Mobilizadores da Cidade de Deus à Baixada Fluminense Buscam Soluções para Combater a Evasão Escolar na Pandemia

Esta matéria faz parte de uma série gerada por uma parceria do RioOnWatch com o Núcleo de Estudos Críticos em Linguagem, Educação e Sociedade (NECLES), da UFF, para produzir matérias que serão utilizadas como recursos pedagógicos em escolas públicas de Niterói.

A pandemia da Covid-19 amplificou as desigualdades sociais. A área da educação foi uma das mais afetadas. Com as aulas temporariamente paralisadas e, posteriormente, realizadas de modo online, a evasão escolar aumentou, especialmente entre os que moram em regiões periféricas. Para evitar que mais estudantes deixem os estudos, iniciativas criativas têm sido criadas ou expandidas, como o Caixote do Saber e o Projeto Inclusão.

De forma virtual, crianças e adolescentes moradores de favelas e periferias do Brasil tiveram o conteúdo escolar afetado pela falta de acesso à internetDe acordo com o estudo Enfrentamento da cultura do fracasso escolar, cerca de 5,5 milhões de estudantes ficaram sem acesso à educação no Brasil, quase o dobro do percentual de 2019. O levantamento realizado pela Unicef, no ano passado, revelou também que cerca de 1,4 milhões de estudantes com idades entre 6 e 17 anos abandonaram os estudos. A ausência de atividades também foi avaliada pela pesquisa. Embora matriculados e estando fora do período de férias, 4,1 milhões de alunos não receberam atividade escolar em 2020. 

Diante desse cenário, a ONG Nóiz está buscando formas criativas de ensino e cultura para apoiar moradores da Cidade de Deus, na Zona Oeste. Em 2018, o projeto contava com a ajuda de médicos dermatologistas, para consultas em crianças que sofriam problemas de pele, provocados muitas vezes pelo esgoto a céu aberto, na área do Brejo, uma localidade da comunidade com barracos sem acesso à água e à luz. 

O presidente da organização, André Melo, com a ajuda de três amigos, pensou em uma proposta que fosse além do assistencialismo. “Encaramos a doação de forma muito consciente. A doação é muito paliativa. Você dá um prato de comida para alguém e ela vai sentir fome de novo. O assistencialismo é importante, mas nunca foi o nosso foco. Sempre acreditamos na capacitação das pessoas, seja através do esporte ou da cultura. Acreditamos em uma proposta mais ampla.”

O Brejo foi o local da primeira sede da Nóiz, um barraco de madeira com pouca infraestrutura. Em seguida, em 2019, contando com parceiros, a equipe recebeu um prédio sem vida, com histórico de abandono do poder público, situado na área do Karatê. A solução encontrada foi a realização de um evento de grafite para colorir as paredes da nova casa. Independente da estrutura, o grupo buscou preservar a identidade baseada na educação e no desenvolvimento, oferecendo atividades diversas como artes marciais, cursos de tecnologia, pré-vestibular, entre outras. Atualmente, com a chegada da pandemia, a iniciativa precisou distribuir máscaras, álcool em gel e cestas básicas. Até agora foram distribuídas 20 toneladas de alimento.

Neste período pandêmico, a Nóiz decidiu manter as ações educacionais, diante do forte apelo dos pais das mais de 60 crianças atendidas pela iniciativa. Uma dessas ações é o Caixote do Saber. A ideia de criar minibibliotecas surgiu em julho de 2020, quando voluntários da Noiz uniram esforços para diminuir o tempo vago dos estudantes na Cidade de Deus. No total são quatro pontos fixos nas localidades do Brejo, Pantanal, Tangará e Apês. As minibibliotecas receberam doações de mais de 1.500 livros, por meio de campanhas em redes sociais e de pessoas que se interessam em ajudar. Os moradores podem pegar emprestado os exemplares, ou lê-los no próprio local.

Hoje, o Caixote do Saber está na Escola Municipal Frederico Eyer, com rodas de leituras para aumentar a interação entre os alunos e os professores. André Melo, observa que a iniciativa tem cumprido um papel de estímulo à leitura na comunidade. “Quando a gente coloca o caixote, o brilho nos olhos das crianças é contagiante. Tudo é uma questão de oportunidade e estímulo”, afirma.

A iniciativa ajudou muitos pais. Este é o caso de Giovanna Ferreira, catadora de recicláveis, que tem seus dois filhos participando da Nóiz: “Eu tinha medo de deixar minha filha andar sozinha por causa da epilepsia, agora eu deixo porque confio na equipe. A Duda tem 8 anos e está aprendendo a escrever o nome dela. A ONG está ajudando muito ela”, conta Giovanna.

Se por um lado o Caixote do Saber tem ajudado a manter o aprendizado entre os estudantes na pandemia, por outro a escola continua apresentando uma série de obstáculos para quem mora na periferia. “A professora do colégio criou um grupo no WhatsApp e passava deveres para copiar no caderno. Precisamos ‘caçar’ um wifi para não deixar as crianças sem cumprir as tarefas. Antes a escola dava o cartão vale-alimentação, agora só para quem tem comorbidade”, conta Giovanna.

Impactos da Evasão Escolar

Em linhas gerais, a evasão escolar acontece quando o estudante pode estar matriculado, mas não volta para cumprir com o ano vigente. Embora a educação faça parte do Artigo 26°, da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), a evasão escolar é uma realidade que ainda não foi superada no Brasil. 

