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As Griots da Maré: Narrativas de Mulheres Negras da Favela

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O conjunto de favelas da Maré, Zona Norte do Rio, é um mundo de 140.000 habitantes e muitas histórias para contar. A formação da favela começou pelo Morro do Timbau na década de 1940, mas cada parte da Maré tem sua própria história de ocupação. 

A Nova Holanda, por exemplo, se formou na década de 1960 como um Centro de Habitação Provisória, criado pelo governo da época e coordenado pela Fundação Leão XIII, para abrigar a população removida de outras favelas da cidade—da Favela do Esqueleto, da Praia do Pinto, do Morro da Formiga e do Morro do Querosene. Para muitas daquelas famílias, o provisório tornou-se permanente até hoje.

Segundo Tereza Onã, do Núcleo de Memória e Identidade da Maré (NUMIM) da ONG Redes da Maré, outro traço marcante da Nova Holanda é a presença de uma população majoritariamente negra. Atenta a isso, Tereza reuniu uma equipe de pesquisadoras negras para trabalhar a memória local sob o recorte de gênero e raça. Os encontros entre as pesquisadoras e antigas moradoras da Nova Holanda ficou conhecido como “Chá com as Avós”.

“A Nova Holanda tem um histórico de criação que tem que ser considerado pelo resto da cidade, é a comunidade mais negra da Maré. Não é coincidência que na Nova Holanda a gente tem uma relação tão atritosa com a polícia”, afirma Tereza que coordena esse trabalho de história oral há quatro anos.

O documentário As Griots da Maré, dirigido por Diego Jesus e Tereza Onã em 2016, é um dos primeiros resultados do Chá com as Avós. O filme de 15 minutos traz as narrativas de moradoras da Maré e está disponível no canal da Escola de Cinema Olhares da Maré (ECOM).

“Elas ainda não têm noção exata do que é ser griot [pronunciado no Brasil como griô]”, observa Tereza. “Eu as chamo de griot, mas elas não se entendem ainda assim. Essa coisa do griot tem a ver com a história, com a memória da nossa negritude. Meu sonho é que elas se olhem no espelho e falem assim: ‘Nossa! Eu sou uma griot!’ Isso ainda é uma construção. [Esse trabalho] é uma forma de dar visibilidade para elas. Eu só estou aqui porque elas estiveram antes de mim. Para nós, negros, nossa ancestralidade é fundamental. Estamos em 2019 e a história do negro no Brasil ainda não está contada”. Com base na Lei 11.645/08, a equipe de pesquisadoras tem discutido memória e identidade na Maré. Na cultura tradicional africana, griots são os guardiões e contadores de histórias das suas comunidades.

No dia 30 de maio, reunidas no Chá com as Avós, durante a visita a exposição “Abdias Nascimento, a arte de um guerreiro”—que aconteceu no Centro de Artes da Maré até 15 de junho—as avós Tereza (52), Durvalina (88), Eva Iara (59) e Maria Augusta/Aidê (95) compartilharam suas experiências nesses encontros.

Dona Durvaliana que é uma das personagens do filme As Griots da Maré, conta que nasceu em Minas Gerais e tem uma extensa família na Maré: “Eu tenho cinco filhos, 16 netos, 32 bisnetos e seis tataranetos. Se eu for fazer um aniversário só a minha família enche a festa”, ela conta rindo. Do grupo de avós, Dona Durvalina conta que já conhecia Aidê: A Maré “era uma comunidade em que todo mundo se comunicava. Hoje não tem como, mas os meus antigos eu conheço tudo”.

Maria Augusta, conhecida por todas como Aidê, também é natural de Minas Gerais mas chegou na Maré aos 12 anos após a remoção de sua família do Morro do Querosene. Ela lembra de um incêndio que tomou conta de sua casa há muitos anos: “Minha filha, a casa pegou fogo. Foi uma tristeza. Eu dormindo e escutei um tchiii-tchiii. Aí, bateram na porta: ‘Aidê! Aidê! A casa tá pegando fogo!’ Menina, quando eu vi aquilo, fiquei doida. Mas graças a Deus, foi tudo consertado e tá tudo no mesmo lugar”, lembra Dona Aidê que começou a ir no Chá das Avós por convite das filhas. “Eu não saia de casa. Só saia pro médico e pra casa das minhas filhas. Elas me falaram pra eu vir e gostei.”

Eva Iara migrou de São João de Meriti para a Maré e conta que tem um irmão gêmeo chamado Adão. Aquela manhã era sua primeira reunião no Chá com as Avós: “Hoje é a minha primeira vez e eu gostei. Toda vez que ela [Tereza] passava, me chamava, mas eu tinha vergonha. Ela falou: ‘Deixa a vergonha para lá e vem’. Eu gostei, vou passar a vir mais”.

Tereza, que também é avó, afirma que “tem uma história da Maré que só elas sabem”. Os encontros também realizam ações conjuntas com a Biblioteca Popular Escritor Lima Barreto da Redes da Maré e o projeto Muda Maré como visitas ao Piscinão de Ramos e oficinas: “A gente precisa conhecer mais a Maré. Quem mora no Piscinão, diz que não mora na Maré. A ideia desse grupo é diminuir essa distância”.

Além do grupo de moradoras da Nova Holanda, o Chá com as Avós tem outro núcleo na Vila do Pinheiro. Ao todo são 12 moradoras antigas participando dos encontros: “Ainda não é um projeto. A gente não tem recurso, na verdade, mas a gente não pode parar de se encontrar”, afirma Tereza. 

O próximo passo dos encontros é a coleta de histórias sobre rezadeiras da Maré. “O Chá com as Avós é um embrião disso. Vamos fazer um trabalho sobre as rezadeiras a partir da história delas, outro sobre a folia de reis na Maré a partir da história delas”, conta Tereza. Com suas histórias pouco conhecidas, as rezadeiras marcam as narrativas de várias favelas cariocas. São histórias que chegam pelos mais velhos como as da Nega Vilma no Santa Marta, Dona Binha no Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, Dona Alzira no Vidigal, e Dona Orosina Vieira no Morro do Timbau.

Em tempos de perseguições às religiões e práticas de matrizes africanas dentro e fora das favelas, é mesmo urgente registrar essas narrativas e ampliar seus personagens. Dona Durvalina exerceu a prática de rezadeira até os 70 anos: “Eu comecei com sete anos e parei com 70. Eu achei que tinha chegado o tempo. Deus te deu prazo tudo, pra nascer, pra caminhar, pra crescer, meu prazo foi esse. Tudo tem seu tempo”.

Miriane Peregrino é pesquisadora, jornalista comunitária e educadora, especialista e mestre em Literatura pela UERJ. Criou o projeto de incentivo à leitura “Literatura Comunica!” que atua em escolas, bibliotecas comunitárias e equipamentos culturais há seis anos. Nascida no interior do Rio, atua na Maré desde 2013.

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