Conheça as Histórias de Odete Alves e Mariza Nascimento, Líderes Comunitárias do Complexo do Alemão

Arte original por David Amen
Arte original por David Amen

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No dia 25 de julho, é celebrado o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, uma data que enaltece a diversidade, a resistência e a luta internacional das mulheres afrodiaspóricas da região na conquista de direitos. Esta matéria faz parte da série de Memórias de Potências Faveladas do RioOnWatch, que visa documentar e celebrar a história das favelas do Rio de Janeiro através de relatos e reportagens sobre a memória coletiva em sua luta cotidiana pelo direito a uma vida plena.

Como todas as favelas do Brasil, o Complexo do Alemão (CPX), na Zona Norte do Rio de Janeiro, é rico em histórias e memórias de mulheres e homens de luta. É sempre muito gostoso ouvir e prestigiar as prosas dos mais velhos sobre a favela. Histórias de quando “tudo era mato” e de quando ainda não tinha energia elétrica nas casas. Histórias do território antes dele se tornar o emblemático conjunto de favelas do Alemão, um dos maiores da cidade, com pelo menos 70.000 moradores, segundo o Censo de 2022, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

É pura nostalgia. Os mais velhos trazem relatos sobre suas infâncias e brincadeiras que já não existem mais. Contudo, principalmente, contam sobre o espírito de comunidade, que era muito mais real naqueles tempos. Tempos de mutirões para construir a casa do vizinho e, sobretudo, de líderes que marcaram época com suas lutas por melhorias para o território, como Odete Alves e Mariza Nascimento.

Documentar a história do Complexo do Alemão através da luta de Dona Odete, Mariza Nascimento e de tantas outras lideranças é um movimento crucial para preservar a verdadeira história de luta pela dignidade na favela.

Dona Odete Não se Dobra! Foi, É e Será Fundamento em Tempos Difíceis

No coração do Complexo do Alemão, Dona Odete Alves, hoje com 85 anos, emerge na metade da década de 1970 como um ícone de perseverança, força e liderança. Chegou no Rio de Janeiro em 22 de fevereiro de 1970 e, segundo a própria, “veio a passeio”, mesmo com a reprovação dos pais. Mulher negra, mineira, filha de um pequeno fazendeiro em Cotaxé, Zona Rural do Estado do Espírito Santo, na divisa com Minas Gerais. Trouxe consigo a garra, a vontade de trabalhar e muita força. Sintomas de uma mulher que cresceu na roça, assumindo responsabilidades para ajudar a família na labuta desde muito cedo.

Obra da Associação de Moradores da Grota, por volta de 1973. Foto: Acervo Pessoal
Obra da Associação de Moradores da Grota, por volta de 1973. Foto: Acervo Pessoal

Não demorou para Dona Odete se envolver com a política no território. Por volta de 1973, incomodada com a negligência do Estado, descasos em diversos campos que resultavam em sérios problemas para a comunidade, ela começou a se engajar na Associação de Moradores da Grota, quando o local ainda era conhecido como Centro Social Joaquim de Queiroz. Logo no começo de 1980, ela se tornou a primeira e única mulher a liderar aquela associação. Desde então, muitos avanços foram conquistados pela favela. Um morador do Complexo relembra visitas de Dona Odete à sua mãe durante a infância dele:

“Lendária! Minha mãe era muito amiga dela. Lembro dela indo lá em casa com seu Zé Mineiro… ficavam conversando várias horas sobre assuntos do morro.” — Gildon Santos

Para algumas lideranças locais, Odete Alves é sinônimo de guerreira, pois enfrentou muita coisa no morro. “Não pode nunca ser esquecida. Deveria ter um espaço para guardar essa memória”, enfatiza a presidenta da ONG EDUCAP e moradora do Complexo do Alemão, Lucia Cabral. Ela relembra que, “na adolescência, eu achava ela tão bonita. Um símbolo de mulher guerreira. Eu lembro que eu queria ser igual a ela”.

Sua determinação se manifestava na busca por melhorias essenciais, como saneamento básico, eletricidade e água potável. A conexão que ela estabeleceu com as autoridades locais, órgãos públicos e políticos daquela época foi notável e sua dedicação à comunidade lhe rendeu um respeito profundo dos moradores. Odete, por muitas vezes, era a única mulher sentada à mesa com deputados federais e estaduais para tomadas de decisões e reivindicações para o Complexo do Alemão.

