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Bloco de Carnaval Mulheres Rodadas Protesta Pelos Direitos das Mulheres

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No dia 10 de fevereiro, último dia oficial do carnaval, um grupo diversificado de cerca de 2.500 pessoas se reuniu no Largo do Machado na Zona Sul para um bloco diferente: o desfile do Mulheres Rodadas que está agora em seu segundo ano. A jornalista Renata Rodrigues, co-fundadora do bloco conta que, em dezembro de 2014, o Mulheres Rodadas foi inspirado por uma foto viral no Facebook de um jovem segurando um cartaz dizendo: “Não mereço mulher rodada”. A postagem provocou indignação entre milhares de mulheres, que responderam com a hashtag #SomosTodasRodadas.

Protesto através da festa

Renata Rodrigues e suas co-organizadoras se inspiraram e organizaram um evento para dar continuidade para conversas sobre o machismo, e construir respostas feministas criativas. Renata destacou que trazer questões políticas e culturais é parte da própria trama do carnaval, embora possa não ser claro para os turistas que visitam.

Ela explicou que a adição da discussão feminista na tradição de abordar as questões políticas mais prementes na sociedade através do imaginário e da plataforma do carnaval atinge um novo tipo de público: “Quando você traz a arte e esse tipo de coisa, música e tal, você alcança e toca as pessoas de outra forma [com] uma agenda positiva… A gente fala com outras pessoas, gente que tradicionalmente não está dentro disso [círculos ativistas] e não está pensando nisso”.

Carnaval sem assédio

Não só o carnaval permite um tipo diferente de protesto, mas é um momento importante para enfrentar o sexismo, dado que os blocos são locais de muito assédio sexual. O assédio é um problema no Brasil em qualquer época do ano. Um estudo realizado pela Think Olga mostrou que, das quase 8.000 entrevistadas, 98% delas tinham sofrido assédio. No entanto, o problema piora durante a atmosfera do carnaval, e a campanha #CarnavalSemAssédio, com a parceria do Mulheres Rodadas, atraiu muito o apoio do público.

O bloco Mulheres Rodadas reuniu tanto adolescentes, novas para o ativismo, com mulheres mais velhas que já estão por longo tempo na luta pelos direitos das mulheres. Infelizmente, as mulheres de todas as idades tinham histórias para contar de assédio durante o carnaval.

Arlanza Rebello do Núcleo da Defensoria Pública do Rio de Janeiro para a Defesa dos Direitos da Mulher explicou que a parceria do Núcleo com o bloco começou com um telefonema de uma das suas organizadoras. Elas lhe disseram que, em outro evento de carnaval “um homem a viu com a camiseta do Mulheres Rodadas e proferiu insultos e ameaçou até que a estupraria, que poderia, porque ela é uma mulher que se chama de desfrutável, disponível”.

Arlanza Rebello explicou que o bloco “traz ao carnaval o protagonismo das mulheres, que deixam de ser objeto de musiquinhas machistas e do prazer do homem, para mostrar que temos autonomia, queremos brincar, e ser respeitadas”.

Sofia Feitoso, de 16 anos, também teve esse sentimento na experiência do seu primeiro carnaval que passou de forma independente com os amigos: “Para mim esse carnaval foi a maior demonstração que precisamos lutar muito mesmo. Porque eu já sofri muito assédio nesse carnaval. Já virou uma coisa normal”.

A mudança política

As participantes do Mulheres Rodadas clamam por uma mudança política, tanto a nível local e nacional, e também por uma mudança cultural, e o bloco de forma criativa mistura os dois. Muitas exibiram cartazes onde se lia “Fora Cunha“. As mulheres do Núcleo dos defensores públicos disseram que Cunha é o “inimigo número um” dos direitos das mulheres, destacando suas tentativas de proibir o aborto legal no caso de estupro e sobre a possibilidade dele contestar a lei Maria da Penha, que desde 2006 apoia vítimas de violência doméstica através de sistemas de penalidade e relatórios diferenciados.

Deste grupo, a advogada Georgia Bello falou sobre como ela havia considerado se fantasiar como a esposa do candidato a prefeito do Rio de Janeiro Pedro Paulo por causa da sua conhecida história de violência doméstica. Ela explicou que tal afirmação: “não é banalizar a violência, é mais uma maneira de dar visibilidade. De chamar atenção para que as mulheres não esqueçam que daqui a pouco vai ter uma eleição e que um candidato que pode entrar, é um candidato que bate em mulher”.

Para além do Carnaval

As atividades do Mulheres Rodadas estão definidas para continuarem para além do bloco. Depois do primeiro bloco em 2015, Mulheres Rodadas fez parceria não só com a campanha #CarnavalSemAssédio, mas também com a ONU Mulheres, e o Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública, com a intenção de realizar ações contínuas durante todo o ano.

A banda começou a tocar no segundo ano do Bloco das Mulheres Rodadas e Renata Rodrigues falou das ações planejadas para o Dia Internacional da Mulher em 8 de março e além: “eu acho que 2016 é um ano promissor… temos muitas pessoas engajadas”.