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2º Intercâmbio da Rede Favela Sustentável de 2019: Mutirão no Quilombo do Camorim

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Rede Favela Sustentável (RFS) é um projeto da Comunidades Catalisadoras (ComCat)* desenhado para construir redes de solidariedade, dar visibilidade, e desenvolver ações conjuntas que apoiem a expansão de iniciativas comunitárias que fortalecem a sustentabilidade ambiental e a resiliência social em favelas de toda a região metropolitana do Rio de Janeiro. O projeto começou em 2012 com a produção do filme Favela como Modelo Sustentável, tendo continuidade em 2017, quando foram mapeadas 111 iniciativas sustentáveis e foi publicado um relatório final que analisa os resultados. 

Em 2018 o projeto realizou uma série de intercâmbios entre oito das mais duradouras e estabelecidas iniciativas que foram mapeadas na Rede Favela Sustentável e em seguida foi realizado, no dia 10 de novembro, um dia inteiro de intercâmbio com toda a Rede Favela Sustentável. Assista ao vídeo que acompanha os intercâmbios de 2018 clicando aqui.

Em 2019, o projeto está realizando uma segunda rodada de intercâmbios—dessa vez abertos a todos os membros da RFS e ao público geral—em projetos baseados na Babilônia, Camorim, Pavuna, Vila Kennedy e Manguinhos. Essa segunda troca do ano contou com uma visita ao Quilombo do Camorim, que havia sido devastado pelas chuvas no início do ano. Deste modo, o foco não estava apenas no aprendizado sobre o Quilombo do Camorim, mas em um mutirão para limpar, replantar e embelezar o local histórico, seguido de uma roda de capacitação sobre abordagens de captação de recursos apresentadas pelos membros da RFS. O projeto tem o apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil.


Segundo Intercâmbio de 2019 Realizado Como Mutirão

Na manhã do sábado, 10 de agosto, 69 pessoas se reuniram no Quilombo do Camorim, em Jacarepaguá, na Zona Oeste, prontas para por as mãos na massa. Adilson Almeida, fundador e presidente da Associação Cultural Quilombo do Camorim (ACUQCA) cumprimentou o grupo na chegada, explicando como o quilombo foi severamente impactado pelas intensas chuvas que assolaram o Rio no início deste ano. Adilson, que fundou a ACUQCA em 2003 para relembrar, preservar e promover a cultura quilombola (arqueólogos identificaram materiais no local desde os anos 1500) explicou que as chuvas haviam varrido a horta comunitária, e que causaram uma invasão de capim alto e espesso em toda a área, que apesar das tentativas constantes, os membros do quilombo não conseguiram limpar durante todos esses meses. Portanto, eles não conseguiram realizar seus eventos públicos e comunitários habituais desde abril deste ano.

Devido a esses danos, o recém-lançado Grupo de Trabalho Hortas e Reflorestamento da Rede Favela Sustentável decidiu fazer do Quilombo do Camorim o foco de seu primeiro ato. Em resposta aos pedidos de ajuda de Adilson, a Rede organizou seu segundo intercâmbio de 2019 em forma de mutirão—o termo de origem Tupi para ação coletiva, amplamente usado nas comunidades cariocas para descrever esforços colaborativos para revitalizar espaços comunitários.

Depois de apresentar as tarefas a serem realizadas, Adilson convidou os participantes a se unirem a um dos três grupos: um para retirar a infestação generalizada do capim alto, um segundo para recuperar a horta comunitária e um terceiro para cobrir o lado de fora do muro do quilombo com grafites sinalizando a presença do quilombo para as pessoas de fora. Vários coletivos vieram em apoio ao quilombo: Planta na Rua, um coletivo de jardinagem urbana, que trabalha em toda a cidade, trouxe equipamentos, sementes e mudas e dirigiu o replantio da horta comunitária. Representantes de grupos comunitários e dos Engenheiros Sem Fronteiras trabalharam incansavelmente com roçadeiras e outros equipamentos para limpar e retirar o capim que invadiu o local. Enquanto isso, 16 crianças totalmente dedicadas da Cine & Rock, uma organização de música e cultura da favela Rio das Pedras, na Zona Oeste, apoiaram os dois conjuntos de atividades.

Grafitagem pelo Preta Pinta Preta

Enquanto os voluntários trabalhavam para limpar os detritos no quilombo, as mulheres do coletivo de graffiti Preta Pinta Preta trabalharam com o objetivo de cobrir a entrada do quilombo com grafites novos e sugestivos sobre temas afro-brasileiros. O grupo levou seu talento artístico aos esforços do dia, trabalhando o dia inteiro para cobrir as paredes do quilombo com murais de figuras afro-brasileiras icônicas.

O coletivo feminino de grafite da Zona Norte, Preta Pinta Preta, usa a arte do grafite para valorizar a identidade cultural étnica e a memória de artistas negros. O grupo que tem pintado murais em escolas públicas do Rio de Janeiro, foi atraído pelo intercâmbio de sábado pela oportunidade de representar mulheres negras historicamente importantes. A obra de arte do coletivo representou Carolina de Jesus, Dandara dos Palmares, Maria Felipa e Ruth de Souza—figuras cruciais na luta contra o racismo e o colonialismo. Nahya Nogueira, uma das artistas do coletivo, explicou sua seleção: “A nossa escolha das imagens surgiu a partir de uma conversa, sentimos que havia necessidade da representação forte da nossa cultura negra afro-brasileira”.

