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Graças a Deus

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Reportagem de: Glenda Fernandes, Saulo Araújo, Hosana Souza, Josilaine Costa, Samuel Lima, Henrique Ribeiro e Amanda Souza.

Um dos aspectos mais saudáveis da jovem democracia brasileira é a ampla liberdade religiosa, que faz a maioria de nós estranhar as guerras santas que invadem os nossos aparelhos de televisão com cenas tão sangrentas. Mas quem mora nas favelas cariocas sabe que uma das maiores conquistas da chegada do estado é a possibilidade de se adorar seus deuses sem o risco de ter sua casa invadida por um dos bandidos ligados à boca de fumo, como aconteceu diversas vezes no morro da Formiga, favela na Zona Norte do Rio de Janeiro recentemente pacificada. É que desde que o Comando Vermelho assumiu os pontos de venda de drogas na comunidade, os terreiros de umbanda e candomblé haviam sido proibidos. Várias mortes aconteceram na comunidade, inclusive a de um presidente da associação de moradores cujo nome não revelamos a pedido de uma de suas filhas, que ainda não se sente segura o suficiente para falar abertamente sobre o sumiço de seu pai.

Um dos casos mais rumorosos de intolerância religiosa nas comunidades populares dominadas pelo tráfico de drogas é o da favela do Dendê, na Ilha do Governador, cujo chefe do tráfico terminou nas páginas da sofisticada revista New Yorker depois de se converter a uma seita neopentecostal e banir os terreiros de umbanda e candomblé da comunidade. O bandido da Ilha do Governador é um fiel frequentador de uma das muitas denominações das igrejas evangélicas espalhadas pelo Rio de Janeiro e é ligado ao Terceiro Comando Puro, mesma facção a que pertence Alberico de Azevedo Medeiros, o Derico, o dono da favela do Acari. A conversão do chefe do tráfico do Acari para a Assembléia de Deus dos Últimos Dias, do famoso Pastor Marcos, foi tão espetacular que se chegou ao ponto de se pensar que ele havia aberto mão do crime no período que passou preso na penitenciária Laércio da Costa Pellegrino, o presídio de segurança máxima popularmente conhecido como Bangu 1. Embora não se tenha notícia de que Derico tenha proibido cultos afro-descendentes na favela que controla há quase 15 anos, a dissertação de mestrado da socióloga Chris Vidal, chamada Ocupação evangélica, defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, no início da década passada, mostra o crescimento quase ao nível da onipresença das seitas neopentecostais no espaço da ocupação policial ocorrida em meados da década de 1990.

De acordo com moradores da Formiga, os bandidos ligados ao Comando Vermelho começaram a perseguir o povo-do-santo principalmente depois que uma senhora, revoltada com o desaparecimento do líder comunitário, jogou uma praga para que os responsáveis pela sua morte tivessem um destino semelhante, fosse em conflito com a polícia ou numa das constantes guerras de facção do morro. “E eles morreram”, comemora a filha do líder comunitário. Há ainda a hipótese de que os bandidos ligados ao Comando Vermelho estivessem evitando uma das típicas traições do tráfico de drogas, expulsando da favela as pessoas ligadas ao chefe deposto depois de uma guerra. Sabe-se que Claudinho, chefe deposto da Formiga ligado ao Terceiro Comando Puro, era devoto do candomblé. Mas o fato é que as poucas pessoas de santo que ficaram faziam trabalhos para seus santos às escondidas, evitando inclusive acender luzes e principalmente bater tambor nas noites de festas em homenagem aos orixás. Foram essas pessoas que puderam voltar para a Formiga tão logo a paz foi instaurada.

Não muito longe dali, a líder comunitária Cíntia Luna, presidente da associação dos moradores do Fogueteiro, em Santa Teresa, na região central da cidade, já percebeu alguns reflexos no campo da religião decorrente da pacificação da favela na qual nasceu, há 33 anos. “A capelinha voltou a ser limpa”, conta ela. A capelinha é um pequeno templo religioso na entrada do morro, no qual se podem ver as imagens de São Cosme e São Damião, dois santos da igreja católica que, como São Jorge, são cultuados nos terreiros de umbanda e candomblé. “Depois de um longo período de abandono, hoje essas imagens estão repletas de oferendas, como doces, refrigerantes e brinquedos”, conta a líder comunitária. Os bandidos do Fogueteiro tinham uma ligação tão forte com a igreja católica da localidade, que eram eles que pagavam para que o padre rezasse a missa semanal na igreja São José Operário., na qual eram presenças obrigatórias O esvaziamento da capelinha na entrada do morro foi a última etapa de um processo que começou com a retirada das imagens de orixás fortes como Maria Padilha e Exu Caveira, encontrados em quase todas as encruzilhadas da comunidade numa época em que as religiões afro-descendentes eram hegemônicas não apenas ali, mas em toda a periferia do Rio de Janeiro. “As novas gerações de bandidos achavam aqueles orixás do mau, ainda que eles também fossem perversos”, conta a líder comunitária.

