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Como o WhatsApp Virou as Eleições no Brasil de Cabeça para Baixo: Um Relatório de Autópsia

Foto: Allan White/ Fotos Públicas

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WhatsApp já foi visto como um simples meio de comunicação e compartilhamento de informação entre família e amigos. No entanto, as eleições no Brasil mostraram exatamente como—com desinformações correndo soltas e até grupos de família virando campos minados políticos—uma narrativa muito mais sinistra do que a plataforma ‘oferece’ está tomando forma.

Em um resultado tido por muitos como impossível sem o surgimento das mídias sociais e do WhatsApp como fonte de notícias política, os brasileiros elegeram resolutamente no dia 28 de outubro o candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL)—até pouco tempo um deputado federal do Rio de Janeiro pouco conhecido e praticamente sem tempo de TV durante a campanha eleitoral—derrotando o candidato do PTFernando Haddad. Uma grande parte deste resultado se deve à ascensão do WhatsApp como um espaço de partilha de informação em teoria democrático, ainda que não regulado, o que desafia diretamente a fortemente controlada primazia da televisão, rádio e jornais, uma tendência que parece improvável que seja revertida. Várias análises, compiladas, mostram que atores com intenções maliciosas, com a ajuda de usuários desavisados, corromperam a democracia através das massas, coordenando a propagação de mentiras através da plataforma.

O que faz do WhatsApp um vetor de desinformação?

Usado por quase 7 entre 10 brasileiros 95% de todos os proprietários de smartphones no país, o WhatsApp está por todo lado. Além de conversas diárias, usuários partilham histórias e memes com amigos, família e outras pessoas em conversas privadas e de grupo. Informações recebidas de fontes tão pessoais dão a impressão que sejam de confiança, mas as verdadeiras fontes de informação que chegam até o usuário pelo WhatsApp são extremamente difíceis de serem rastreadas.

Além da sua extrema popularidade como uma plataforma de troca de mensagens sem grandes ostentações, WhatsApp vende aos seus usuários a promessa de criptografia segura e privacidade. Ao contrário do Facebook, que monitora a informação publicada na plataforma (às vezes até informação privada), o WhatsApp é restrita até onde pode regular o uso, pois promete um alto grau de privacidade aos usuários.

O fardo de verificar os fatos fica por conta dos usuários, um fardo pesado num país onde mais da metade dos eleitores não completou o ensino médio e muitos são novos nas mídias sociais. No entanto, o problema não é só a alfabetização digital, mas também a falta de acesso a métodos legítimos para verificação das informações. Por mais grave que seja, muitos planos de celular no Brasil (principalmente os de celulares pré-pagos baratos) não incluem dados, mas oferecem aos seus usuários acesso exclusivo ao WhatsApp e Facebook como único ponto de entrada para a Internet, através de uma parceria com o Facebook. Isso reforça a supremacia das duas plataformas como fontes de informação e obstrui usuários de consultar outras fontes em tempo real para verificar fatos.

Importantes funcionalidades do aplicativo, como a criação de grupos e a função de encaminhamento, também tornam possível alcançar centenas ou até milhares de pessoas com alguns toques. Os grupos no WhatsApp, particularmente—sejam políticos e de outra naturezamuitas vezes são câmaras de eco que reforçam pontos de vista existentes, eliminam o pensamento dissidente e trabalham ativamente para deslegitimar o jornalismo tradicional.

Quais foram algumas das histórias falsas disseminadas pelo WhatsApp?

Histórias falsas e teorias da conspiração visaram os dois candidatos. A maioria das histórias sobre Haddad envolveram boatos alarmistas sobre comunismo (enfatizando ou falsificando ligações com Cuba e Venezuela) e reivindicações de que o Partido dos Trabalhadores queria sexualizar crianças, numa tentativa de reunir a cada vez mais poderosa bancada evangélica. Histórias falsas sobre Bolsonaro eram geralmente teorias da conspiração sobre sua saúde. No entanto, só Haddad foi vítima de uma campanha de desinformação em massa.

