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1º Intercâmbio da Rede Favela Sustentável de 2019: Babilônia com RevoluSolar e Favela Orgânica

Participantes do encontro que chagaram até o final do dia. Foto: Luiza de Andrade

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Rede Favela Sustentável (RFS) é um projeto da Comunidades Catalisadoras (ComCat)* desenhado para construir redes de solidariedade, dar visibilidade, e desenvolver ações conjuntas que apoiem a expansão de iniciativas comunitárias que fortalecem a sustentabilidade ambiental e a resiliência social em favelas de toda a região metropolitana do Rio de Janeiro. O projeto começou em 2012 com a produção do filme Favela como Modelo Sustentável, tendo continuidade em 2017, quando foram mapeadas 111 iniciativas sustentáveis e foi publicado um relatório final que analisa os resultados. 

Em 2018 o projeto realizou uma série de intercâmbios entre oito das mais duradouras e estabelecidas iniciativas que foram mapeadas na Rede Favela Sustentável e em seguida foi realizado, no dia 10 de novembro, um dia inteiro de intercâmbio com toda a Rede Favela Sustentável. Assista ao vídeo que acompanha os intercâmbios de 2018 clicando aqui.

Em 2019, o projeto está realizando uma segunda rodada de intercâmbios—dessa vez abertos a todos os membros da RFS e ao público geral—em projetos baseados na Babilônia, Maré, Manguinhos, Pavuna, São João de Meriti e Vila Kennedy. O primeiro intercâmbio do ano visitou o RevoluSolar e o Favela Orgânica na Babilônia, seguido por uma roda de capacitação focada na Elaboração e Gestão de Projetos, ministrada por membros da Rede. O projeto tem o apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil.


A Manhã do Primeiro Intercâmbio

No sábado, 27 de abril, 85 pessoas reuniram-se na BabilôniaZona Sul do Rio de Janeiro, para se engajarem em um diálogo, de um dia de duração, sobre sustentabilidade socioambiental, sendo recebidos pela iniciativa de energia solar RevoluSolar e pelo projeto de gastronomia lixo zero Favela Orgânica para o primeiro intercâmbio da Rede Favela Sustentável de 2019. Na parte da manhã, o grupo da Rede reuniu-se na entrada da comunidade, onde os participantes foram recepcionados por voluntários da RevoluSolar e representantes da Associação de Moradores da Babilônia. Após uma breve introdução, o grupo partiu para uma caminhada pela comunidade. A primeira parada foi na Escola Tia Percília. Lá, Adalberto Almeida—o primeiro instalador de painéis fotovoltaicos na Babilônia e co-fundador e atual presidente da RevoluSolar—descreveu o papel da iniciativa no empenho da comunidade para apoiar a escola, que recentemente sofreu uma perda de financiamento e uma queda significativa nas matrículas. Ao instalar painéis solares no telhado, o RevoluSolar visa ajudar a capacitar e revitalizar o espaço. Os painéis permitem que a escola produza uma parte significativa de sua própria energia—65% do consumo normal da escola—e gere uma economia equivalente a R$5.000 por ano ou R$125.000 ao longo dos seus esperados 25 anos de duração. Esses fundos que seriam pagos à Light, agora podem ser investidos na própria escola. Além de fornecer serviços de instalação de painéis solares, a RevoluSolar propaga a educação ambiental, a energia solar e realiza oficinas mensais sobre tópicos de sustentabilidade para crianças e jovens.

Após essa apresentação inicial, os participantes foram divididos em dois grupos. Um grupo iniciou um passeio comunitário liderado por André Constantine, um guia comunitário e ativista, membro do movimento Favela Não Se Cala e ex-presidente da Associação de Moradores da Babilônia. O outro grupo partiu para saber mais sobre o RevoluSolar, e foram ouvir as falas de Adalberto e outros voluntários.

André é amplamente conhecido por sua oratória poderosa, declarações fortes e opiniões não adulteradas, que resultam em tours de favela honestos, politicamente carregados e extremamente francos, que começam com a exibição de um banner que proclama “Favela Não É Zoológico!”. Durante todo o tour, ele falou com paixão sobre racismo e a violência e negligência impostas pelo Estado, que ele detalha como os fatores que produzem as favelas. “Temos que mudar a nossa oratória e fazer essa reflexão juntos. Nós temos a possibilidade de derrubar esse muro invisível que divide essa cidade”, disse ele.

Mostrando os projetos pilotos da RevoluSolar na pousada Babilônia Rio Hostel e no restaurante Estrelas da Babilônia ao longo do caminho, André continuou a expor os desafios que as favelas enfrentam em termos de acesso a serviços básicos e devido a militarização do espaço público na favela.

