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Evento Inter-Religioso Celebra ‘Águas Sagradas’ da Baía de Guanabara

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A importância universal da água foi a alma do evento Diálogos Fé no Clima – Águas Sagradas, realizado no dia 3 de maio pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER) no Museu Histórico Nacional. O evento de quarta-feira à tarde foi público, mas fazia parte da Fé no Clima, uma conferência inter-religiosa para líderes religiosos e jovens de todas as Américas. O evento incluiu uma apresentação do pesquisador Breno Herrera sobre a história do ativismo pela Baía de Guanabara, um diálogo inter-religioso incluindo líderes umbandistas, evangélicos, judeus, presbiterianas e Iorubás, uma cerimônia inter-religiosa da água, e uma caminhada para a Baía de Guanabara com a participação de mais outras tradições religiosas.

A conferência começou com a apresentação de Breno Herrera sobre as consequências dos danos ecológicos nos pescadores da Baía de Guanabara–baía que virou infame por conta dos níveis extremos de poluição que ameaçaram os atletas Olímpicos–mas que foi uma vez visitada por Charles Darwin, que escreveu em 1823: “A Baía de Guanabara excede em sua magnificência tudo que o Europeu tenha visto em sua terra nativa”.

Breno citou o derramamento de óleo de 2000 como um grande revés para a indústria pesqueira da baía. Os pescadores ainda não foram compensados pelo dano, e os culpados não foram levados à justiça. Entretanto, o derramamento de óleo também estimulou a formação da AHOMAR (Associação Homens e Mulheres do Mar da Baía de Guanabara), associação de pescadores que protestaram e lutaram na defesa de grandes zonas de pesca e menos fontes de contaminação, tais como as da companhia petroquímica Comperj. A resistência deles tem sido intensa, porém a resistência de empresas interessadas tais como a Petrobras também tem sido intensa–pescadores ancoraram seus barcos na infraestrutura industrial na baía, e quatro ativistas foram assassinados durante a resistência. Aquelas demonstrações continuaram até 2013–e com a ajuda da pressão da mídia, a Petrobras mudou sua política. A AHOMAR ainda está ativa enquanto a comunidade pesqueira enfrenta novos desafios na Baía de Guanabara.

Breno explicou que como católico praticante, ele percebe que seu trabalho cruza com a filosofia ecológica do Papa Franciscoque prega que a preservação da natureza não é só para privilegiados que procuram proteger somente a beleza estética, mas para todos, porque a degradação ambiental é uma ameaça para a saúde pública, modos de vida tradicionais e ao acesso às necessidades básicas, incluindo água não poluída. O domínio corporativo pode trazer a degradação ambiental e a comercialização desses elementos imensuravelmente valiosos. Breno acredita que apesar de sua história, a Baía de Guanabara tem o potencial para ser um local onde “ecologia e justiça social podem se encontrar”.

Membros da plateia compartilharam histórias e experiências de suas comunidades, ecoando muitos dos temas de opressão e resistência da luta da AHOMAR na Baía de Guanabara. Breno aconselhou o público a resistir, destacando a organização, participação e protagonismo: “É fundamental que as comunidades afetadas se reconheçam como grupo, se reconheçam como comunidade, e formem um movimento, uma organização, uma associação… estas comunidades [de pescadores] afetadas foram convidadas a participar diretamente do processo de licenciamento, empreendimento que viria afetá-las”. Para Breno, protagonismo significa que “a participação desses grupos não pode ser participação acessória… A academia prestar informações científicas, fortalece esta luta, as religiões oferecem assessoria espiritual e existencial, mas nunca deve ser em substituição à voz dos próprios afetados… Pouco ouvimos quem de fato mais sofre”.

Breno também pediu para “prestar uma atenção especial às comunidades indígenas”, uma vez que essas comunidades têm mantido ecossistemas sustentáveis ao longo da história. Entretanto, Breno faz uma importante distinção que esta “atenção especial” não quer dizer que se deva colocar a carga total das questões ecológicas da região sobre as comunidades indígenas.

A fala de Breno foi seguida por um painel de discussão com líderes da comunidade nacional e internacional: Babalorixá Kola Abimbola, da comunidade de Iorubá da Nigéria, Mãe Flávia Pinto da comunidade da Umbanda do Estado do Rio de Janeiro, Pastor Ariovaldo Ramos da comunidade Evangélica de São Paulo, Pastor e eco-teólogo Neddy Astudillo da comunidade Presbiteriana dos Estados Unidos e Diane Kuperman, da comunidade Judaica do Rio de Janeiro. Os palestrantes discutiram sobre o papel da água assim como ela se relaciona com suas fés, e fazendo isso, perceberam que em todas comunidades religiosas, a água é uma parte integral das práticas espirituais e rituais e também da filosofia geral da fé da Terra, da criação e do mundo físico.

