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Melhores e Piores Reportagens Internacionais sobre as Favelas do Rio em 2014

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2014 foi um ano sem precedentes para a cobertura das favelas do Rio de Janeiro na mídia internacional, com a Copa do Mundo e as futuras Olimpíadas de 2016 realçando com cada vez mais destaque os desafios da cidade. O RioOnWatch trabalhou para dar apoio a jornalistas estrangeiros ao fazer matérias sobre as favelas, fornecendo informações e contatos com o objetivo de facilitar as observações sobre o Rio e reflexões precisas das visões sobre a comunidade. Nós também monitoramos o conteúdo e a qualidade dos artigos produzidos em inglês ao redor do mundo ao longo do ano. Muitos artigos destacaram questões críticas e complexas que o Rio enfrenta hoje, fornecendo perspectivas diversas e contando histórias antes pouco conhecidas. Notamos uma diminuição animadora de palavras como “slum” ou “shantytown” para descrever as favelas. Essa é uma tendência fantástica, uma vez que o estigma profundamente enraizado associado à “linguagem de slum“, em inglês, obstrui os esforços de aproximar as favelas como comunidades com desafios e soluções em potencial. No entanto, 2014 ainda teve um número de artigos que visavam introduzir os leitores estrangeiros às favelas sem oferecer a perspectiva dos moradores, e como resultado, perpetuando velhos estigmas. Em um contexto onde direitos e serviços têm sido historicamente negados com base no preconceito, tais reportagens podem ter consequências negativas de vasto alcance. Aqui, examinamos algumas das piores reportagens sobre as favelas cariocas de 2014 e destacamos algumas que julgamos contribuir melhor para a discussão. As imagens usadas são as que acompanham os artigos originais.

AS PIORES

Fox Sports — ‘Lindo Caos’ por Adam Peacock: Favelas do Rio são como visitar outro mundo

Em dezembro de 2014, a Fox Sports publicou um relato sobre a visita de um escritor ao Complexo do Alemão. O relato não mostra qualquer perspectiva direta dos moradores da favela. Ao contrário, é inundada por citações de um funcionário de uma ONG irlandesa-australiana que, durante a Copa do Mundo, era frequentemente procurado para informações sobre a realidade das favelas por jornalistas de língua inglesa. A ausência de outras perspectivas deixa Peacock fazer generalizações radicais que estigmatizam a população. “Os pais estão ou desesperados tentando sobreviver, ou, mais provavelmente, enredados pela dependência das drogas”, escreve ele, insinuando que a maioria dos pais na favela são dependentes, ainda que não tenha dados para comprovar isso. Enquanto isso, a imagem de crianças felizes e ingênuas com pés descalços e “vestindo roupas esfarapadas” retrata um nível de pobreza que existe no Complexo do Alemão, mas que não é a média. A comunidade, aliás, é cada vez mais habitada pela classe média baixa de consumidores e novos empresários, incluindo o primeiro shopping center da área. Para Peacock, no entanto, as “histórias e os sinais” que ele encontrou “deprimem a alma, que é ainda mais esmagada ao perceber que essa é apenas uma entre milhares [de favelas] no Brasil”. Peacock se junta a muitos jornalistas que reportaram com base em suas próprias emoções, à medida que andavam pelas favelas sem mostrar nenhuma perspectiva da comunidade. Um escritor do Irish Times descreveu a favela que visitou como “um ambiente tão tênue e tão hostil que é de se admirar que qualquer um consiga perseverar”, mas não investiga como os moradores perseveram, ou se eles têm algo positivo a dizer sobre seu ambiente. Infelizmente, esse tipo de reportagem, onde os preconceitos do próprio jornalista, suas expectativas e impressões limitadas são projetadas em sua representação do lugar, desperdiçam a oportunidade de dar uma plataforma às vozes e ideias dos moradores da favela, que já lutam para serem ouvidos em debates sobre suas próprias vidas.

The Daily Beast — Os milionários da vida real do morro do Rio

Esse artigo de título infeliz do The Daily Beast relata que a melhoria da segurança trazida pelo programa do governo das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) transformou os moradores de propriedades com vista para o mar do Vidigal em uma “nova legião de magnatas não-intencionados do setor imobiliário”. O autor se questiona se os moradores devem “vender agora e ganhar milhões, ou segurar e esperar por uma chance de ganhar ainda mais”. Sem dar uma única citação de um morador do Vidigal, o autor presume que os moradores devem estar buscando fazer esse papel neste “jogo final da roleta imobiliária” e vender seu lugar na comunidade que ele retrata como um ambiente indesejável de moradia. No entanto, como exemplos de favelas em toda a cidade demonstraram, muitas pessoas escolhem recusar quantias significativas de dinheiro para continuar em suas comunidades. Não reconhecer as qualidades da favela, como esse artigo faz, leva à políticas que buscam remover bairros inteiros ao invés de trabalhar com os moradores para melhorá-los. Além disso, o autor deixa de explorar as consequências da especulação imobiliária sobre os inquilinos de aluguel na comunidade, nem a realidade de que, ao invés de uma mina de ouro imobiliário, as favelas do Rio de Janeiro representam o mercado de habitações a preço acessível da cidade e estão designadas como ‘zonas de especial interesse social’. O autor não fornece um único exemplo de um morador que tenha vendido sua casa por milhões. Ao glorificar as oportunidades do novo mercado aos moradores, o artigo minimiza as reais ameaças da gentrificação e os esforços do Vidigal de debater e formular respostas lideradas pela comunidade a esse fenômeno.