Finalmente, o grupo chegou ao local mais severamente impactado pelas fortes chuvas de abril, com danos tão extremos resultantes da “falta de uma política habitacional decente”, conforme afirmado por André. Na Babilônia, a tempestade e os deslizamentos de terra resultantes, mataram três moradores. O risco de deslizamentos de terra está entre os problemas que os membros da Rede Favela Sustentável estão envolvidos em identificar e encontrar caminhos para remediar, mas as estratégias de prevenção do governo são fundamentais. Recentemente, fundos destinados a essa prevenção deixaram de ser aplicados no Rio.

RevoluSolar Apresenta Soluções de Energia Sustentável para a Babilônia

Depois da caminhada, os grupos alternaram suas atividades—o segundo grupo foi fazer o tour guiado por André enquanto o grupo que retornava foi visitar o terraço da Associação de Moradores da Babilônia para ouvir e trocar com a RevoluSolar. Os representantes e voluntários da RevoluSolar expuseram seus principais objetivos em tornar energias renováveis—especificamente energia solar—acessíveis e possíveis para os moradores da Babilônia. Um dos principais objetivos do projeto é capacitar os moradores, oferecendo oportunidades de carreira no crescente setor de energia solar. Na verdade, a RevoluSolar estabeleceu parcerias para dar bolsas de estudo a moradores para eles participarem de treinamento profissional e técnico em instalação de painéis solares: cinco moradores já completaram o treinamento. Eles também procuram abordar a participação de mulheres, incluindo-as em debates vitais sobre tecnologias de energia sustentável.

Para os representantes da RevoluSolar, a independência energética está relacionada não apenas com a sustentabilidade ambiental, mas também com a sustentabilidade financeira da comunidade. Como tal, a iniciativa visa combater as contas de luz altíssimas que eles explicam que são “calculadas irresponsavelmente” pela Light com base em estimativas, ao invés de consumo real, fazendo com que os moradores gastem mais. A RevoluSolar também procura abordar o uso clandestino de energia, que, como os representantes da iniciativa observaram durante a discussão, “é arriscado e tem um preço muito alto”. Ao criar uma fonte local de energia derivada da energia solar, as instalações da RevoluSolar fornecem segurança e energia limpa para espaços comunitários locais como a Escola Tia Percília, ao passo em que evita o fluxo de saída de recursos, fortalecendo a economia local.

Atualmente, a RevoluSolar está trabalhando em uma pesquisa com cem famílias da comunidade para melhor entender o consumo de energia e seus impactos na comunidade. Durante a apresentação, Adalberto falou sobre algumas das lições iniciais—que a equipe adquiriu a partir do estudo—que serão publicadas no site da RevoluSolar até o final do ano. Um dos resultados mais chocantes, ele contou, foi o fato de que vários moradores estão lutando para poder alimentar suas famílias por consequência de terem que pagar contas de luz exorbitantes.

Perguntas do grupo provocaram um entusiasmado debate sobre como a RevoluSolar pode servir de modelo para outras comunidades no Rio de Janeiro e além. Por exemplo, Mariluce Mariá de Souza e Cleber Araújo—organizadores da iniciativa Favela Art e moradores do Complexo do Alemão, na Zona Norte—perguntaram sobre a estrutura organizacional, os mecanismos de sustentabilidade financeira e as estratégias de envolvimento da comunidade na RevoluSolar. “É uma ONG, uma associação, um projeto ou uma empresa—e como o morador vai ter acesso a isso?”, perguntou Cleber. Ele continuou: “Não sei o custo [dos painéis solares], mas é caro… uma coisa inacessível para o pobre. Então, como vocês vão convencer o morador a contribuir?”

Em resposta, Adalberto descreveu a importância de dedicar os recursos da RevoluSolar a projetos localizados em espaços públicos para beneficiar a comunidade como um todo: “Os apoios que recebemospor exemplo para a escolinhanão poderiam ser para um morador. Não recebemos apoios para escolhermos uma casa [para receber a instalação dos painéis solares] e dizer assim: ‘Vai ser aquela casa’. Tem que ser para um espaço público coletivo da comunidade”.

Vitor Chelles, voluntário da RevoluSolar, enfatizou que, embora a energia solar seja vista como cara, ela é realmente um investimento, dada a economia de longo prazo que os painéis geram para a comunidade. Vitor descreveu: “Como que vamos continuar [com o projeto]? É tendo impacto financeiro. Há uma série de organizações, empresas, governos que têm uma verba para ser utilizada nesses projetos sociais [de energia renovável]. Então, um dos viés do RevoluSolar é tentar aplicar para esses editais, para os projetos aqui. A ideia é ter uma cooperativa de energia solar aqui e com isso, o custo da energia vai baixar e [as pessoas] irão poder gastar esse dinheiro com outras coisas… A gente pensa energia como empoderamento dos moradores. A gente pensa que eles podem gerir o seu futuro, o seu destino. Não cabe depender do governo para tudo. Com moradores tendo esse poder nas mãos, eles podem impactar toda a sociedade no seu entorno. A nossa logo é isso: ‘A Energia É Nossa'”.