Rute Andrade, especialista em neuropsicopedagogia, alerta que a evasão escolar, se não for levada a sério pelos governantes, terá consequências que só tendem a se multiplicarem. “A falta de educação continuada é um problema que o poder público deveria intervir. A sala de aula eleva a autoestima, traz segurança e ensina na prática a ter consciência social. Estar fora do colégio pode ser um processo doloroso que na vida adulta dificilmente será superado sem ajuda profissional adequada. A evasão escolar e o preconceito podem ser complicadores para uma carreira de sucesso”, avalia.

Com o lema: “O que nós não sabemos, a gente aprende”, o casal Élida Nascimento e Marcos Júnior fundaram o Projeto Inclusão no alto do Morro da Aparecida, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. A ideia de promover o aprendizado infanto-juvenil surgiu em 2014. Utilizando a abordagem das múltiplas inteligências e o atendimento individualizado, o Inclusão realiza atividades constantes de reforço escolar, atendimento psicológico, esporte e cursos profissionalizantes. 

Após identificar a defasagem escolar que atingia os moradores da comunidade, Élida, que é professora da rede municipal do Rio, decidiu intervir na realidade ao seu entorno: “Eu escutava muito nos corredores das escolas as pessoas falando que uma criança não tinha jeito para aprender. Isso me incomodava muito. Então eu pensei em levar a pedagogia das salas para a minha comunidade”, conta. 

No ano passado, os organizadores precisaram reinventar as ações do Inclusão. Com a ajuda de voluntários, uma vaquinha virtual voltada para doações de cestas básicas sustentáveis foi criada. A ideia gerou a Feira Solidária. Após muitas pesquisas, a solução encontrada para aumentar a imunidade dos beneficiados, do projeto, foi o incentivo à alimentação saudável com frutas e legumes. Ao todo foram 500 cestas entregues. 

Élida ressalta que a iniciativa tem suprido necessidades que vão muito além das educacionais: “Percebemos que muitos jovens haviam abandonado os estudos. Quando começou a flexibilização decidimos voltar com as aulas na nossa sede. Muitas crianças vêm aqui [no Inclusão] não só para aprender, mas também para se alimentar. Muitas crianças no projeto não se alimentam direito, comem de forma rápida [alimentos] industrializados… Acaba que a falta de uma alimentação saudável acarreta na precariedade do desenvolvimento escolar. As vitaminas, as proteínas e os nutrientes são essenciais para a formação física e pedagógica”.

Volta às Aulas com Incertezas 

Localizado na Baixada Fluminense, Duque de Caxias é o terceiro município mais populoso do Estado e possui aproximadamente 809 indústrias.

Um dos marcos no passado educacional de Caxias foi a fundação da Escola Proletária de Merity, a qual atendia a comunidade rural da região. Em 1921, a educadora Armanda Álvaro Alberto, inspirada pelo Método Montessori, inovou nos métodos pedagógicos da época, buscando transformar a instituição em um centro de desenvolvimento do ensino infantil. 

Outra particularidade, era o fato da escola ser uma das primeiras da América Latina a servir merenda escolar. Por este motivo se tornou conhecida como Escola Mate com Angu. Armanda sempre atenta com a saúde das crianças, propôs o ensino integral e também que os alunos auxiliassem no cultivo de hortas e criação de animais.

Nos dias atuais, muitos colégios públicos estão vivenciando o ensino híbridoparte realizado presencialmente e parte virtualmente—que agora é a nova realidade de estudantes e professores. O Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), divulgou um levantamento sobre o censo escolar aplicado entre fevereiro e maio de 2021, que revela que 90% das escolas não voltaram ao ano letivo em 2020. Na rede federal o percentual é de 98%, seguido das escolas municipais (97%) e depois as estaduais (85%).

Rose Cipriano, professora há 24 anos na rede municipal de Duque de Caxias, opina frente às novas formas de ensino adotadas na pandemia: “Com o fechamento das escolas a precariedade de recursos se aprofunda. Se a rede privada foi para seus computadores, isso não aconteceu com nossos alunos, [por conta da falta de] acesso à computadores. Quando [o aluno] tem um aparelho celular serve para toda família. O que passamos no trabalho remoto forçado, sem preparação, é totalmente improvisado. É muito complexa essa experiência. Nossa comunicação com os alunos foi através de redes sociais. Nos questionamos se uma curtida no Facebook poderia ser considerada como presença em aula”.

Na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, as aulas presenciais voltaram a ser obrigatórias em novembro deste ano. Em um anúncio feito em 26 de outubro, o atual secretário de educação, Renan Ferreirinha afirmou: “É muito importante que a gente garanta que todos os nossos alunos tenham acesso à educação e para isso a volta da obrigatoriedade das aulas presenciais é um importante passo nessa direção”.

Rose Cipriano, dirigente do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro – Núcleo Caxias, opina sobre as aulas presenciais: “Os alunos foram pegos no susto com o método remoto e voltar pode ser impactante. Precisamos de ações institucionais, propagandas ou carros de som para conscientizar sobre a importância do ensino. A busca ativa nas casas precisa ser feita respeitando a realidade de cada pessoa”.

Os motivos para a evasão escolar podem ser variados de acordo com cada região do país. Alguns estudantes deixam os estudos por falta de apoio, precariedade no transporte público ou até mesmo por causa de bullying. Iniciativas comunitárias continuam amorosamente fazendo o seu trabalho de formiguinha, mais uma vez no formato “Nós por Nós. Mas é nítido que, neste momento, é fundamental construir políticas públicas eficazes para frear o abandono estudantil, que fatalmente se transformará em um problema maior depois.

Sobre a autora: Beatriz Carvalho, cria de Vilar dos Teles em São João de Meriti, é jornalista, mídia-ativista, feminista e toca o Mulheres de Frente.


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