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Você Quer Aprender Sobre Juneteenth?

Conheça o Feriado Anual Comemorativo do Fim da Escravidão nos Estados Unidos

Crédito Jake May/The Flint jornal, via Associated Press

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Leia a matéria original por Derrick Bryson Taylor, em inglês, no The New York Times aquiO RioOnWatch traduz matérias do inglês para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar temas ou análises cobertos fora do país que nem sempre são cobertos no Brasil. 

Em 19 de junho de 1865, afro-americanos escravizados em Galveston, Texas, foram informados de que estavam livres. Agora, 155 anos depois, os moradores de cidades por todos os EUA celebram a data com vários eventos. Juneteenth é um feriado anual comemorativo do fim da escravidão nos Estados Unidos, comemorado pelos afro-americanos desde o final do século XIX.

Mas, nos últimos anos e, particularmente após os protestos nacionais contra a violência policial e as mortes de George Floyd, Breonna Taylor, Ahmaud Arbery e outros afro-americanos, existe um interesse renovado e maior no dia que se celebra a liberdade neste ano.

A celebração pode reverberar de novas maneiras devido as profundas mudanças e os protestos generalizados que ocorrem em todo o país. O presidente americano Trump planejava realizar um comício de campanha em Tulsa, no estado de Oklahoma, no feriado de 19 de junho. Mas, na noite de sexta-feira, 13 de junho, Trump cedeu à pressão, anunciando que iria atrasar o evento por um dia.

Aqui está um breve guia sobre o que você deve saber sobre o Juneteenth.

O que é Juneteenth?

Em 19 de junho de 1865, cerca de dois meses após a rendição do general confederado Robert E. Lee em Appomattox, Virgínia, o general da União Gordon Granger chegou a Galveston, Texas, para informar aos afro-americanos escravizados sobre sua liberdade, e que a Guerra Civil Americana tinha terminado. O anúncio do general Granger pôs em prática a Proclamação de Emancipação, emitida dois anos e meio antes do aviso do general, em 1º de janeiro de 1863, pelo presidente Abraham Lincoln.

O feriado Juneteenth recebeu esse nome pela combinação da palavra June (junho em inglês) e a data 19 de junho (em inglês ‘nineteenth’, significa décimo nono). O dia também é às vezes chamado de “Juneteenth Dia da Independência”, “Dia da Liberdade” ou “Dia da Emancipação”.

Desfile Juneteenth em Austin, 2011. Acima: Miss Juneteenth Desiree Hicks, 18, a esquerda, e Miss Lil Juneteenth, Deaqujwyanta Sorrells, 11. Abaixo, da esquerda: Aubri Brent, 12; Deawntanique Sorrells, 5; and Jada Pickens, 9. Foto: Rodolfo Gonzalez, Austin American-Statesman, via Associated Press

Como é comemorado?

A celebração original se tornou anual e cresceu em popularidade ao longo dos anos com a participação de descendentes, de acordo com o Juneteenth.com, que acompanham as celebrações. O dia é comemorado com as famílias reunidas orando juntas. Em algumas celebrações deste dia, homens e mulheres que haviam sido escravizados e seus descendentes fazem uma peregrinação anual de volta a Galveston.

As celebrações alcançaram novos patamares em 1872, quando um grupo de ministros e empresários afro-americanos em Houston compraram 10 hectares de terra para criar o Parque da Emancipação. A intenção era com o espaço realizar a celebração anual do Juneteenth da cidade.

Atualmente, enquanto as celebrações acontecem entre as famílias nos jardins das residências, onde a comida é um elemento chave, algumas cidades como Atlanta e Washington realizam eventos maiores, como desfiles e festivais com a participação de moradores, empresas locais entre outros.

“Galveston continua um local movimentado para os eventos do Juneteenth ao longo dos anos”, afirma Douglas Matthews, que ajuda a coordenar as comemorações há mais de duas décadas. Ele ressalta que a cidade geralmente tem cerca de 15 eventos, incluindo desfiles, churrascos, apresentações musicais e um concurso de beleza, começando na primeira semana de junho. Combinados, os eventos atraem, no total, cerca de 10.000 pessoas, disse ele.

“Este ano, provavelmente existem apenas dois ou três eventos por causa da epidemia do coronavírus”, conta ele. “Estamos felizes com a importância do nosso aniversário do Juneteenth.”

Será que algum dia se tornará um feriado nacional?

Em 1980, o Texas se tornou o primeiro estado a designar Juneteenth como feriado, embora o reconhecimento seja amplamente simbólico. Desde então, outros 45 estados e a capital de Washington, DC passaram a reconhecer oficialmente o dia. Em 2019, New Hampshire tornou-se o estado mais recente a declarar Juneteenth um feriado estadual. Na terça-feira, 16 de junho, o governador Ralph Northam, da Virgínia, disse que vai propor uma lei para tornar Juneteenth um feriado estadual e na quarta-feira, o governador Andrew Cuomo, de Nova York, declarou o aniversário um feriado para os funcionários do estado.

Também neste mês, Twitter e Square, uma empresa de pagamento móvel, decidiram que Juneteenth seria considerado feriado remunerado. Jack Dorsey, executivo-chefe e fundador do Twitter e Square, disse que o dia era de “celebração, educação e conexão”. Vox Media, Nike e a N.F.L. também fizeram anúncios semelhantes, juntando-se a outros para tornar a celebração um dia de folga remunerada nos EUA.