Jussara Miranda Gomes, Nahya Nogueira, Thais Ramos de Cunha, Natalia de Souza Flores, Juliana Messias, Izah Beyaz e Carina Bickel colocam seus talentos artísticos em prática. Na entrada do quilombo, Natalia pintou o símbolo do Quilombo do Camorim: o sankofa, um símbolo africano Adrinka de um pássaro virando a cabeça para trás com as patas firmemente plantadas para frente, simbolizando a necessidade de considerar o passado à medida que avançamos para o futuro. Pintado ao lado do logotipo da ACUQCA, o sankofa encara a comunidade, servindo como um lembrete para olhar a história como um meio de levar o conhecimento do passado para decisões futuras.

Almoço, História do Quilombo e Gratidão

Enquanto o grupo se reunia nas mesas ao ar livre do quilombo para um desejado almoço, Adilson contou sua história pessoal em relação ao espaço e ao desenvolvimento da ACUQCA. Nascido e criado no local, Adilson dedica sua vida a se reconectar com a herança ancestral do quilombo. Desde do começo da jornada pelo reconhecimento, há quase duas décadas—apesar das provas de 400 anos de história—o Quilombo do Camorim enfrentou inúmeras ameaças nos últimos 15 anos, incluindo desafios ao seu status de quilombo e construções forasteiras em terras pertencentes ao quilombo. Em 2015, um enorme condomínio foi construído para a Vila da Mídia das Olimpíadas 2016 sobre um cemitério ancestral. Centenas de árvores centenárias do local sagrado foram derrubadas.

Diante dessas ameaças, o Quilombo do Camorim permanece resiliente graças ao trabalho de Adilson e outros membros e voluntários da ACUQCA. A associação organiza vários eventos comunitários anuais durante datas históricas como forma de cuidar, conectar-se e manter as tradições afro-brasileiras. Aulas regulares de capoeira e rodas de jongo, juntamente com as festividades anuais de São Jorge, Dandara e Zumbi dos Palmares, ajudam o Quilombo do Camorim a preservar a cultura quilombola.

Adilson fechou o almoço expressando sua sincera gratidão aos participantes do dia. Ele guiou o grupo em uma dinâmica, instruindo todos a baterem palmas juntos, primeiro usando apenas os dedos indicadores, depois dois dedos e depois três, até que todos estivessem batendo palmas com o volume máximo. “Trabalhando sozinhos, ficamos calados”, disse Adilson, “mas juntos as nossas vozes são muito mais altas”.

Mutirão Terminou com Roda de Capacitação em Captação de Recursos

Após um breve passeio pelo sítio arqueológico do Quilombo do Camorim, o dia chegou ao terceiro e último segmento, com um círculo de capacitação focado na captação de recursos. O tema havia sido identificado como um dos cinco principais tópicos de interesse pelos membros da rede no lançamento da Rede Favela Sustentável em novembro de 2018. Theresa Williamson, diretora da Comunidades Catalisadoras (ComCat)* abriu a sessão com um breve resumo da história da Rede Favela Sustentável que conduziu o intercâmbio.

Três membros da Rede com experiências diversificadas em captação de recursos em prol de projetos comunitários, forneceram ao grupo recursos práticos, sugestões de estratégia e orientação geral para aumentar a confiança dos participantes ao buscar financiamento. Edna Thomaz Rodrigues, da ADACI Conexão Rio e Educafro Rio, começou descrevendo a captação de recursos como a “sedução de parceiros”. O trabalho de uma pessoa na captação de recursos é, portanto, provocar, em um potencial doador, entusiasmo e uma sensação de impacto. Ela também compartilhou recursos práticos para os participantes revisitarem mais tarde, como a Associação Brasileira de Captação de Recursos.

Marcele Ribeiro, do Favela Orgânica e Projeto Delíria, no entanto, expandiu o foco da busca por recursos para além dos recursos financeiros. Ela enfatizou a importância de utilizar os recursos humanos, entre outros, já presentes nas organizações, bem como definir necessidades exatas, conduzir análises de mercado, manter dados organizacionais e aperfeiçoar propostas. Para concluir o círculo, Clara Ferraz da ComCat, se concentrou em um meio prático de arrecadar fundos confiáveis, o de doações mensais recorrentes e a manutenção de relacionamentos com doadores. A roda de capacitação foi bem recebida pelos participantes do dia, muitos dos quais operam projetos em suas comunidades e sentem a pressão que as restrições de financiamento colocam sobre suas iniciativas.

No final do dia, os participantes conseguiram limpar os detritos do local e enriqueceram-se com novas conexões e capacidade organizacional. O lugar que estava complicado e fora do controle para os responsáveis pelo quilombo, agora tornou-se gerenciável novamente. Várias pessoas se ofereceram para ajudar e essa ajuda veio com muita alegria e zelo. É incrível o que um grupo comprometido de pessoas pode fazer em um dia.

Participe do próximo intercâmbio da Rede Favela Sustentável, marcado para 14 de setembro no CCIK na Vila Kennedy, Zona Oeste da cidade. Inscrições serão encerradas no dia 11 de setembro. Veja o convite no Facebook aqui.

Veja fotos do intercâmbio no Camorim (ou clique aqui):

*Tanto o RioOnWatch quanto a Rede Favela Sustentável são iniciativas da Comunidades Catalisadoras.