Algumas das histórias falsas ou enganosas mais amplamente disseminadas foram:

  • Uma história que Haddad escreveu um livro defendendo relações sexuais entre pais e filhos (não há nenhuma evidência).
  • Uma história que Bolsonaro fingiu o seu esfaqueamento quase fatal para ganhar suporte (não há nenhuma evidência).
  • Uma história sobre um “kit gay” que o Partido dos Trabalhadores planejava distribuir a crianças de 6 anos (este boato tem raízes em um programa educacional sobre direitos LGBT conhecido por “Escola Sem Homofobia”, que foi vetado pela ex-presidente Dilma Rousseff depois de reações negativas por evangélicos).
  • Uma foto de Dilma adulta com Fidel Castro (a foto de Castro é de 1959, na época Dilma tinha apenas 11 anos de idade).
  • Um tweet que Bolsonaro teria tido um câncer diagnosticado em segredo e não estaria saudável o suficiente para terminar um turno presidencial (não há evidências).

De onde vem as notícias falsas do WhatsApp?

Uma semana antes das eleições, a Folha de São Paulo expôs um esquema de Caixa 2no qual empresas compraram com milhões de reais “fake news” contra o PT para distribuição em massa no WhatsApp. O Caixa 2 é só uma peça do quebra-cabeça que confirma as suspeitas que significantes quantidades de informações errôneas foram orquestradas e que não foram somente o produto de discussões políticas orgânicas. Esse esquema violou a lei eleitoral brasileira por pelo menos três motivos: empresas são proibidas de fazer doações políticas, todos os gastos eleitorais devem ser declarados aos reguladores, e a compra de listas de números de telefone para disseminação de conteúdo é ilegal.

Após entrar e observar vários grupos pró-Bolsonaro no WhatsApp durante meses antes das eleições, David Nemer, professor assistente na Universidade de Kentucky, Faculdade de Ciências da Informação, observou que a real criação de desinformação vem de um subconjunto muito pequeno de “influenciadores” que não estão tecnicamente ligados a uma campanha. Nemer estima que só 5% dos membros nesses grupos realmente criam conteúdo—o resto simplesmente absorve ou reforça ativamente o conteúdo. Ademais, o professor Viktor Chagas, pesquisador da UFF, descobriu que números da Arábia Saudita, Índia, Paquistão, Estados Unidos, Portugal e outros países estrangeiros são propagandistas altamente motivados. “Estes números são uma minoria, mas eles são caracterizados por uma intensa atividade”, explica Chagas.

Como o WhatsApp realmente influenciou o resultado do primeiro e do segundo turno?

A verdadeira magnitude da influência do WhatsApp nas eleições, seja a informações verdadeiras ou falsas, é difícil de discernir e será estudada pelos próximos anos. Contudo, o consenso entre especialistas e observadores é que a influência foi significativa e que a campanha de Bolsonaro se beneficiou muito mais do que a de qualquer outro candidato.

No início das campanhas, era difícil até de imaginar a viabilidade de Bolsonaro como candidato devido a seu limitado acesso às mídias tradicionais. Céticos das mídias sociais e muitos analistas acharam que Bolsonaro seria prejudicado, pela falta da tradicional publicidade televisiva publicamente regulada, contra pesos pesados tradicionais como Geraldo Alckmin (PSDB) ou até mesmo contra Haddad, apoiado pelo suporte poderoso do PT. No primeiro turno, Bolsonaro recebeu só 1% ou oito segundos de tempo de TV, uma sentença de morte historicamente falando. Graças a uma coalizão de eleitores até duas vezes mais inclinada a ler notícias no WhatsApp do que os eleitores de HaddadBolsonaro ganhou 46% no primeiro turno (Haddad, em segundo lugar, recebeu 29% dos votos com 19% do tempo eleitoral de TV).

Enquanto propaganda falsa e enganosa foi disseminada sobre os dois candidatos, Bolsonaro foi quem mais se beneficiou disso. No escândalo do Caixa 2, empresas gastaram milhões de reais ilegalmente para apoiar Bolsonaro pelo WhatsApp. Não houve descobertas de esquemas desse tipo em apoio a outros candidatos. “[Bolsonaro] monopoliza os debates na maior parte dos 272 grupos que analisamos”, disse Fabrício Benevenuto, professor e fundador do Eleições Sem Fake, um projeto de monitoramento de desinformações. “Ele é o protagonista da maior parte das notícias, vídeos e memes que circulam [no WhatsApp].” Um estudo conduzido por pesquisadores da USP, da UFMG e da Agência Lupa, especializada na checagem de fatos, concluiu que mais de metade dos memes mais populares no WhatsApp eram falsos ou enganosos.

Como o WhatsApp reagiu ao uso indevido da plataforma?