“Antes de eu assumir a presidência da associação, veio o primeiro político: o Deputado Federal Léo Simões. Ele costumava chegar e “pisar” em todo mundo. E, numa reunião com a diretoria, Léo sentou e cruzou as pernas, mas não sabia que ali no meio teria alguém para levantar a voz. Ele esculhambou todo mundo, aqueles homens todos. Foi quando cheguei perto dele, bati no seu ombro e disse: ‘você está numa casa emprestada, aqui não é sua casa. Eu exijo respeito’.” — Odete Alves

Odete no escritório da Associação de Moradores da Grota, Complexo do Alemão, nos anos 1970. Foto: Acervo Pessoal
Odete no escritório da Associação de Moradores da Grota, Complexo do Alemão. Foto: Acervo Pessoal

E lá do fundo da sala, um dos assessores do deputado disse: “viu, Léo, eu disse pra você que um dia ia encontrar alguém. Está aí, você acaba de encontrar”, se referindo a Odete.

Vale destacar que a energia, a água e até mesmo o primeiro campo de futebol no alto do Morro do Alemão chegaram por conta de diálogos diretamente estabelecidos com o governador da ocasião, Leonel Brizola.

“Senhor governador, eu estou administrando a associação e ela está como empresa, mas ela não é uma empresa. Assume a luz do ‘Complexo’. Falei Complexo porque era um pedido para todos e não apenas para a minha associação. Era muita pobreza e ninguém tinha condições de pagar luz.” — Odete Alves

Naquele período, era uma mulher inquieta e só parava quando seus pedidos eram realmente atendidos. Uma figura fundamental para o Complexo do Alemão e para a história das favelas do Rio de Janeiro.

“Odete é uma referência muito maior do que a gente pode imaginar, pois ela assume o posto de um prefeito dentro da comunidade e corre atrás de muitas coisas. Ela foi um ponto de partida para a gente ter o que tem dentro da comunidade. Ela ia pras reuniões, batia de frente com o prefeito, sempre teve aquele vozeirão, aquela força para lutar pelos objetivos dela, pelos objetivos da comunidade.” — Lucia Cabral

A Luta de Mariza Nascimento pela Saúde no Morro do Adeus

Assim como Dona Odete, Mariza Nascimento, esteve à frente das mais importantes lutas do Complexo do Alemão. A pesquisadora Natalia Fazzioni, em um dos capítulos do livro Vida Social e Política nas Favelas apresenta a importância de Mariza Nascimento para o CPX:

“A trajetória pessoal de Mariza permite mostrar como se desenvolveu o processo de mudança nas mobilizações sociais e nas políticas públicas em saúde voltadas para esta região da cidade entre os anos 1980 e 1990. Mariza participou ativamente do Grupo Executivo Local (GEL), que reunia uma série de lideranças comunitárias da Zona da Leopoldina e recebia ainda apoio de pesquisadores de instituições como Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e UFRJ. O grupo se reunia no Posto Américo Veloso, na Praia de Ramos e, posteriormente, em 1994, após a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), esteve totalmente articulado à criação do Conselho Distrital de Saúde (CDS) da Área Programática (AP) 3.1. Mariza acabou se tornando vice-presidente do CDS e, anos depois, tornou-se a primeira presidente do Conselho Comunitário de Saúde do Complexo do Alemão (CONSA).”

Mariza na laje de sua casa no Morro do Adeus, Complexo do Alemão, em 2021. Foto: Nathalia Menezes
Mariza na laje de sua casa no Morro do Adeus, Complexo do Alemão, em 2021. Foto: Nathalia Menezes

Dona Mariza Nascimento, 76 anos, nordestina do estado da Paraíba, chegou ao Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, nos anos 1970. Apesar de ter trabalhado como doméstica por uma década, ela havia sido professora no Recife e nunca abandonou sua crença na luta por direitos, no poder político e na educação. No entanto, não foi fácil no início. Suas expectativas eram umas e a realidade outra:

“Cheguei no Morro do Adeus, chovia muito e era noite. Eu não sabia que era desse jeito, achava que o Rio de Janeiro era outra coisa, não esse morro, cheio de lama e muitas dificuldades. Muito ruim mesmo.”