O Pastor Ariovaldo Ramos explicou que “a água é instrumento de ritualizar” e que sua forma física é um “símbolo da universalidade de Deus”. Babalorixá Kola Abimbola explicou como em Iorubá “a religião dos Orixás, na verdade é a adoração da natureza”, e que a forma física da água também representa sua universalidade–o conceito de divisão dos oceanos vai contra a filosofia dos Orixás. Kola Abimbola compartilhou uma história Orixá de um devorador que destaca a importância de respeitar a natureza. Diane Kuperman explicou que na fé judaica, a água está presente antes mesmo da criação, demonstrando sua importância espiritual e física. Para o representante Presbiteriano, Neddy Astudillo, “[Deus] se manifesta na natureza”, então o respeito e a piedade por ecossistemas e pelo meio ambiente são requisitos para respeitar o sagrado. Mãe Flávia Pinto, representante de uma comunidade local de Umbanda e líder da Casa do Perdão explicou que se a água é impura, a energia de um ritual à base de água fica comprometida. Ela explica que ter certeza de que o ambiente é limpo também faz parte da prática da espiritualidade na Umbanda: “Ao ofertar ao Orixá… [a oferenda] não vai para o lixo, nós vamos devolver para a natureza para que esse ciclo seja revivido. E naturalmente, isso também interferiu nas nossas práticas de oferenda em relação a água. De modo que a gente nunca teve o ato de entregar oferendas que tivessem elementos poluentes, perfume, champanhe, espelhos, qualquer coisa assim”.

Além de estabelecer um motivo espiritual comum de conservação da água, muitos relatores também descrevem questões políticas e sociais relacionadas à água em suas comunidades. Flávia Pinto explicou que simplesmente ter um sistema de colheita da água da chuva na Casa do Perdão aumentou a sensibilização do público para a questão da água limpa e de sua conservação demonstrando o quanto a água é necessária para seu uso diário. Do mesmo modo, ela espera que futuros líderes de empresas sejam capazes de canalizar seus valores espirituais tomando decisões socialmente e ecologicamente responsáveis. Ela explicou também como sua comunidade participa da limpeza de praias e cachoeiras.

Kola Abimbola rejeitou a categorização da água como um “recurso” porque o termo ignora que a água é acima de tudo “a fonte da vida”. Palestrantes e membros da plateia expressaram forte oposição à privatização da água ao redor do mundo e à sujeição dos elementos da natureza a um mercado flutuante. A relação entre os interesses de negócios estrangeiros e a privatização também foi referenciado como um obstáculo na luta da comunidade ao direito à água. Muitos palestrantes estavam em busca da água limpa com base na fé e em projetos de direitos humanos, além dos trabalhos religiosos, realçando o inevitável elemento político nos seus esforços baseados na espiritualidade.

Uma vez que a palestra terminou, o grupo se reuniu no pátio do museu para uma cerimônia inter-religiosa da água. Para começar, o público foi conduzido em uma versão de “Planeta Água”. Palestrantes e participantes tinham uma garrafa pequena preenchida com um copo de água trazida de sua cidade de origem, e um de cada vez colocou esta água em um grande vaso de vidro, nomeando seu local de origem. O vaso, preenchida com água de uma grande quantidade de locais das Américas, incorporou perfeitamente às diversas origens dos jovens participantes da conferência, que compartilharam suas visões globais de acesso à água e a universalidade da forma física da água.

Para concluir, os participantes da conferência e os líderes religiosos caminharam pela Baía de Guanabara juntos, passando o vaso entre diferentes líderes. O grupo parou ao longo do caminho para participar de rituais baseados em água liderados por diferentes fés, incluindo Budismo, Wicca e a tradição indígena Fulni-ô. A cerimônia culminou na Baía de Guanabara onde participantes colocaram a água do vaso na baía, integrando temas de justiça ambiental na Baía de Guanabara com vários rituais e rezas apresentados.

Durante sua fala, Flávia Pinto enfatizou que é tão fácil falar sobre problemas, mas agir é extremamente importante para transmitir a mensagem para os outros–“eu só estou dizendo que é bonito as vezes sentar e falar, mas é difícil dar o recado nesse caso… então criar consciência ambiental não é uma tarefa fácil”. Entretanto, as conversas de quarta-feira demonstraram aos jovens voltando para casa procurando agir em relação ao direito à água podem engajar suas comunidades religiosas e inter-religiosas na forma de redes de organização e apoio.