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A Linguagem da Favela Parte 2: O Dialeto e o Estigma

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Essa é a segunda de uma série de três partes sobre a linguagem falada nas periferias do Rio de Janeiro. Não deixe de ler a Parte 1 e a Parte 3.

No Rio de Janeiro, as representações dominantes na mídia e na cultura popular representam as favelas como centros de crime, drogas e violência. A percepção dominante é que as favelas são um problema para a cidade. Estas posições impõem às comunidades e seus moradores um estigma de exclusão e criminalidade pressuposta, encorajando os membros da elite de se distanciarem e discriminarem essas comunidades mais pobres.

Em agosto, por exemplo, 15 jovens de favela foram detidos enquanto iam para a praia por conta da aparência deles, simplesmente. Um jovem de 17 anos do Jacarezinho, na Zona Norte, disse: “Tiraram ‘nós’ do ônibus pra sentar no chão sujo e entrar na Kombi. Acham que ‘nós’ é ladrão só porque ‘nós’ é preto”.

Esse grande abismo social é refletido e também perpetuado pela linguagem. Conforme dito na Parte 1, o dialeto padrão de uma região é definido pelo grupo social dominante. Diferentes dialetos pela cidade indicam imediatamente a classe social do interlocutor, significando que aqueles que falam os dialetos periféricos, como a linguagem da favela, acabam carregando este estigma negativo associado à sua comunidade onde quer que abram a boca. Os ricos que falam o linguajar padrão conseguem mascarar esse preconceito utilizando um padrão linguístico que exclui os dialetos falados em comunidades carentes. Isso os permite excluir os moradores dessas comunidades da sociedade, preservando o status-quo social.

É importante ressaltar que ter uma linguagem padrão e regulada em uma região não é o problema: as pessoas precisam disto para se comunicarem de forma efetiva, para entender os sistemas políticos e legais, e para acessar a mídia e a cultura literária que integram a identidade nacional. Entretanto, a ideia que existe apenas um meio legítimo de se comunicar é problemático e excludente. A Academia Brasileira de Letras, por exemplo, foi fundada em 1896 por um grupo de 40 escritores e poetas e é uma sociedade sem fins lucrativos encarregada de “cuidar da língua portuguesa”. Sua primeira publicação é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que funciona de forma similar a um dicionário: logo, se as palavras não estiverem incluídas no Vocabulário Ortográfico, são consideradas “erradas”. Uma lista de vocabulário desenvolvida por membros da elite literária não é necessariamente uma forma de opressão. O problema vem da forma como esse conceito refinado de linguagem é explorado para discriminar e excluir as pessoas que não têm acesso às mesmas condições de serviços e oportunidades.

Os ricos que falam o linguajar padrão conseguem mascarar esse preconceito utilizando um padrão linguístico que exclui os dialetos falados em comunidades carentes. Isso os permite excluir os moradores dessas comunidades da sociedade, preservando o status-quo social.

Para Alexandre Lucena, conhecido como Play, morador da favela de Acari na extrema Zona Norte, a linguagem anda de mãos dadas com a exclusão social: “Se eles não nos aceitam como pessoa, como eles vão aceitar nossa linguagem como válida? Então começa daí. Na Zona Sul eles não me aceitam, porque eu tenho um jeito de falar, uso gíria como palavra. Mas meu dialeto é esse, não tem como mudar. Justo por isso, eles não me aceitam”.

Play faz eco ao argumento do linguista Dennis R. Preston que escreveu que “ninguém tem uma linguagem ‘fora do padrão’ ou ‘abaixo do padrão’, ao menos que eles sejam classificados como seres humanos ‘fora ou abaixo do padrão”. A distinção entre um modo ‘certo’ e ‘errado’ de falar português pode ser uma forma simples de racionalizar a discriminação e a desumanização trocando o foco para a linguagem, a qual os membros das classes mais ricas usam de forma a demonstrar superioridade e de se segregarem das populações pobres. Em uma entrevista sobre o assunto, um funcionário público expressou uma visão bastante comum: “Agora quem nasceu aqui e cresceu, se não sabe falar a conjugação certa do português é porque é ignorante e porque não teve estudo. Tá falando uma outra língua, tá falando português errado”.

