O Racismo Estrutural aos Olhos da Favela: A Maré Fala [PODCAST]

Arte original por David Amen
Arte original por David Amen

Esta matéria faz parte da série do projeto antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021: Enraizando o Antirracismo nas Favelas.

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mais de 1.000 favelas na cidade do Rio de Janeiro, que desde seu surgimento, há mais de 100 anos, sobrevivem sem direito à cidadania, educação, saúde, moradia, cultura e memória. São as favelas e as periferias que sofrem com a criminalização da pobreza, a negligência do Estado em vários campos e tantas outras violações de direitos, assim como com as operações policiais que frequentemente terminam em mortes de moradores e em traumas e transtornos de saúde mental para os sobreviventes dessas políticas de morte. Situações como estas não são por acaso, afinal a maioria das populações que habitam esses territórios é negra e parda.

Tais situações são o resultado do racismo estrutural, que é quando uma sociedade se estrutura, historicamente, com base na discriminação que privilegia alguma raça em detrimento de outra—neste caso, o privilégio branco e burguês em detrimento dos pretos e favelados. As políticas vão se consolidando, e novas vão chegando, que conjuntamente resultam em dados que mostram certas classes raciais sempre saindo em pior lugar. Todos nós participamos do sistema, e consequentemente somos beneficiados ou prejudicados pelo racismo estrutural. A única forma de combater o racismo é tendo consciência e agindo de forma antirracista, ou seja, buscando intencionalmente desvendar e agir diretamente contra esse sistema.

Pia instalada no Morro da Providência. Foto por Mauricio Hora

Neste período de pandemia do coronavírus, mais uma vez, foram as favelas os espaços que mais sofreram o impacto do agravamento sanitário. Isso se trata de mais uma consequência do racismo estrutural, assim como alertou a pesquisadora e diretora da Justiça Global, a jornalista Glaucia Marinho: “Nos dados de mortalidade, em comparação com os brancos, os negros morreram mais. Nos dados socioeconômicos, os negros e as favelas sofrem mais intensamente os impactos da pandemia, sendo a maior contingência de desempregados. Uma questão elementar no início da pandemia era o acesso a água pra lavar as mãos. Se a gente olha o local de moradia dos negros—as periferias, as favelas, os subúrbios—a falta d’agua é uma constante no cotidiano. Não teve nenhuma política de regularização do acesso a esse direito que é fundamental.”

Glaucia colocou ainda que o Brasil carrega em sua estrutura uma prática que privilegia uma minoria branca e rica. Para ela, o racismo é um plano político de longo prazo da classe dominante através do Estado, para eliminar e limitar a existência do povo negro, garantindo a reprodução social do sistema da branquitude e a manutenção do jogo de forças que favorece a minoria branca sobre a maioria negra, que é 54% da população brasileira.

A pesquisadora da Justiça Global fala ainda que:

“É importante entender que o racismo estrutura a nossa sociedade e é um plano do Estado brasileiro de eliminação da sua população negra. Não existe outra explicação para tamanha violência [sem ser pela lente do racismo estrutural]. Ter todas essas políticas [de violência] ou a falta de política pública [de serviços básicos] direcionada à população negra, [faz entender que] há uma intencionalidade, que é a eliminação, fazer morrer, limitar a existência e a resistência do povo negro”.

É uma política de morte, o que o movimento negro e de favelas têm chamado de necropolítica, operacionalizada pela militarização da vida, criminalização da pobreza e racismo estrutural. São as favelas que sangram nessa guerra aos pobres racista fantasiada de guerra às drogas. É a juventude negra e favelada que mais é assassinada pela necropolítica como segurança pública. É o genocídio negro seguindo inalterado, como política pública do Estado brasileiro.

O Racismo Visto da Maré e a Imagem do Negro na Mídia

Para entender melhor essa questão pelos olhos da favela, ouvimos moradoras sobre o tema do racismo estrutural e como é vivenciar isso dentro das favelas do Rio. A bióloga Fernanda França, 35, moradora da Vila do João, no Conjunto de Favelas da Maré, na Zona Norte, trouxe um pouco do histórico do Negro no Brasil: “O nosso país teve um longo período de escravidão. As pessoas negras eram subjugadas e tratadas de forma animalizada. A partir desse histórico, temos os resquícios disso no nosso cotidiano. Até hoje a gente vê situações de racismo”.

