Boneca Pretta: Representatividade nos Brinquedos Empodera e Aumenta Autoestima de Crianças Negras #DesenraizandoRacismo

Vamos Escurecer a Brincadeira?

Arte original por Raquel Batista

Esta matéria faz parte da série antirracista do RioOnWatch e também de uma parceria com o Núcleo de Estudos Críticos em Linguagem, Educação e Sociedade (NECLES), da UFF, para que seja utilizada como um recurso pedagógico em escolas públicas de Niterói. Especialmente neste mês, que celebramos a Consciência Negra, convidamos você a conhecer o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021—Enraizando o Antirracismo nas Favelas: Desconstruindo Narrativas Sociais sobre Racismo no Rio de Janeiro.

Nesta matéria o estudante universitário, Luan Nascimento, reflete sobre como a falta de representatividade nos brinquedos afeta as crianças negras e traz seu relato pessoal sobre como essa violência simbólica gerou nele um desejo de mudança, que se materializou no projeto Boneca Pretta—fundado a partir das inquietações de sua mãe, Adriana da Silva Bezerra.

Mulher Maravilha por Boneca Pretta

Você ainda se lembra quais eram seus brinquedos favoritos na infância? Sendo preto, como eu, quantas daquelas bonecas e bonecos se pareciam com você? No Brasil, mais da metade da população é negra, 54%, mas para encontrar referências de pessoas pretas na TV ou em lojas de brinquedos, é preciso muito esforço.

Há dez ou quinze anos, desenvolver bonecas pretascomo um instrumento capaz de fortalecer a autoestima das crianças e ensiná-las sobre a diversidade existente no mundonão era relevante para o mercado nacional de brinquedos. Mas o tempo passou e, apesar de haver um caminho muito longo pela frente, as coisas estão mudando. Hoje mais do que nunca, bonecas e brinquedos pretos importam e fazem toda a diferença na vida de pessoas pretas, sobretudo durante a primeira fase da vida.

Muito se fala sobre representatividade negra, mas poucos conhecem o real significado e efeito que ela tem no processo de construção da subjetividade de uma pessoa preta. Representatividade é indiscutivelmente muito importante na formação de identidade dos indivíduos, no entanto, quando se é mulher, pessoa com deficiência, LGBTQIA+ e/ou negro, esse direito de se ver representado no mundo é constantemente negado. A representatividade não é importante apenas para a organização de grupos que lutam por direitos, mas também faz parte da formação social e intelectual do indivíduo que, desde cedo, é apresentado às normas, papéis e espaços sociais reproduzidos em brinquedos e brincadeiras.

Branca de Neve por Boneca PrettaLogo, ver-se a si próprio ou não representado em cada um desses campos constrói subjetividades, personalidades e futuro. Por exemplo, quando uma mulher branca é uma grande empresária ou quando uma mulher negra alcança o cargo mais alto da empresa onde trabalha, isso cria a subjetividade na identidade feminina de que outras mulheres também podem chegar a esse cargo, além de mudar a cultura da empresa. Por outro lado, quando programas televisivos escalam atrizes e atores negros (o que ainda é exceção) recorrentemente, é em papéis que servem pessoas brancas, como empregadas domésticas, motoristas e outros. Isso também cria o imaginário de que aquele é o local e a função do povo negro na sociedade branca. Esses processos sociais (des)educam a população em geral sobre os lugares e papéis sociais reservados ao negro nessa sociedade: com pouco prestígio social e a serviço de pessoas brancas. E com os brinquedos não é diferente.

É durante a infância que vivemos o auge do aprendizado, especialmente na primeira infância, período que vai desde o nascimento até os seis anos de idade. Tudo é uma descoberta e é nesse período onde o reconhecimento começa a surgir. Tudo aquilo com o que os pequenos convivem e tudo aquilo a que têm acesso torna-se referencial na construção de suas visões de mundo, sonhos, desejos, modelos de família, de sociedade, de relações com os outros e com si mesmo. Brincar é uma atividade fundamental para o desenvolvimento físico e mental saudável das crianças. É uma fonte primária da descoberta e aprendizado da fase em que o cérebro mais cresce em toda a vida.