Cleber parabenizou os representantes da RevoluSolar por seu projeto altamente inovador e expressou apoio à ideia de reestruturação como um negócio social—adotando algumas práticas de negócios com o objetivo principal de enfrentar um desafio social e gerar benefícios para a comunidade. “Tornar um projeto de impacto social é o melhor caminho para vocês hoje. Parabéns. Quero que isso chegue em outras favelas também”. A troca de pensamentos e idéias fomentou o intercâmbio e foi altamente valiosa para os visitantes e para os membros da equipe da RevoluSolar.

Gastronomia Sustentável: O Favela Orgânica da Regina Tchelly

A troca continuou durante o almoço na sede do Favela Orgânica, onde a chef Regina Tchelly deu boas-vindas ao grupo da Rede Favela Sustentável de braços abertos e com um grande sorriso. Regina relatou sua jornada pessoal—de seu estado natal da Paraíba, até a favela da Babilônia—e falou sobre como sua paixão pela gastronomia sustentável a catapultou para os palcos nacionais e internacionais. Através de sua premiada iniciativa, Regina pretende mudar a maneira pela qual sua comunidade e a sociedade como um todo vêem comida e desperdício de alimentos.

Após sua apresentação, Regina e sua equipe serviram a cada participante um prato de risoto de legumes, salada de caqui com molho de limão e alho e suco de hibisco. Entre outros produtos que Regina preparou para a RFS, estavam geleia de caqui, picolés de hibisco e caqui e, finalmente—a pedido dos afortunados o suficiente para ter tido a oportunidade de provar a iguaria em ocasiões anteriores—as famosas coxinhas de jaca de Regina.

Após o almoço, Regina realizou uma oficina de culinária, demonstrando a preparação de um delicioso patê de casca de banana. Em suas oficinas públicas, Regina ensina adultos e crianças da comunidade a usar praticamente todas as partes de frutas e vegetais—até mesmo a casca, caules, sementes e caroços. Regina afirmou que no Favela Orgânica, ela “trabalha com o círculo da vida”. Os participantes aprendem não apenas como usar as partes normalmente descartadas que sobram ao cozinhar, mas também a compostar as partes que são verdadeiramente inutilizáveis. Ao fazê-lo, os moradores locais podem comer alimentos mais saudáveis, mais acessíveis e ambientalmente responsáveis em todas as etapas do processo, desde a produção até o descarte.

A linguagem que Regina fala é a linguagem do amor. A voz dela é respeitada na Babilônia, a qual ela é completamente dedicada e devota. É onde as raízes dela estão plantadas. “A gente às vezes quer salvar o mundo, mas deixa de olhar o que está ao nosso redor. A gente quer fazer tantas coisas, mas esquece de fazer algo com o que a gente tem agora”, declarou Regina.

Criando Soluções Alternativas: Compartilhando Experiências e Fortalecendo a Rede

Para encerrar o dia, quatro membros da Rede de Favela Sustentável falaram sobre suas experiências com elaboração e gestão de projetos, um tópico identificado por meio de uma pesquisa sobre as prioridades dos membros da Rede e desejos de treinamento e compartilhamento de conhecimento. Em um formato que combinou mini-palestras com um círculo de discussão informal, líderes comunitários e coordenadores de projetos aproveitaram o espaço para compartilhar e trocar conhecimento experiencial e se engajarem em um diálogo horizontal baseado no enriquecimento mútuo.

Os oradores foram inspiradores e forneceram bons conselhos, especialmente para os participantes nas primeiras fases do lançamento de uma nova iniciativa ou expansão de um projeto existente. Gustavo Cunha, do Mundo Livres, abriu as falas discorrendo sobre empreendedorismo e estratégias para planejar e adaptar projetos. Carlos André do Nascimento (mobilizador comunitário da Pavuna, na Zona Norte) falou sobre a sua organização, a RONGO, e a criação do Museu do Graffiti—o primeiro do gênero—e a importância da perseverança e da construção de parcerias. Suzana Mattos, do SEBRAE, compartilhou sua experiência em captação de recursos e enfatizou a importância de “metodologias de solução de problemas”. Thaís Aguiar, recém-formada em engenharia ambiental, encerrou a conversa discutindo a necessidade de cronogramas e outras ferramentas de planejamento para garantir o sucesso dos projetos. Os materiais de apoio de cada um dos apresentadores foram disponibilizados aos participantes após o evento.

O intercâmbio incorporou a missão da Rede Favela Sustentável de fortalecer e expandir as qualidades sustentáveis e os movimentos comunitários inerentes às favelas do Rio de Janeiro. Moldada por sua história de resistência e resiliência, Babilônia abriga projetos criativos como RevoluSolar e Favela Orgânica que continuarão a pavimentar o caminho para o desenvolvimento de soluções socioambientais no Rio e além.

Veja nossas fotos da visita à Babilônia (ou clique aqui):

*RioOnWatch é um projeto da Comunidades Catalisadoras