Gulf Times — Chamada de um médico na favela

No início da Copa do Mundo vários veículos de mídia publicaram as reflexões de um doutor dos Estados Unidos que visitou a Rocinha, entre eles o Gulf Times, o Counterpunch, Japan Times e outros, levando à circulação dessa reportagem entre diferentes audiências durante o evento. O médico apresenta informações que são tanto falsas–como seu comunicado de que a polícia é “normalmente incapacitada de entrar nas favelas”, como estigmatizantes–como, por exemplo, afirmar que “favelas abrigam muitas pessoas envolvidas no comércio das drogas e outros crimes”. O doutor achou que seria um artigo menos convincente se admitisse que 99% dos moradores da favela não estão diretamente envolvidos com o tráfico de drogas? Sua história sobre ter que checar com os homens de cada “nível” da favela para “alcançar o próximo nível vivo” simplesmente não reflete a experiência de visitantes a Rocinha. É infeliz que essa história sensacionalista tenha ganhado múltiplas plataformas de onde influenciar leitores em todo o mundo.

AS MELHORES

Next City — Guetos da Copa do Mundo

NextCityPublicada no início da Copa do Munda, essa pesquisa abrangente reúne entrevistas, extensivos dados geoespaciais e de habitação, e contexto histórico pertinente para garantir uma exploração profunda do atual estado dos projetos de deslocamento e habitação no Rio. Logo no início do artigo está o depoimento de uma família que foi transferida de sua casa na favela Vila Recreio II para um conjunto habitacional. O resultado é uma forte crítica ao Minha Casa Minha Vida e uma importante coleção de provas para desafiar o governo e a mídia brasileira tradicional, que somente elogiam o programa. A mesma autora escreveu outro artigo dentre os favoritos, entitulado “Esse bairro precisava de um sistema de saneamento básico, mas ganhou um teleférico“. Este artigo é um grande exemplo de como relatar as mudanças significativas que enfrentam as favelas sem cair no erro comum de estigmatizar os moradores ou enfatizar pontos de vista de fora. A autora primeiro fornece um número de fatos: “O Alemão é o bairro com o menor índice de desenvolvimento humano (IDH) na cidade do Rio de Janeiro. Aqui, as pessoas vivem em média sete anos a menos que os moradores do resto da cidade. Tuberculose é um problema, e muitos moradores perdem aula e trabalho devido à doença”. A autora então enfatiza os modos em que os líderes das comunidades estão agindo–realizando petições online, lotando fóruns públicos e as iniciativas educacionais inovadoras–e fornece citações de moradores que propõem soluções.

NPR — No Brasil, raça é uma questão de vida ou morte

NPREscrever sobre violência e dissecar questões de raça é sempre uma tarefa desafiadora para jornalistas, e esse artigo serve como um exemplo excelente de pesquisa diligente e conversas produtivas. A autora chama a atenção para a incidência de violência policial que ocorreu um dia antes da Copa do Mundo, mas que foi amplamente ignorada pela mídia internacional. Ela contextualiza o evento com as estatísticas nacionais chave, com citações de uma gama diversificada de fontes, e uma descrição da sua visita à Maré, onde a vítima da polícia morava. Ela usa sua visita para descrever a experiência de entrar na favela como visitante e narra uma conversa com um morador–pai da vítima. A autora observa: “A cada esquina, um grupo nos observa… Caminhões carregados com tropas de capacete e fortemente armadas andam pelas ruas. Há uma sensação de guerra, não de uma operação de policiamento”, o que contrasta fortemente com o relato que implica que as operações policiais têm objetivos civis, enquanto evita as armadilhas da especulação com base em expectativas pré-existentes. Os diferentes aspectos de sua pesquisa se combinam de forma eficaz para fazer um argumento importante: de que a segurança no Brasil deve ser considerada no contexto das desigualdades raciais. Esse é o primeiro artigo a anunciar uma estatística crítica na compreensão das tendências no Brasil de hoje: “O Brasil, na verdade, ficou muito mais seguro para pessoas brancas. Na última década, homicídios entre os brancos diminuíram em 24%. Mas, entre a população negra, têm aumentado 40%.”

Outras boas reportagens

Outras grandes contribuições sobre as favelas e o Rio em 2014 incluem o estudo informal do arquiteto Solène Veysseyre sobre as “Regras Não-Ditas da Construção da Favela“, o argumento de Simon Jenkins por uma Olimpíada de tamanho reduzido, para minimizar os impactos sobre as favelas e o resto da cidade, e a análise de Vac Verikatis sobre os impactos da Copa do Mundo no The Daily Beast. Houve também um campo emergente de artigos que abordam as favelas como locais com qualidades merecedoras de reconhecimento, incluindo reportagens do The Age, The Independent, Gizmodo, e Generation C Magazine. Artigos como este, do GlobalVoices, dão espaço para fotografias produzidas pela juventude da favela, em busca de representar a comunidade através de suas próprias lentes. Além disso, houve um grande número de escritores e veículos que, ao longo do ano, cobriram questões no Rio com sensibilidade e representações produtivas, tais como: Julia Michaels no RioReal, Dave Zirin no The Nation, Rachel Glickhouse no RioGringa, Chris Gaffney em Hunting White Elephants, Favelissues, e o blog Favelas@LSE.