Tridente do ADA

A intolerância não é uma marca de todas as comunidades dominadas pelo tráfico ou mesmo pela milícia, a mais nova modalidade de crime organizado do Rio de Janeiro. É o que se pode depreender do trabalho feito pela nossa equipe de reportagem em comunidades populares como Cesarão, Vila Vintém, Cantagalo, Vila Aliança, São Gonçalo, Morro do Fogueteiro e Comendador Soares, em Nova Iguaçu. Vê-se que, como nas demais localidades populares da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, tanto a igreja católica quanto os terreiros perderam terreno para as diversas seitas evangélicas. Mas não é à toa que o símbolo do ADA (Amigos dos Amigos), facção criminosa que controla a Vila Vintém, é um tridente. O tridente é o símbolo do Exu Caveira, do qual Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém, é tão devoto quanto o foram Ernaldo Pinto Medeiros, o Uê, e José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, ambos mortos na guerra do tráfico carioca. Fundadores da facção na virada do século, eles demarcavam a área que dominavam com o tridente. Talvez seguindo a generosa tradição das religiões afro-descendentes, os traficantes do ADA não perseguiram os pastores ou padres que atuavam em suas comunidades.

Embora seja exagero afirmar que todos os bandidos ligados à facção Amigos dos Amigos cultuem os orixás afro-descendentes, a Serrinha, em Madureira, é mais um exemplo em que os traficantes não apenas toleram, mas são devotos de imagens ligadas aos terreiros de candomblé. Esse é o caso do gerente do tráfico da Serrinha. É tão grande sua paixão por São Jorge que o bandido patrocina a feijoada servida depois da carreata promovida pela escola de samba Império Serrano no dia 23 de abril, dia do chamado Santo Guerreiro, dando início a uma festa que invade a madrugada com muito pagode e funk. A paixão do gerente da boca pelo santo que as religiões negras associam ao orixá Ogum pode derivar do fato de ele ter nascido no dia em que o Rio de Janeiro para para reverenciar São Jorge, mas esse não é o caso dos comparsas que o acompanham nos rituais praticados na capela que ele mandou construir. “A malandragem daqui é quase toda ela devota do Santo Guerreiro”, conta o traficante, que se identifica com São Jorge por jamais ter perdido uma batalha. A Serrinha é uma das últimas comunidades faveladas do Rio de Janeiro em que os chamados espíritas ainda são maioria no Rio de Janeiro.

Ainda não há registro de perseguição religiosa nas áreas dominadas pelas milícias, ainda que se saiba que alguns dos seus chefes também aderiram à onda evangélica. Esse é o caso do Cesarão, que fica no bairro de Santa Cruz, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, que, segundo o evangélico Marinaldo dos Santos Junior, “é uma comunidade ecumênica até de mais”. A manicura Ana Maria Paes, adepta do umbandismo, confirma o relato do evangélico, dizendo que nos 27 anos em que vive no maior conjunto habitacional da América Latina, com suas 7 mil casas, jamais sofreu qualquer tipo de constrangimento religioso. A comerciante Maria das Graças Sales, que fez a cabeça há mais de 23 anos, já enfrentou situações desagradáveis no conjunto residencial Ouro Preto, em Nova Iguaçu, mas estaria sendo injusta se atribuísse os conflitos com os vizinhos por causa de Juracy Alves Prudêncio, o Jura, sargento da Polícia Militar que mesmo estando preso há dois anos controla a milícia da localidade. “Meu maior problema é com os vizinhos”, conta ela, para quem o povo do chamado Condomínio da Marinha é “muito cabeça dura e fala muita besteira”. Vale a pena lembrar que o conjunto tem uma ligação com a igreja evangélica desde sua fundação e que quem teve mais problemas de convivência foram os católicos.

6 mil igrejas

Outro município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, São Gonçalo é, segundo uma pesquisa feita por um grupo de pastores da região, a cidade com mais igrejas por quilômetro quadrado da América Latina. São centenas de denominações diferentes espalhadas pelos 91 bairros do município. “A estimativa é de aproximadamente 6 mil igrejas protestantes distribuídas pela cidade inteira”, afirma um membro da Primeira Igreja Batista de Brasilândia, que pede para não ser identificado. Uma dessas igrejas é o Ministério Resgatando Almas, no Complexo do Salgueiro, cujo pastor, Luiz Cláudio, era envolvido com o onipresente tráfico de drogas de sua comunidade até entregar sua vida a Deus, há cerca de sete anos. Hoje com 29 anos, o pastor Luiz Cláudio garante já ter convertido homicidas, assaltantes, viciados e traficantes, além de já ter impedido execuções nos tribunais do tráfico. “Meu trabalho baseia-se no resgate de pessoas envolvidas com o crime e com drogas na comunidade”, diz ele, para quem valentia não é portar uma pistola ou um fuzil, mas “segurar a bíblia e cair pra dentro da batalha de resgatar vidas e almas”.

A líder comunitária Cíntia Luna presenciou algumas negociações entre os pastores evangélicos e o tráfico de drogas que conseguiram livrar da morte pessoas condenadas pelo implacável tribunal do poder paralelo. “Uma vez o pastor me chamou quando foi defender um menino acusado de ser informante da polícia”, conta a presidente da associação dos moradores do Fogueteiro, que sabe que essa é uma acusação tão grave que na maioria das vezes o acusado é morto com um tiro no rosto, para que seus entes queridos não possam se despedir com um beijo. “Ele disse para o chefe do morro: ‘cara, se ele esta sendo julgado por algo, ele também merece uma defesa, e estou aqui para advogar por ele.’ Os bandidos meio que continuaram retrucando, mas com menos força.” Depois de muita conversa, o menino foi expulso do morro. Só voltou no início do ano, depois que a polícia implantou a UPP de Santa Teresa.