Através da brincadeira, as crianças criam histórias, aprendem sobre cultura, projetam seu futuro e encenam situações vividas por elas. Os brinquedos, como parte desse processo de aprendizagem, têm efeitos duradouros na educação e na formação da criança. Infelizmente, brinquedos que representam a diversidade étnica e de tipos de famílias são escassos. Uma boneca negra para uma criança negra pode ser uma ferramenta para a construção de sua identidade e de fortalecimento de sua autoestima, podendo levá-la a entrar em um mundo onde ela é a protagonista. Uma boneca negra para uma criança branca pode ser uma ferramenta de construção de afeto e intimidade com pessoas de raizes diferentes dela.

Nas prateleiras das lojas de brinquedo, bonecas brancas ainda são a norma.Por muito tempo o referencial de beleza foi o ideal branco, o que resultou em uma tentativa de branqueamento para se encaixar nesse modelo “ideal”. E lá se vão gerações e mais gerações de pessoas pretas que a todo custo tentaram se encaixar nesse modelo. Os alisamentos de cabelos crespos e cacheados, afinamento de nariz, e até clareamento de pele, entre outras, são formas de tentar se inserir no mundo branco.

Com a ausência da representatividade negra, existem muitos indivíduos que não se reconhecem como negros, embranquecendo a leitura de si mesmo e reproduzindo comportamentos aceitos pela branquitude com o objetivo de ascender socialmente.

Cadê Nossa Boneca?

Logo da iniciativa de empoderamento de crianças negras 'Cadê Nossa Boneca'Se vivemos em um mundo tão diverso e rico por suas diferenças, não faz sentido encontrarmos brinquedos representando apenas uma parcela da sociedade. Frente a isso, há seis anos em Salvador foi criada a campanha Cadê Nossa Boneca?. A iniciativa das amigas Ana Marcilio, Mylene Alves e Raquel Rocha, se originou durante uma arrecadação de brinquedos para a creche do presídio da capital baiana, quando perceberam que a grande maioria das bonecas recebidas era branca. A sensação de que tinham que fazer algo persistiu e elas correram atrás de apoio institucional, que se deu através da ONG Avante – Educação e Mobilização Social. A Avante abraçou o projeto e fomentou uma pesquisa em 2020 também intitulada Cadê Nossa Boneca? O estudo mostrou que o total de bonecos negros fabricados pelas indústrias diminuiu entre 2016 e 2020. De acordo com a pesquisa, em 2016, os modelos de bonecos negros no mercado eram apenas 7% dos fabricados pela indústria. Em 2020, esse número caiu para 6%, mesmo diante da ascensão de debates sobre discussões raciais e representatividade negra. 

“Os bonecos são representações do humano. Existe um modelo e um padrão de beleza que é construído e vendido desde a infância para todo mundo, então obviamente para a criança preta, desde pequena, quando ela entra em uma loja e não se enxerga na vitrine, com certeza ela está sendo violentada”, afirmou a psicóloga Ana Oliva Marcílio, que também participou da pesquisa. Ela pontuou ainda que a cor de pele e o cabelo são dois elementos muito fortes do racismo brasileiro e das bonecas. Outro ponto de importante discussão, segundo Ana Marcílio, é o acesso a essas bonecas pretas que, geralmente, são mais caras que as bonecas brancas. Isso dificulta o acesso da população de renda mais baixa: “Bonecos de bebês, geralmente, têm o mesmo valor. Mas, quando são bonecas com corpo de mulher, há um diferencial: as bonecas pretas são, em regra, itens de colecionador”, explicou Ana.

Boneca Pretta 

Adriana da Silva Bezerra, mãe de Luan Nascimento, finalmente com uma boneca preta, algo inexistente em sua infância. Arquivo pessoal de Luan NascimentoToda reflexão acima reflete as minhas inquietações e da minha mãe, Adriana da Silva Bezerra. Aos 48 anos, minha mãe ganhou sua primeira boneca negra e, mesmo assim, a boneca era bem mais clara do que ela e tinha os cabelos lisos. 

“Quando eu era criança, eu nem sabia que existiam bonecas da minha cor. Eu tinha cabelo preto, o que era diferente das bonecas, que tinham cabelo loiro”. Essas foram as palavras da minha mãe quando a perguntei se ela, na infância, já tinha visto alguma boneca negra. Quando perguntei sobre o efeito que essa falta de representatividade tinha causado em sua vida ela respondeu: “É chato porque todas eram loiras, né? Não tinha uma pretinha como eu. Só descobri que existe depois de velha”.