Desqualificar a linguagem da favela como “errada” rotula seus interlocutores como quem não pertence, e nega sua participação na mesma sociedade. O entrevistado continuou: “O português é uma língua muito difícil. O português tem muitas chances de você errar. Cada verbo tem 20 conjugações diferentes”. Isto dá espaço para o julgamento da capacidade intelectual dos interlocutores ‘abaixo do padrão’, contribuindo para maior exclusão e estigmatização.

O medo da ruptura da ordem social existente afasta a linguagem da favela de ser aceita e faz com que os membros da elite insistam no uso ultraconservador das regras gramaticais. Mano Zeu, um poeta da Zona Norte, disse: “Os caras ainda vão fazer muita resistência para aceitar, e assimilar, e absorver a nossa linguagem porque para eles é entendida como regresso. Muita gente fala isso”. Ironicamente, um dos efeitos da exclusão é a continuidade da falta de acesso às ferramentas educacionais necessárias para a adoção do dialeto padrão.

O problema vem da forma como esse conceito refinado de linguagem é explorado para discriminar e excluir as pessoas que não têm acesso às mesmas condições de serviços e oportunidades…Ironicamente, um dos efeitos da exclusão é a continuidade da falta de acesso às ferramentas educacionais necessárias para a adoção do dialeto padrão.

O estigma impede que a linguagem das favelas seja vista como nada mais que uma corrupção do português dominante. As formas com que ela quebra as convenções linguísticas são lidas como sinais de desordem e de caos mais do que de criatividade e inovação. As realidades da vida nas favelas que se refletem nas formas não-ortodoxas de linguagem inspiram medo ao invés de compreensão. Interjeições como “bum”, “pum”, “bá” e “pá” imitam sons de tiros e socos, por exemplo, o que acaba por assustar os ouvintes de fora da comunidade ao invés de comunicar como é naturalizado o ambiente de violência no qual os moradores vivem.

Como resultado, a distinção entre os moradores e as facções criminosas que controlam algumas comunidades é usualmente ignorada. Em julho desse ano, um jovem foi preso por estar cantando uma música de funk. A canção descrevia a tensa relação entre a polícia e as facções criminosas na favela de Cidade de Deus, e cantá-la em público foi considerado apologia ao crime pelos policiais que realizaram a prisão.

O funk é uma expressão da vida na favela utilizando a linguagem da favela, descrevendo a realidade do dia a dia que inclui o tráfico de drogas, presença constante em algumas comunidades. Ao invés de ser entendido como uma natural e inevitável expressão dessa realidade, o funk é geralmente julgado como um endossamento da criminalidade. Essa estigmatização ficou explícita com a prisão do MC Didô do Complexo do Alemão, em dezembro passado, quando um representante da polícia explicou que “quando um MC vai a um baile funk e canta o nome do Comando Vermelho, ou o nome da facção, ele está trabalhando para os traficantes”.

A distinção entre um modo ‘certo’ e ‘errado’ de falar português pode ser uma forma simples de racionalizar a discriminação e a desumanização.

Uma indisposição em olhar para além dos esteriótipos dominantes impede que os falantes dos dialetos periféricos sejam integrados à sociedade. A estigmatização da linguagem retira o direito à uma visão positiva sobre si mesmo, conforme Play explica: “Meu corpo aguenta um tiro de fuzil mas minha moral não sustenta alguém falando ‘não, tu tá errado’”. Entretanto, conforme a Parte 1 explicou, a linguagem da favela demonstra a resistência à exclusão e permite que os moradores reafirmem sua identidade e se posicionem como membros inteligentes e resilientes da sociedade.

“A linguagem é uma concepção que é fundamentada nos pilares da divisão de classe. Ela só vai ser aceita, só vai mudar, quando a gente mudar um pouquinho esta realidade,” diz Wesley DelírioBlack, um rapper de Acari. Felizmente, conforme a linguagem da favela ganha mais exposição pelas artes, tais como a literatura, a música e a poesia, ela ganha maior reconhecimento e aceitação. A Parte 3 irá discutir o processo e o modo como essas formas de arte estão legitimando as linguagens periféricas.

Essa é a segunda de uma série de três partes sobre a linguagem falada nas periferias do Rio de Janeiro.

Gitanjali Patel é graduada em Espanhol e Português pela Universidade de Oxford e atualmente trabalha como pesquisadora especializada em linguagem, cultura e sociedade brasileira. Ao longo dos últimos anos vem pesquisando estratégias anti-corrupção na America Latina.