem esses encontros espontâneos. Durante o dia, os adolescentes jogam partidas de futebol, espontaneamente, nos trechos mais largos da rua, enquanto outros jogam jogos dentro e fora das entradas das casas e ao longo das escadas. No Complexo do Alemão, alguns adolescentes jogam até vídeo game em torno de um aparelho de televisão ao ar livre.

Apesar de importantes em suas características individuais e únicas, e ao tornar possível a convivência da vizinhança que existe dentro dessas comunidades, espaços públicos informais são limitados no que diz respeito a outras oportunidades que poderiam proporcionar. Muito poucas destas áreas fornecem espaços de escala para atividades esportivas, educacionais, e outras atividades. Além disso, áreas amplas o suficiente para grandes encontros públicos são escassas. Quando elas existem, sua importância pode acabar sendo sobreposta pelo carro, muitas vezes funcionando como estacionamentos.

Assim, espaços públicos formalmente designados também são necessários nas favelas, pois fornecem aos moradores uma vasta gama de benefícios associados com o conceito de Direito à Cidade. Espaços públicos fechados, tais como bibliotecas e centros comunitários, podem assumir papéis cívicos importantes agindo além de seus paradigmas tradicionais como centros de informação e conhecimento. São espaços em que jovens e adultos podem interagir, ganhar novas habilidades e desenvolver diversos passatempos. Espaços públicos ao ar livre, principalmente locais com equipamentos e serviços, estimulam a brincadeira, com a atividade física tendo um efeito positivo no seu desenvolvimento psicossocial. Locais para encontros públicos, como praças e parques, oferecem o espaço ideal para um mercado ao ar livre, ajudando fornecedores locais a florescer. Eles também atuam como um local adequado para a mobilização de uma comunidade em pé de igualdade, o que pode levar, entre outras coisas, a um diálogo aberto. Espaços que possibilitam e estimulam reuniões e debates são trunfos inestimáveis dentro de uma comunidade.

Muitos dos espaços públicos formais iniciais em favelas vieram através do trabalho das associações de moradores, antes da década de 90. Formados no final de 1970, as associações exigiram direitos civis e aumentaram a conscientização política em suas comunidades. Elas ajudaram a convocar recursos públicos e contribuíram para a criação de espaços públicos formais. Na Maré, as associações de moradores foram responsáveis ​​pela criação de uma praça pública na densa paisagem construída. Nas duas últimas décadas, os espaços públicos formais foram mais associados aos programas de urbanização do governo Favela-Bairro da década de 90.

Embora em número limitado e frequência entre as comunidades, uma série de espaços públicos formais portanto tem sido construídos em favelas ao longo de décadas, que vão desde campos de futebol, áreas de lazer, e centros comunitários até bibliotecas e praças públicas, bem como o alargamento e a pavimentação das ruas. No entanto, a maneira como estes espaços são utilizados, por quem, e como eles são mantidos requer uma inspeção mais minuciosa. O que é originalmente delineado no papel é muito diferente do que é alcançado na prática, com espaços públicos muitas vezes sofrendo retrocessos na qualidade e eficácia, devido à falta de consulta pública. Apesar de muitos programas do governo insistirem na participação popular, como meio de entender o que os moradores realmente querem e precisam nesses espaços, o que é predominantemente construído no final vem de cima para baixo. Isso resulta em espaços formais públicos de má qualidade em favelas e espaços públicos informais de maior qualidade, medidos pelo experimentado conceito do “Poder do Dez“: qualquer espaço público de qualidade precisa oferecer pelo menos 10 coisas para se fazer ou 10 razões para se estar lá, com estas atividades acontecendo concorrentemente.

Assim, em favelas do Rio de Janeiro, reconhecer e preservar as qualidades que os moradores percebem em espaços públicos informais, durante o desenvolvimento de espaços públicos formais mais efetivos e de sucesso, é o caminho a ser seguido. Enquanto encontros espontâneos em espaços informais contribuem para a vitalidade de um bairro, as múltiplas formas na qual espaços públicos formais podem ser usados ​​são benéficas para o crescimento e fortalecimento da própria comunidade e são um aspecto importante do desenvolvimento de uma comunidade que merece atenção e investimento.