Em agosto, o WhatsApp reduziu o número máximo de recipientes para encaminhar uma mensagem de 250 para 20 (20 números individuais, 20 grupos ou qualquer combinação). Essa mudança não foi específica para o Brasil. Foi parte de uma política global em resposta a uma onda de linchamentos na Índia motivada por rumores falsos espalhados pelo WhatsApp que levou a pelo menos 25 assassinatos.

Na sequência do divulgamento do esquema do Caixa 2, o WhatsApp prometeu trabalhar com as autoridades e candidatos para limitar a proliferação de informações falsas. O serviço acabou realmente por banir 100.000 contas, incluindo a do filho de Bolsonaro e senador pelo Rio, Flávio Bolsonaro (PSL), por disseminar mensagens em massa. Contudo, WhatsApp repetiu várias vezes que restrições além dessas, como restringir o tamanho de novos grupos ou limitar ainda mais o número de recipientes de mensagens encaminhadas seria “tecnicamente impossível”. WhatsApp também expressou preocupações graves em fazer quaisquer mudanças que violariam a privacidade dos usuários ou a liberdade de expressão, como o monitoramento de conteúdo em mensagens pessoais e de grupo.

Críticos acham a resposta do WhatsApp passiva, além de ser muito pouca e muito tarde. Os pesquisadores por trás do estudo da USP/UFMG/Agência Lupa responderam à alegação do WhatsApp sobre a impossibilidade técnica em um artigo de opinião no New York Times dizendo: “Na Índia demorou só alguns dias… O mesmo é possível no Brasil”. Especialistas que durante anos avisaram que o WhatsApp é um solo fértil para a desinformação dizem que o gerenciamento do WhatsApp foi distante e despreparado à medida que a crise se desdobrou.

O que pode ser feito para minimizar o dano causado pelo WhatsApp em futuras eleições no Brasil e pelo mundo?

Em termos de “soluções rápidas”, existem possíveis mudanças técnicas que ajudariam a restringir mensagens de massa e spam político. Os pesquisadores da USP/UFG/Agência Lupa desenvolveram recomendações: reduzir ainda mais o número de recipientes de mensagens encaminhadas de 20 para 5 (como na Índia); restringir o número de recipientes de novas mensagens; e limitar o tamanho de novos grupos. WhatsApp descartou essas recomendações como impossíveis de serem implementadas antes do segundo turno das eleições no Brasil, mas com mais tempo elas seriam prioridades da organização. WhatsApp também deve continuar a monitorar de forma vigilante atividades suspeitas e a remover robôs e atores maliciosos da plataforma.

A direção estratégica do WhatsApp a longo prazo é uma questão muito mais complexa que lida com questões fundamentais sobre o papel das comunicações móveis na sociedade contemporânea. WhatsApp é responsável pelo uso malicioso ou até criminal dos seus serviços? Como pode uma companhia fundada pelo princípio da comunicação simples e segura monitorar conteúdo sem se comprometer com a privacidade dos usuários?

Na Índia, sob pressão do governo indiano depois das mortes, o WhatsApp tomou passos no sentido de se responsabilizar, como publicar anúncios de página inteira em jornais, encorajando seus usuários a serem cautelosos e a checarem os fatos; lançando campanhas para a educação pública e trabalhando para construir uma equipe na Índia que lidaria com queixas. Se responsabilizar parcialmente pela educação dos usuários é um passo na direção certa, assim como a construção de equipes locais que podem cooperar mais agilmente com reguladores e pesquisadores do que uma equipe com base no Vale do Silício, isolado e longe de toda ação, poderia.

WhatsApp tem que servir de guardião contra a desinformação, mas a sociedade como um todo também compartilha a responsabilidade sobre um uso responsável. Em muitos sentidos, os problemas acompanhando o WhatsApp não estão meramente ligados ao aplicativo em si, mas mais à sua posição dominante no mercado e às perguntas relacionadas com a nossa adaptação a sociedade digital. Legisladores e reguladores, principalmente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também são culpados por terem sido pegos de surpresa nessa crise mesmo depois de anos de avisos de especialistas de comunicação e eleitorais. Jornalistas e verificadores de fatos independentes, que trabalham de forma vigilante e admirável para confrontar mentiras e decepções, precisam continuar expandindo sua influência numa era de mídias não-tradicionais. Por fim, indivíduos precisam entender que a internet não é um lugar seguro e confiável e precisam diligentemente procurar informações. Oportunistas ansiosos para manipular pessoas estão por todas as partes e informação que parece vir de confidentes confiáveis muitas vezes tem origens nefastas.