Fernanda ainda explica que “quando a gente pensa sobre racismo, a gente pensa em todas essas situações de preconceito racial e discriminação por parte de um indivíduo ou de um grupo contra um determinado grupo étnico ou racial. O grupo discriminado tipicamente vai estar socialmente marginalizado”.

A Maré é formada por 140.000 habitantes distribuídos em 16 favelas, no entorno da Baía de Guanabara. A primeira favela da Maré foi o Morro do Timbau, formado em 1940, construído e habitado por trabalhadores das vias expressas principais que rodeiam a Maré: Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela. A Maré é habitada por negros, um grande número de nordestinos que migraram para os grandes centros urbanos do país ao longo do século XX e moradores originalmente de outras favelas que sofreram remoções e foram reassentados de suas casas para o território.

Segundo o Censo Populacional da Maré, realizado em 2019, 53% dos moradores se denominam como pardos, enquanto 9% se denominam como pretos. Do percentual total, 37% dos moradores se denominam como brancos. Falar sobre racismo estrutural dentro das favelas não é uma tarefa fácil, ainda mais levando em consideração o tamanho do estigma criado por séculos no Brasil, que dificulta a auto identificação de pessoas enquanto negras e negros.

Historicamente, a imagem da população negra é estigmatizada também pela mídia tradicional, o que faz aumentar a ideia de que esta população é a que deve permanecer sem seus devidos direitos. Na maior parte do noticiário na televisão e da imprensa escrita, as pessoas negras são retratadas como “criminosas” e “marginais”, narrativas opostas às coberturas feitas com muito engajamento, esforço e dedicação pelas mídias comunitárias, que, cada vez mais, crescem nas favelas. A mídia comunitária vem tendo um papel fundamental no fortalecimento e valorização da identidade negra, indígena, da população do nordeste, mostrando que os colocados às margens pelo Estado, pela sociedade e pela mídia, são, na verdade, os construtores da favela e da cidade. Sem favela não existiria cidade no Brasil.

Ação ‘Maré diz não ao coronavírus', realizada durante a pandemia. Foto por: Douglas Lopes

Porém, ao contrário de gratidão, respeito e direitos, as favelas vivenciam a criminalização de seu território, cultura e moradores. Isso parte do histórico de estigmatização da favela, em uma sociedade que nem mesmo enxerga esses lugares como parte da cidade. No entanto, é errado dizer que o Estado não está presente nas favelas, afinal, como dito anteriormente, ele de fato se faz presente: pelas operações policiais, que quase sempre terminam em morte, dentre outras violações.

O Racismo Cotidiano e Como Podemos Transformar o Debate

De acordo com Lorena Froz, 20, moradora da favela Nova Holanda, na Maré, o racismo não é só o fato de alguém ser discriminado. É uma estrutura, é algo muito maior. É para além das ofensas e supostas brincadeiras que a gente presencia cotidianamente. O racismo tem diferentes configurações e pode se concretizar de diferentes formas. Uma delas é a falta de acesso aos direitos básicos. Outros exemplos descritos por Lorena, são quando a pessoa de pele preta entra numa loja e alguém a persegue, ou quando ela não pode usar um determinado tipo de cabelo no seu emprego. É como Lorena disse:

“[Racismo] é uma estrutura que impede que pessoas de pele preta tenham acesso às universidades… que consigam ter acesso às escolas, ao emprego e que nem mesmo consigam fazer um planejamento financeiro, por falta de espaço no mercado de trabalho… Por isso, entendo que [o racismo estrutural] é maior do que aquilo que a gente consegue enxergar.”

