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Horto: História que tem raiz

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Localizada à sombra do Cristo Redentor, a comunidade do Horto, na Zona Sul do Rio foi fundada por trabalhadores do Jardim Botânico–estabelecido em 1808–que receberam permissão para se assentarem no terreno adjacente ao parque com suas famílias.

No entanto, a história da comunidade não se inicia aí. As primeiras pessoas a viverem permanentemente na área eram escravos indígenas do século 16, que foram usados como mão de obra nas plantações vizinhas. Infelizmente, historiadores ainda não têm informações se a terra foi colonizada por índios brasileiros antes mesmo do período colonial.

Emerson de Sousa, coordenador do Museu do Horto, mostra aos visitantes a construção sobrevivente mais antiga no Horto, construída por escravos indígenas. As estimativas sugerem que a edificação é datada da primeira plantação de cana-de-açúcar na área, cujo plantio se deu em 1575.

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Emerson também chama a atenção dos  visitantes para um livro de grande importância para a comunidade, publicado em 2005 e intitulado Cacos de Memória – experiências e desejos na (re)construção do lugar: o Horto Florestal no Rio de Janeiro.

Em 2001, como parte de um projeto colaborativo chamado Nossa História, em conjunto com a ONG Ler e Agir, moradores do Horto deram início ao  processo de revitalização do papel histórico da comunidade para os dias de hoje. Aulas de história oral foram ministradas para os jovens na comunidade, e de posse desse conhecimento, eles entrevistaram alguns membros mais antigos da comunidade, em um esforço para a reconstrução do conhecimento e para dar visibilidade à cultura local.

O projeto resultou em um documentário e o livro Cacos de Memória, que contém depoimentos e memórias de 30 entre os moradores mais antigos do Horto. Abaixo, uma amostra das citações do livro, demonstram a vivacidade do conhecimento histórico, tanto recente quanto antigo, entre os moradores mais velhos e os jovens que os entrevistaram.

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Citações do livro demonstram que as origens dos escravos no bairro visivelmente ainda influenciam a vida diária.

“Isso aqui [Morro das Margaridas] antigamente era tipo uma senzala. A casa aqui se chamava senzala, que é aquela casa alta ali onde eu morei. Aqui era uma casa só dividida. Os funcionários precisaram morar mais perto do trabalho aí dividiram a casa para quatro, cinco famílias de funcionários.” – Sr. Paulo Antunes da Fonseca, 60 anos.

“Aqui em casa sempre fomos tratados a base de ervas. Qualquer problema no fígado ou na barriga, mamãe sempre sabia uma ervinha para usar, e isso foi passando, passado para mim. Quando estou com algum problema no fígado não pense que vou tomar medicamentos alopáticos. Eu vou tomar boldo. Tem muita gente que me procura, aí eu receito. Pego cana do brejo, quebra-pedra, eles tomam o chá e ficam bons. Tem tudo aqui, muitas das que a gente usa, foram trazidas pelos escravos da África. Eles trouxeram sementes da África e foram espalhando por aqui. Tem muitas plantas que são de origem africana.” – Sr. Ismael Rego de Carvalho, 66 anos.

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Após o curto período de plantação de cana-de-açúcar, a terra foi ocupada por uma fábrica de pólvora antes do Jardim Botânico dar permissão aos seus trabalhadores para construírem suas casas, na área que hoje é a comunidade do Horto, para que eles e suas famílias pudessem viver mais perto de seu local de trabalho.

“O processo de ocupação, aqui no Horto, foi do próprio diretor do Jardim Botânico que botou o pessoal pra morar aqui. Aqui só morava funcionário, só funcionário. Houve uma tempestade que derrubou os eucaliptos que existiam no Caxinguelê. Então, foi onde os próprios funcionários tiraram aquela madeira toda. O diretor mandou levar as toras para o Jardim Botânico e deu madeira pra todo mundo fazer suas casas. […] E foi onde o próprio diretor deu moradia. Ninguém invadiu aqui.” – Sra. Elza Maria de Souza, 73 anos

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A comunidade do Horto também tem fortes raízes musicais, e muitos moradores se lembram da tradição do samba tocado por membros da comunidade, especialmente em blocos de carnaval.

“Aqui, no carnaval tínhamos blocos rivais, onde as pessoas do Horto não entravam no Balança e vice versa, por causa do bloco. Era muito rivalidade, uma coisa igual a Vasco e Flamengo. Mas não havia briga, havia discussão por causa do samba, se um estava mais bonito que outro. Sempre tivemos esse convívio gostoso de samba com as pessoas. As pessoas levavam muito a sério essa coisa de carnaval.” – Sr. Bernardo Marcello de Sousa, 82 anos

Infelizmente, como muitas favelas no Rio, o Horto tem enfrentado ameaças de remoção ao longo dos anos. Um morador se lembra do Sr. Luighi Schicarino (Lili), a primeira pessoa na comunidade a combater a ameaça de remoção, quando a construção de um condomínio estava planejada para a área na década de 60.

“Se não fosse o Lili não estava ninguém morando aqui. Lili foi o que tomou a frente, impedindo que isso aqui fosse derrubado. Eu não sei como ele conseguia impedir essas coisas. Nunca participei de nada. Eu sei que ele ajudava. Havia gente que não pagava imposto, e ele pagava para o pessoal.” – Sra. Ruth Batista de Almeida, 76 anos

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A atual Associação de Moradores do Horto, fundada em 1982, continua com a luta de resistência da comunidade contra à remoção.

O que marca a gente agora, é essa loucura. Eles ficam querendo colocar as pessoas na rua. Ficam fazendo esta safadeza, dizendo que somos posseiros. Gente que mora aqui há quase 100 anos. Isso é que prejudica. Ah, você fica preocupada! Acho uma injustiça social muito grande tirar as pessoas que estão no seu lugar, no seu habitat e jogar pra qualquer canto. É horrível isso!” – Sra. Cecília da Rocha, 70 anos de idade

O Museu do Horto recolheu documentos históricos para construir evidências de que moradores da comunidade têm o direito de viver em suas casas, um direito que eles mantêm desde 1800.

Apesar disso, o futuro da comunidade permanece incerto. Em março deste ano, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, juntamente com o Presidente do Jardim Botânico, anunciaram a remoção de 130 famílias do Horto, supostamente para expandir a área do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico. Mais recentemente, na semana passada, o Tribunal de Contas da União (TCU) deu 90 dias para que o Jardim Botânico removesse a comunidade.

No entanto, a comunidade está determinada a lutar contra a remoção, como tem feito desde os anos 60.

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O slogan “Horto: História que tem raiz” foi bastante visível em um dos protestos recentes da comunidade. A comunidade continua empenhada em celebrar sua história única e utilizar este forte sentimento de herança e direitos históricos como uma ferramenta na luta contra a remoção.