Adriana da Silva Bezerra e Luan Nascimento com um acervo bem diverso de @bonecapretta. Arquivo pessoal de Luan Nascimento

E, então, comecei a me perguntar quantos adultos cresceram sem ter ao menos visto uma boneca semelhante a eles. Essa falta, ao meu ver, contribuiu para que milhares de crianças, que hoje são adultos, crescessem com problemas de autoimagem e baixa autoestima. As bonecas servem como uma referência para quem brinca. Infelizmente, existe a dominância de um padrão europeu com o qual a maioria das crianças brasileiras não se identifica. A sensação de não-pertencimento atinge a autoestima e pode, também, se manifestar em diversas áreas da vida de uma pessoa preta.

A partir do depoimento da minha mãe, da falta de representatividade e da importância que esse assunto tem para nós, negros e negras, criei em 2017 o perfil no Instagram Boneca Pretta, onde, atualmente, faço postagens com as fotos de cenários com bonecas pretas, que trazem conteúdos de educação, ativismo e saúde mental.

Comecei, em 2017, customizando bonecas pretas sem a intenção de criar algo além de roupinhas para postar. Em 2018, me deu um estalo de usar as bonecas para abordar alguns assuntos sobre raça e, também, inverter os papéis de desenhos, filmes, elementos da cultura pop, fazendo a versão preta de tudo aquilo que só tem a versão branca.

A participação da minha mãe no início era financiando e incentivando o projeto, mas com o tempo e a demanda de produção ela passou a me ajudar também na parte de fotografia e filmagem das coisas que faço e, em alguns casos, me ajuda na produção do cenário. Eu faço tudo com relação às bonecas: tenho a ideia, pesquiso sobre o assunto que vou postar, produzo as bonecas, suas roupas, acessórios, os cenários e a fotografia dos ensaios fotográficos, edito as fotos e vídeos e faço as postagens.

O meu intuito inicial era postar fotos de bonecas com mensagens e os signos do ativismo antirracista, porém em 2019 entraram em contato comigo, através do perfil no Instagram, e assim veio a minha primeira venda de uma boneca. Foi aí que percebi que podia vender se alguém me procurasse interessado em comprar. Até então, eu só postava fotos de coisas que eu já queria falar e não sabia como.

Para além do brinquedo, Boneca Pretta existe para falar sobre raça, racismo, negritude, branquitude e outros temas tão caros ao povo preto. De forma lúdica para crianças, mas também para o povo adulto, através de posts e textos escritos por mim e por parceiros no perfil do projeto no Instagram.

Liara Andrade muito feliz ao receber uma boneca pretta da Mulher Maravilha. Foto por Luara AndradeCultura, história, ancestralidade, música, cotidiano de uma pessoa preta são alguns dos assuntos abordados no perfil do Boneca Pretta no Instagram. A representatividade negra é uma das formas de combate ao racismo, porque quando uma criança preta se reconhece em lugar de protagonismo isso fortalece sua autoestima, fazendo-a acreditar que sonhar é possível. Por outro lado, uma criança branca percebe desde sempre que o mundo é um lugar diverso, o que apresenta a ela a ideia de pertencimento ao todo e que outros fenótipos são tão valorosos quanto o dela. A discussão sobre o racismo precisa fazer parte da agenda da infância à medida que impacta profundamente o processo de construção de identidade e subjetividades, informando a maneira pela qual as crianças irão navegar o mundo, sua vida escolar e construir as relações umas com as outras.

A boneca preta cria um mundo ideal não só para crianças e adultos pretos, mas para os não-pretos também. Desde as princesas que moldaram milhares de meninas por anos até os super-heróis que desde sempre foram brancos e idolatrados, o debate acerca dos impactos do racismo precisa mais que nunca ser feito por todos, pois afeta todas as crianças. Há uma tendência em se pensar que a questão racial se refere apenas à vida das pessoas negras, uma construção social a ser problematizada. Crescer e ser educado sem receber informações históricas, geográficas, sociológicas completas acerca da população negra impacta todas as crianças, negras e brancas, porque naturaliza uma ideia sobre quem tem ou não valor, quem construiu ou não a história, quem deve ou não ter respeito.

Com essa atuação em vários fronts, tenho tido um retorno muito positivo e encorajador, que me motiva a continuar produzindo bonecas e postando os conteúdos antirracistas no perfil. Recebo muitas mensagens de mães agradecendo pelas coisas que foram ensinadas a seus filhos através da nossa página no Instagram, muitos vídeos de reações de crianças ao receberem suas bonecas pretas. A identificação imediata. A alegria de poder se reconhecer em sua boneca é o melhor feedback que eu poderia receber. Muita gente preta agradecendo por estar finalmente aprendendo, às vezes junto de seus filhos, sobre a própria cultura.

