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Commonwealth Games e Copa do Mundo: Política e Segurança no Brasil e na Escócia em 2014

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A Copa do Mundo no Brasil trouxe críticas, sem precedentes, sobre o modo que os megaeventos esportivos são organizados e uma examinação minuciosa sobre quem realmente é beneficiado. Embora distintos em contexto e escala, uma comparação procede entre o Commonwealth Games de 2014, iniciado ontem e este ano hospedado na Escócia, com a Copa do Mundo no Brasil e a forma como tais eventos são impregnados politicamente. O Commonwealth Games 2014 (G2014), organizado pela cidade de Glasgow, na Escócia, foi descrito por Shona Robison, o ministro de Esportes e Igualdade da Escócia, como tendo o “valor fundamental da igualdade, visando o engajamento de pessoas de todas as origens”. O evento teve início dia 23 de julho, apenas dez dias após a final da Copa do Mundo no Brasil.

A cidade-sede Glasgow, a maior cidade da Escócia e a terceira maior cidade do Reino Unido, também é amplamente conhecida por seus problemas políticos e sociais, com alto índice de criminalidade, pobreza, mortalidade, desemprego e índices de déficits em geral. Foi recentemente anunciada como a cidade mais doente do Reino Unido. Com problemas sociais evidentes e a crescente ênfase sobre o “legado” como um instrumento de justificativa para os megaeventos, há uma pressão para ambos o Brasil e a Escócia conseguir um legado sustentável. Porém as “metas” das sedes se estendem para além da realização dos eventos com sucesso e legado.

Táticas Políticas

O Commonwealth Games será realizado apenas algumas semanas antes da votação do referendo pela independência escocesa, em 18 de setembro, liderado pelo Partido Nacional Escocês (SNP). Esta é uma oportunidade única, em uma geração, para que as pessoas na Escócia tenham voz sobre o futuro do país: se eles permanecem uma parte do Reino Unido sob a autoridade do governo de coalizão do Reino Unido, ou se ramificam e tornam o Parlamento escocês responsável por todas as leis, impostos e taxas. Aqueles a favor argumentam que a independência permitiria uma constituição moderna para proteger os direitos dos cidadãos da Escócia refletindo os valores de seu povo. Os que são contra argumentam que a Escócia poderia mergulhar em uma crise financeira. Espera-se que o SNP usará o Commonwealth Games para criar uma onda de bons sentimentos de patriotismo e criar um rali pró-independência. Eles esperam que a demonstração da Escócia até os Jogos será suficiente para “ganhar” as pessoas e ganhar um “sim”, em setembro. O Ministro de Esportes e Igualdade, Shona Robison, é também um membro eleito do SNP. O investimento político no caso tem paralelos com o Brasil. A Presidente Dilma Rousseff e todos os políticos federais e estaduais de todo o Brasil estarão enfrentando eleições gerais e estaduais no dia 5 de outubro. Em aparições na imprensa durante a Copa, Dilma foi vista em alto astral com o troféu da Copa do Mundo, e seu elogio público para o ativismo do povo são claramente tentativas de resgatar sua reputação ferida. Não é apenas uma vitória esportiva que depende do bom funcionamento da Copa e do desempenho da equipe brasileira.

Policiamento e Segurança

A Escócia está testando as capacidades do seu novo sistema de policiamento centralizado, Police Scotland (Polícia da Escócia), uma das maiores políticas do Partido Nacional Escocês para economizar custos por meio da fusão das oito policias da Escócia. O novo serviço de polícia, estabelecido em abril de 2013, não tem sido isento de críticas em relação ao ano passado, com pesquisas criticando a tática “stop-and-search” (parar-e-revistar) que têm como alvo crianças a partir dos seis anos. O trabalho desacompanhado também foi condenado, agentes foram encontrados parando as pessoas como uma intervenção oficial individual, com relatos das vítimas de agressão e intimidação. Apesar de promover as melhores intenções para reduzir a criminalidade em toda a Escócia, os desenvolvimentos deixaram a população se sentindo insegura e indecisa quanto à possibilidade da Police Scotland poder construir relações com a comunidade. A Police Scotland vem se preparando para os Commonwealth Games e a segurança em massa tem sido promovida pelos meios de comunicação. Tem sido relatado que 2.000 militares estão garantindo a segurança durante o evento e 440 agentes especializados receberam a aprovação para portar armas em serviço. Esta decisão foi tomada sem qualquer consulta de antemão ao parlamento escocês, o que levou a força policial para o âmbito de uma análise mais aprofundada.

No Brasil, o aumento da militarização, a implantação de tropas e táticas repressivas controversas no tratamento da polícia aos protestos e os violentos confrontos em favelas, particularmente aquelas com Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio, são todas características dominantes da operação de segurança do megaevento atual.

A troca de conhecimento, de fato, já ocorreu entre as forças de segurança dos dois países. Em fevereiro de 2013, a equipe de pesquisa Glasgow 2014 de acadêmicos do Instituto Escocês de Pesquisa de Policiamento e do Centro Escocês de Pesquisa de Crime e Justiça organizou uma reunião de troca de pesquisa e conhecimento com um grupo de visitantes composto por sete funcionários do alto-escalão da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Os policiais foram visitar a Escócia como parte de uma “missão de informação”, a fim de informar os seus preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e as operações de segurança dos Jogos Olímpicos de 2016. O objetivo era aprender mais sobre as experiências escocesas de policiamento comunitário e os planos de policiamento para os Commonwealth Games. No entanto, com a Copa do Mundo e a véspera dos Commonwealth Games, ambos, a Police Scotland e a Polícia Militar do Rio de Janeiro estão carente da confiança do público.

Tais megaeventos esportivos são vitrines internacionais dos melhores jogadores do mundo e proporcionam diversão para os fãs de esportes em todo mundo. As considerações sobre regeneração urbana, segurança e legados agora estão frequentemente confundidas com a economia e a justificação dos megaeventos esportivos, no qual o esporte e sua fruição estão cada vez mais sombreadas por motivações políticas, repressão, injustiça social e violações dos direitos humanos. Política e táticas controversas agora são vistas globalmente andando de mãos dadas com megaeventos esportivos.  

Janine Ewen é uma pesquisadora baseada na Escócia que estuda os impactos da Copa do Mundo de 2014 sobre os profissionais do sexo do Brasil e da população em geral do Rio de Janeiro, e os impactos dos Commonwealth Games de 2014 em Glasgow, na Escócia. Em 2013, ela realizou uma pesquisa preliminar em uma favela do Rio administrando uma clínica de saúde, ensinando inglês e praticando esportes.