O Parque Olímpico de Londres

A Olimpíada de Londres do ano passado foi vista como um grande successo. Desde as cerimônias de abertura e fechamento de Danny Boyle até a tranquila organização dos jogos, o evento parecia representar um modelo de hospedagem de um mega evento, e apesar das reclamações do público britânico sobre os altos custos, e questionamento de sua utilidade para o país no decorrer até o acontecimento dos jogos, o país foi varrido por uma onda de orgulho nacional quando os jogos chegaram e passaram.

Mas e os impactos locais e o legado das Olimpíadas no Leste de Londres, o principal cenário dos jogos de 2012 e o Parque Olímpico?

Historicamente, o East End de Londres tem sido o lado mais pobre da cidade. No século XIX, a população de Londres cresceu rapidamente e o leste da capital ficou caracterizada pela concentração dos pobres urbanos e imigrantes que levou a criação de uma super população e a criação de slums (favelas muito precárias). As Docks (docas) no Rio Thames e as indústrias de construção de navios dominaram a economia e foram grande empregadoras na região nesta época, o ápice do império inglês com comodities chegando das colônias de todas as partes do mundo. O caráter gritty (áspero) da indústria do Leste de Londres prevaleceu mesmo depois da queda do império inglês e as docas declinaram na segunda metade do século XX, enquanto a área continuou sendo uma das mais pobres do país, casa para uma diversa mistura de imigrantes e comunidades britânicas de brancos.

A imagem do East End de Londres como um sinônimo de pobreza e precariedade tem sido explorada por empreiteiras nos últimos anos para implementar projetos agressivos de desenvolvimento urbano por empresas privadas, começando com a Canary Wharf nos anos 80. Para muitos comentaristas e ativistas locais, as Olimpíadas são a maior e mais recente oportunidade de especulação imobiliária num processo de gentrificação que está redesenhando o East End, expulsando as populações tradicionais da região.

Zona Residencial Clays Lane vista dos condomínios estudantis adjacentes hoje vazios, foto por Mike Wells

Julian Cheyne, 65, chegou para morar no Leste de Londres ha 35 anos. Por 16 ele morou na Zona Residencial Clays Lane, antes de ter sido despejado em 2007 para dar lugar ao Parque Olímpico. Clays Lane foi intencionalmente construída para abrigar pessoas solteiras vulneráveis, em diversos estilos de apartamentos, casas compartilhadas e bangalôs e era inicialmente operada como uma cooperativa. Um total de 450 moradores de Clays Lane foram removidos dos 2.5km de área que agora é o Parque Olímpico Rainha Elizabeth, junto com outra zona residencial, duas comunidades nômades e os comércios industriais da area.

Tendo acompanhado de forma ativa todo o processo Olímpico desde negociações prévias até o presente, escrevendo sobre e protestando contra o estilo de desenvolvimento que expele e marginalisa as pessoas locais, a conclusão de Julian é que em nível local, as Olimpíadas são basicamente um exercício em desenvolvimento de propriedade que desloca pessoas pobres e indústrias locais de terras valiosas.

Demolição da Torre Park Tower no Leste de Londres para as Olimpíadas

Olhando para o Parque Olímpico, onde ficava a sua comunidade antiga, ele diz: “A gentrificação está acontecendo no Leste de Londres e não é só por conta da Olimpíada. Mas a Olimpíada é um tipo específico de processo, porque você pega um grande pedaço de terra a um preço barato e delega a uma autoridade de planejamento o controle deste grande pedaço de terra.” Ele continua: “As Olimpíadas servem para encontrar parceiros na indústria de propriedade e (este grupo) pensar no futuro.”

A autoridade de planejamento para os Jogos Olímpicos e áreas adjacentes no Leste de Londres é a Corporação de Desenvolvimento de Legado. A LLDC foi criada em abril de 2012 sob a Lei do Localismo de 2011, e tem autoridade completa de planejar a área, substituindo os poderes tradicionais de planejamento dos conselhos distritais locais. O Comitê de Decisões de Planejamento da Corporação é presidido por Phillip Lewis, executivo-chefe da divisão de propriedade de Kirsh Group, uma empresa de investimentos, e é em grande parte composta de executivos da indústria de propriedade.

