Enquanto eu subia o Morro da Babilônia, pelo lado do Leme com vista para Copacabana, fui surpreendido pela pura beleza desta comunidade. Ao contrário de muitas das favelas aqui no Rio, Babilônia tem largas estradas pavimentadas com árvores delineando  as calçadas e uma paisagem que me deixou paralisado. Enquanto meu amigo e eu subíamos para nos encontrar com o diretor da cooperativa de reflorestamento da Babilônia, CoopBabilônia, ambos concordamos que esta seria uma comunidade que ficaríamos felizes de chamar de lar.

Assim como muitas outras comunidades aqui, Babilônia foi designada pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro para o projeto Morar Carioca. Com o slogan “Uma cidade para todos,” o projeto visa integrar os bairros formais e informais do Rio de Janeiro.

Quando entrevistamos César, diretor da cooperativa, ele explicou que o Morar Carioca foi bem recebido pela maioria dos moradores. De acordo com o panfleto que detalha a execução do projeto, Babilônia receberá 14.501 m2 de estradas pavimentadas, uma moto via nova, que irá facilitar o transporte para os moradores, 260 novos postes de luz, melhoria no sistema de água tratada e esgoto; e muito mais. De acordo com César, o Morar Carioca permitirá que a cooperativa expanda seu projeto de reflorestamento de 12 anos.

 

Também como parte do Morar Carioca, 60 casas perto do topo da comunidade foram marcadas para serem deslocadas a fim de estabelecer um eco limite e restringir a expansão futura da comunidade para o alto da encosta. Esses moradores serão transferidos para os prédios de apartamentos recém-construídos na parte inferior do morro, dentro da comunidade. Ao contrário da maioria das favelas, no entanto, o Morro de Babilônia foi construído de cima para baixo, fazendo das casas mais velhas e mais bem construídas as que estão no topo. Como resultado, a zona de proteção ambiental estabelecida pela cidade no topo do morro irá levar à remoção das casas históricas mais antigas e mais estabelecidas da comunidade.

As pessoas que vivem nessas casas mais antigas são muitas vezes membros mais idosos da comunidade. Depois de terem vivido na mesma casa por toda suas vidas, muitos deles estão sendo deixados sem escolha a não ser aceitar os minúsculos apartamentos  do Morar Carioca como compensação. Uma casa, que tem quase 100 anos e viu três gerações de uma família está programada para ser demolida; e mesmo assim, não houve a participação ou consulta dos moradores, como seria necessário.

Os moradores escolhidos para remoção (aproximadamente 10%) estão chateados, e por isso criando tensão com a maioria dos que apoiam a entrada do programa Morar Carioca na comunidade.

Embora ainda não abordados pelos moradores da Babilônia, a ameaça iminente de gentrificação já está no horizonte. Uma pousada na comunidade esta atraindo turistas estrangeiros que desejam combinar a verdadeira “experiência da favela” com a proximidade às praias nobres do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo assegurando o apelo visual e de segurança que Babilônia pode oferecer com o seu programa de reflorestamento e recém-instalada UPP força policial comunitária.

Por curiosidade liguei para saber o preço de uma propriedade que estava a venda, e soube que foi listada por R $ 2 milhões (1,25 milhões dólares EUA).

Apesar de todas as grandes coisas que o Morar Carioca prometeu ao Babilônia, em nenhum lugar na lista está a garantia de que os residentes de longa data poderão usufruir destes investimentos. Em nenhum lugar do programa está garantido que a comunidade será economicamente viável ou acessível às famílias de baixa renda. Isto, apesar do programa ter recebido  $150 milhões de dólares (EUA) do Banco Interamericano de Desenvolvimento para “melhorar as condições de vida em bairros de baixa renda.” A linguagem do programa Morar Carioca sempre fala de integração de bairros, e não a integração dos residentes, no tecido da cidade. E sem políticas que garantam que os moradores existentes podem ficar, é provável que a integração será realizada através de um atalho: expulsando os moradores mais pobres.

Na verdade, a gentrificação é cada vez mais aparente em favelas da zona Sul do Rio de Janeiro. Tomamos como exemplo a favela do Cantagalo, localizado na colina acima de Ipanema, um bairro rico na Zona Sul do Rio de Janeiro. Quando a prefeitura tomou a decisão de instalar um elevador, os moradores aprovaram. Isso simplificaria as tarefas diárias e integraria a comunidade de maneira suave com a cidade abaixo. Porém com o desenvolvimento do projeto e um elevador chamativo instalado, seguidos por dezenas de jovens estrangeiros procurando casas na comunidade, perguntas começaram a aparecer.

Sem garantias de habitação a preços acessíveis, o Morar Carioca e outros programas de urbanização, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal,  podem equivaler a uma estratégia para acelerar a gentrificação em uma cidade que já é uma das mais caras do mundo, e aonde a procura de propriedade em praias é insaciável.

Assim como me ocorreu que o Babilônia seria um lugar maravilhoso para viver, não há nada impedindo  outros, sejam brasileiros jovens de classe média ou estrangeiros, de alugar ou comprar uma casa embora sem intenção de expulsar os moradores originais para comunidades distantes onde os problemas só seriam piores e seu potencial de integração menor. Isso em uma cidade que vai contra a tendência do Brasil de 11 anos na redução da desigualdade de renda. Desigualdade no Rio de Janeiro manteve-se a mesma durante 17 anos. Migração forcada das favelas da Zona Sul e Central só irá aprofundar essa divisão.