Com o tempo, a ideia de transformar aquela realidade foi amadurecendo. Sua contribuição para a formação da Associação Comunitária do Morro do Adeus foi significativa, ela carregou tijolos e literalmente liderou a obra. Foi a primeira representante feminina da Região Administrativa do Complexo do Alemão. Dona Mariza personifica a resiliência e a visão transformadora que as mulheres trouxeram para a construção social e política dessa comunidade.

“Quando eu comecei mesmo na batalha foi em 1980, quando os homens se juntaram para construir o prédio da Associação dos Moradores. Daí, juntamos um grupo de mulheres e criamos a comissão feminina, que passou a dar todo apoio aos homens que trabalhavam na obra. A comunidade toda se juntou para ajudar, carregando tijolos, cozinhando, era muito bonito ver toda aquela mobilização.” — Mariza Nascimento

O diretor-geral do Instituto Raízes em Movimento, Alan Brum, que começou seus trabalhos ainda como professor no final da década de 1990 no Complexo do Alemão, diz o seguinte sobre dona Mariza: 

“Conheci Mariza assim, de uma forma espetacular, na atuação dela na luta pela saúde. Mas ela já tinha uma luta enorme pela criação da Região Administrativa do Complexo do Alemão, onde ela foi a primeira administradora regional. É uma liderança que eu tive o prazer de atuar conjuntamente, diante da fundação do CONSA, o qual a gente constituiu para fazer a cogestão dos primeiros trabalhos dos agente comunitários de saúde do primeiro posto de saúde do CPX. Então, ela sempre foi uma pessoa que pensou coletivamente, sobretudo, na luta pela saúde no Complexo do Alemão.”

Primeira edição do jornal Consa (Conselho Comunitário de Saúde do Complexo do Alemão) distribuído no ano 2000. Foto: Acervo Pessoal
Primeira edição do jornal Consa (Conselho Comunitário de Saúde do Complexo do Alemão) distribuído no ano 2000. Foto: Acervo Pessoal

Arreda Homem que Aí Vem Mulher!

Todo trabalho social no Complexo do Alemão se inspira no legado dessas mulheres e entende a importância dessas mulheres para a região. Elas enfrentaram inúmeras batalhas, mas suas vitórias reverberam até hoje pelas ruas do Complexo do Alemão. Seus legados estão entrelaçados com as conquistas da comunidade, desde melhorias de infraestrutura até avanços nos direitos e na representação política. A força e a determinação dessas líderes inspiram gerações e destacam a importância vital das mulheres na história política e social das favelas cariocas.

O pesquisador e sociólogo Thiago Matiolli, em conversas com Mariza para seu dissertação de mestrado, contou que não entrou muito em certos detalhes, pois a memória dela [Mariza], não alcança tanto… mas quantas lideranças se desenvolveram sob a orientação dela nas décadas de 1980 e 1990… quantos já foram orientados, não só política, mas academicamente também, quantas análises, reflexões e visões de mundo foram produzidos a partir da visão que Mariza tinha e tem sobre as coisas”.

A trajetória dessas mulheres não apenas ilustra suas lutas pessoais, mas também ressalta a importância do papel feminino na construção de comunidades resilientes e empoderadas. Odete Alves e Mariza Nascimento são símbolos de resistência e superação no Complexo do Alemão, o que só demonstra como as mulheres moldam e determinam o tecido social e político de suas comunidades. Suas contribuições são um testemunho vivo da capacidade transformadora e da determinação inabalável das mulheres em meio a desafios e adversidades.

São figuras históricas, não só do Complexo Alemão, mas da cidade do Rio de Janeiro, do país… Portanto, falar dessas lutas é falar, sobretudo, da história urbana do Rio de Janeiro.” — Thiago Matiolli

Sobre o autor: David Amen é cria do Complexo do Alemão, jornalista, cofundador do Instituto Raízes em Movimento e do Coletivo Classe-D. É grafiteiro, ilustrador e videomaker.


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