Lorena Froz. Foto de arquivo pessoal

Ainda de acordo com Lorena, é preciso falar sobre racismo e antirracismo todos os dias. É algo que deve ser mudado na estrutura da sociedade, de maneira profunda e duradoura. “Eu mesma nunca sofri nenhum ato de racismo, até porque não tenho a pele preta. Mas vivo num lugar que é muito impactado e influenciado pelo racismo ambiental e estrutural. Eu moro na Nova Holanda, a favela com a maior população preta do Complexo, segundo o Censo da Maré, 18,5% se autodeclaram como pretos. Não por acaso, é a favela que é conhecida por todos de forma pejorativa. Meu pai é um homem negro e com ele sim, já presenciei situações muito desconfortáveis.”

É importante pontuar que todas as favelas e periferias são vistas de forma negativa, em maior ou menor grau, pela criminalização da pobreza, do território e da negritude. A falta de políticas públicas voltadas a esses territórios contribui também para essa criminalização. No fim das contas pretos e favelados ficam cada vez mais à mercê da desigualdade.

Ao contrário de Lorena, Fernanda contou que infelizmente já sofreu e presenciou racismo: 

“Já passei e já presenciei muitas situações racistas, o que me faz perceber [esses fatos] é esse processo de me inteirar, me informar, estudar sempre sobre o tema. É um processo sempre muito difícil porque nos fere. Falar de racismo é falar de racismo estrutural e racismo institucional. É uma falha coletiva oferecer às pessoas um tipo de serviço por causa da sua cor. As oportunidades [oferecidas] às pessoas negras são reduzidas e chamamos isso de racismo institucional, que está dentro do racismo estrutural, onde, por exemplo, a oportunidade de emprego para ele [uma pessoa negra] é mínima. [A falta de] acesso à educação de qualidade também é racismo.”

Lorena, concordando com Fernanda, termina dizendo que explicaria para um vizinho de uma forma muito simples o que é racismo estrutural: “Sabe o porquê policiais entram na favela e matam quem acham conveniente? É racismo! Sabe por que a gente tem lixo nas ruas, e por que a gente há pouco tempo que foi ter uma escola de ensino médio na Maré? É racismo. Sabe por que você vai na Zona Sul e as pessoas ficam te olhando? É racismo também”.

É importante que esse tema seja debatido todos os dias e em todos os espaços. O Brasil, que carrega em sua história práticas racistas, necessita mudar e passar a colocar a população negra como foco, garantir direitos e os territórios que habitam. Entender a população negra e de favela como parte da cidade.

“A gente precisa primeiro ouvir o que o movimento negro tem dito, tem elaborado, tem proposto e refletido sobre o Brasil e as possibilidades de mudança. Em segundo lugar, se comprometer com essa mudança real, radical, por uma sociedade que caiba todo mundo. A gente não quer que um grupo seja privilegiado em detrimento de outro grupo, a gente quer que todo mundo tenha os mesmo direitos, principalmente os direito à vida, uma vida digna”,  finalizou Glaucia Marinho.

Sobre as autoras:

Gizele Martins é moradora do Conjunto de Favelas da Maré, é jornalista (PUC-Rio) e mestre em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (UERJ). Gizele é autora de diversos livros, um deles é Militarização e Censura – a luta por liberdade de expressão na Favela da Maré. É comunicadora comunitária há quase 20 anos, ganhadora de inúmeros prêmios e homenagens, e integra a Frente de Mobilização da Maré e a Agência Palafitas.

Juliana Pinho é moradora da Nova Holanda, no Conjunto de Favelas da Maré, graduanda em Ciências Sociais (UFRJ) e Jornalismo (UCAM). Comunicadora popular e mobilizadora territorial, Juliana é co-fundadora da Frente de Mobilização da Maré, integrante da Agência Palafitas, e responsável pela gestão e planejamento do projeto Pra Elas. Atualmente, atua também na área de gestão de portfólio da Luta pela Paz.

Sobre o artista: David Amen é cria do Complexo do Alemão, co-fundador e produtor de comunicação do Instituto Raízes em Movimento, jornalista, grafiteiro e ilustrador.

Esta matéria faz parte da série de matérias do projeto antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021: Enraizando o Antirracismo nas Favelas.

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