O grupo de tambores e dança Sankofa Village for the Arts se apresenta durante o Jubileu do Desfile Freemen (Homens livres) para comemorar Juneteenth, no Point State Park, em 2018, em Pittsburgh. Foto: Alexandra Wimley / Pittsburgh Post-Gazette, via Associated Press

Mas até agora, Juneteenth ainda não conseguiu se tornar um feriado nacional. Existem várias petições online pedindo a mudança, e o senador Bernie Sanders, de Vermont, também pediu que a data se tornasse um feriado nacional em 2019, quando ele conheceu Opal Lee, ativista da cidade de Fort Worth que faz campanha pela causa. Em 2018, o Senado dos EUA aprovou uma resolução que designava 19 de junho como “Juneteenth Independence Day” (Juneteenth Dia da Independência), mas a resolução ainda não chegou à Câmara.

Por que a Juneteenth se tornou tão importante este ano?

Após o mundo assistir as imagens do assassinato de George Floyd, um homem afro-americano de 46 anos, que morreu sob custódia da polícia de Minneapolis no mês passado, milhares de pessoas nos EUA foram às ruas protestar. O nome de Floyd, assim como os nomes de Taylor, Arbery, David McAtee e outros, tornaram-se gritos de guerra e luta por mudanças em todo o país, reenergizando efetivamente o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

Essa mudança veio em ondas. Em Minneapolis, as autoridades proibiram o uso de estrangulamentos pela polícia, e autoridades devem intervir e denunciar qualquer uso de força não autorizada. Os democratas no Congresso divulgaram uma legislação abrangente visando a má conduta e discriminação racial por parte da polícia. O projeto é a intervenção mais abrangente no policiamento que os parlamentares propuseram na história recente no país.

Empresas de todo o espectro comercial expressaram apoio ao movimento Black Lives Matter e suspenderam ou demitiram funcionários que zombaram da morte de Floyd ou fizeram comentários racistas.

Mark Anthony Neal, um estudioso afro-americano da Duke University, disse que há algumas comparações entre o final da Guerra Civil e a movimentação atual, acrescentando que esse momento parece uma “ruptura”.

“As apostas são um pouco diferentes”, disse Neal. “Muitos africanos, negros americanos, sentem que esta é a primeira vez em muito tempo que eles são ouvidos de uma forma que vai além da cultura.”

“Acho que o Juneteenth será sentido de uma forma um pouco diferente agora”, disse ele. “É uma oportunidade para as pessoas recuperarem o fôlego sobre o que foi esse incrível ritmo de mudanças que vimos nas últimas duas semanas.”

Por que os planos do presidente Trump em fazer um comício em Tulsa, Oklahoma, no dia 19 de junho atraíram tantas críticas?

Pela primeira vez desde que o surto de coronavírus fechou a maior parte do país, Trump retomará à campanha. Ele planejava um comício em Tulsa em 19 de junho. Em 1921, a cidade foi palco de um dos piores episódios de violência racista do país, quando multidões brancas atacaram um rico distrito comercial negro conhecido como Black Wall Street. As multidões destruíram mais de 1.200 casas e mataram aproximadamente 300 pessoas.

O anúncio provocou ira dos críticos de Trump. “Isso não é apenas uma piscadela para os supremacistas brancos—ele está dando a eles uma festa de boas-vindas”, tuitou a senadora Kamala Harris, da Califórnia. Em resposta à reação, Brad Parscale, gerente de campanha de Trump, elogiou o “sólido histórico de sucesso” de Trump com os afro-americanos.

Questionado em uma entrevista à Fox News na sexta-feira (13), se o comício tinha sido marcado em 19 de junho de propósito, Trump disse que não. “O fato de eu estar participando de um comício nesse dia poderia ser algo muito positivo como uma celebração”, disse ele, acrescentando: “Não foi feito por esse motivo. Mas é um encontro interessante”.

Melanye Price, professora de ciências políticas da Prairie View A&M University, uma universidade historicamente negra do Texas, classificou o comício planejado em junho de “um tapa na cara”.

“No meio dos maiores protestos que já vimos neste país sobre justiça racial, ele quer aparecer em uma cidade, em um dia destinado a celebrar a liberdade e a libertação racial, onde a população negra foi dizimada por preconceito racial e supremacia branca”, disse Melanye. “Quem não vê isso como um problema?”

Na noite de sexta-feira, em um tuíte, pouco antes da meia-noite, o presidente anunciou que a manifestação seria realizada no dia seguinte, em 20 de junho.

“Anteriormente, tínhamos agendado o nosso #MAGA Rally em Tulsa, Oklahoma, para 19 de junho—um grande evento”, escreveu ele. “Infelizmente, porém, isso aconteceria no feriado de Juneteenth. Muitos de meus amigos e apoiadores afro-americanos sugeriram que considerássemos mudar a data por respeito a este feriado, e em observância a essa importante ocasião e tudo o que ela representa, decidi, portanto, mudar nossa manifestação para sábado, 20 de junho, a fim de honrar seus pedidos.”

Derrick Bryson Taylor é um repórter de coberturas especiais no Express Desk. Ele trabalhou anteriormente na revista PageSix.com do The New York Post e na revista Essence.

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