"Cidade de Quem? Jogos para Quem?" Protesto durante as Olimpíadas de Londres

O objetivo declarado da LLDC é a regeneração da área no Leste de Londres. Regeneração, um termo cunhado na década de 1980, é baseada no conceito econômico de Margaret Thatcher que investir a riqueza em uma área geográfica irá ‘escoar’ para os moradores mais pobres, para os quais é mais necessário. Anna Minton, em seu livro Ground Control: Fear & Happiness in the 21st Century, argumenta que essa é uma falácia e que os vastos centros comerciais, escritórios particulares e condomínios fechados criados sob as autoridades de planejamento urbano não testadas no Reino Unido até agora apenas serviram para cimentar as divisões sociais e econômicas: “Economias de escoamento não funcionam em nenhum dos lugares que visito, onde o mesmo modelo de crescimento econômico baseado no valor da propriedade crescente tem sido implementado. No entanto, este modelo sobrevive por causa das altas taxas de crescimento econômico que ele traz nos bons tempos, mesmo que os benefícios sejam repartidos de forma desigual, enraizando enclaves de pobreza, bem como a riqueza.”

As Olimpíadas, que apresentam uma enorme oportunidade para a reconstrução de uma grande área, são um veículo fundamental para este tipo de modelo, em que os pobres são expulsos ou deslocados. Um relatório publicado em 2007 pelo Centro de Direitos de Moradia e Expulsão financiado pelas Nações Unidas (COHRE) concluiu que, entre 1988 e 2008, as Olimpíadas têm deslocado mais de dois milhões de pessoas ao redor do mundo e são uma das principais causas da inflação imobiliária.

Em uma matéria para a revista Cease em abril de 2012, geógrafo econômico Ashok Kumar afirmou que essa é a verdadeira razão para as cidades licitaram para sediar as Olimpíadas, dizendo: “Qualquer leitura da história Olímpica revela os verdadeiros motivos de cada cidade hospedeira. É a necessidade de chocar, para acelerar a desapropriação dos pobres e marginalizados, como parte das maiores maquinações de acumulação de capital. Os arquitetos deste plano precisam de um show espetacular, um dispositivo hegemônico para reconfigurar os direitos, as relações espaciais e auto-determinação da classe trabalhadora da cidade, para reconstituir para quem e para que finalidade a cidade existe. Ao contrário de qualquer outro evento, só as Olimpíadas fornecem esse tipo de oportunidade.”

Julian Cheyne, deslocado pelas Olimpíadas de Londres

Julian, que agora vive em habitação subsidiada em outra parte do Leste de Londres, e continua sua militância sobre os impactos do desenvolvimento Olímpico em Londres, ecoa este ponto de vista: “A mudança acontece, mas até que ponto isso acontece em benefício da população local, as pessoas que já vivem ali? Principalmente as pessoas pobres, os menos capazes de manter o controle das áreas onde vivem? … Lugares que são valiosos e ocupados por pessoas pobres são comprados e pobres mudam-se para partes menos salubres da cidade.”

Olhando para Londres, e de fato Pequim, Barcelona e Atlanta, é impossível sentir-se seguro sobre a hospedagem dos Jogos pelo Rio de Janeiro não replicando o mesmo modelo de deslocamento e marginalização, especialmente levando em conta o tratamento histórico das autoridades do Rio com respeito aos seus pobres. Com a revelação de que 75% do Parque Olímpico do Rio de Janeiro será vendido para interesses privados após os Jogos, e a insistência das autoridades sobre a remoção de Vila Autódromo e dezenas de outras comunidades em toda a cidade, parece que o Rio está destinado não só a repetir o seus próprios erros do passado, mas os de todas as cidades Olímpicas recentes.