Fui motivado pela falta de bonecas parecidas com minha mãe na infância dela e, a partir disso, tive o desejo de trazer essa experiência para a vida de crianças e adultos. Quero satisfazer a criança interior de todos que agora podem ter uma boneca de sua cor ou com o cabelo parecido com o seu. Ver uma criança se reconhecendo no brinquedo, reconhecendo seu cabelo, crianças brancas enxergando beleza em bonecas negras e crianças negras finalmente se achando lindas e orgulhosas não tem preço. Nada no mundo paga.

Abaixo, a menina Elis recebe, do Boneca Pretta, sua boneca preta vestida de mulher maravilha:

 

Representatividade Negra na Infância e a Construção de uma Sociedade Antirracista 

Podemos ajudar a transformar a sociedade racista, machista e discriminatória na qual vivemos, ao promover uma conscientização na direção de um ambiente social mais igualitário. Nesse sentido, os brinquedos podem funcionar como veículo de transformação, quando despertamos para suas representações visuais e apontamos para além de seus significados enquanto meros objetos de entretenimento. Ao perceber o mundo dos brinquedos como um microcosmo do mundo adulto, como defendia o filósofo e sociólogo francês Roland Barthes, compreendemos que esse mundo em miniatura tende a refletir o que realmente existe na sociedade real.

Bonecas pretas constroem categorias e possibilidades de existência para crianças negras que, ao se verem como super-heróis e super-heroínas, príncipes e princesas, profissionais e etc., entendem os locais que podem ocupar nessa sociedade, entendem como são vistos socialmente e até mesmo a história de nosso povo na diáspora

Embora aparentemente inofensivos, os brinquedos reproduzem muito bem as opressões que forjam uma sociedade. Os brinquedos e brincadeiras ensinam independentemente da escola. Portanto, se nas prateleiras das lojas só há brinquedos de uma cor, de um só biotipo e cabeloque incitam características estereotipadas a respeito de certa estrutura familiar cisheteronormativa, do papel social dos negros e das mulheresesses serão os modelos que as crianças internalizarão e terão em suas mentes enquanto crescem. É isso que será reproduzido socialmente por essas crianças no caminho para a vida adulta.

Boneca Pretta, Cadê Nossa Boneca e tantas outras iniciativas como Mãe de Cria e Clube do Livro do Alemão agem para transformar esse caminho, para tornar esse microcosmo do mundo adulto, ao qual são expostas as crianças, em um campo mais diverso de possibilidades e existências. A mudança em direção a uma sociedade antirracista começa pela infância e pelo empoderamento do povo negro na sua visão de si e do que lhe é possível atingir nesse país. Ao fazer bonecas retintas, com dreads, black powers, heróis negros da cultura nacional, orixás, pessoas com deficiência e etc., a boneca preta deixa evidente que entende como brincar constrói o presente enquanto muda o amanhã. 

Bonecas que representam a mulher negra em sua diversidade. Foto por @bonecapretta

Sobre o autor: Luan Nascimento, morador do Morro do INPS, localizado na Ilha do Governador, é estudante de Biblioteconomia na UFRJ. Desde criança, envolveu-se com o carnaval desfilando pela GRES União da Ilha do Governador. Em 2018 estagiou no barracão da GRES Mocidade Independente de Padre Miguel, e depois dessa experiência, criou a conta de Instagram Boneca Pretta em que semanalmente faz postagens enaltecendo aspectos da cultura afro-brasileira.

Colaboração: Adriana da Silva Bezerra, moradora do Morro do INPS, localizado na Ilha do Governador, é formada em Enfermagem e Radiologia. Além de integrar a equipe da Boneca Pretta, ela tem um projeto, ainda sem nome, onde entrega semanalmente comida para moradores de rua pelos bairros da Ilha do Governador.

Sobre a artista: Raquel Batista é artista visual e trabalha como fotógrafa e ilustradora. É estudante na Escola de Belas Artes da UFRJ, mulher negra e moradora da Zona Oeste do Rio.

Esta matéria faz parte da série antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021—Enraizando o Antirracismo nas Favelas: Desconstruindo Narrativas Sociais sobre Racismo no Rio de Janeiro.

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