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Moradores e Artistas Pintam as Ruas do Complexo da Maré no 3o festival Travessias de Arte Contemporânea [SLIDESHOW]

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Moradores do Complexo da Maré, grafiteiros e visitantes pintaram as paredes da comunidade com cores vibrantes e obras de grafite no sábado, dia 11 de outubro. O evento “Tudo de Cor para Maré” faz parte do festival Travessias de Arte Contemporânea na Maré, agora em sua terceira edição. Tintas doadas pela Coral foram usadas para grafitar as paredes da comunidade em um evento que já havia acontecido anteriormente três vezes no Santa Marta.

O festival de arte Travessias comemora o encontro entre a arte visual contemporânea e espaços públicos. Organizado pelo artista Daniel Senise, o festival reuniu fotógrafos da Maré e artistas de todo o Brasil para integrar criações artísticas de vários meios de comunicação (audiovisual, pintura, instalações, fotografia e artefatos).

Arte nas ruas da Maré

O evento “Tudo de Cor para Maré” foi planejado cuidadosamente por Geisa Lino, 30 anos, moradora do Morro do Timbau e coordenadora da Lona Cultural Municipal Herbert Vianna, e foi ela que procurou os donos das casas e das lojas para pedir permissão e combinar as cores e desenhos a serem pintados.

Ao meio-dia no sábado, dia 11 de outubro, artistas se reuniram em frente ao Galpão Bela Maré, o prédio que hospeda o festival, e saíram para pintar as paredes da comunidade, sendo observados por moradores curiosos e animados. Algumas casas foram pintadas por seus proprietários, mas receberam ajuda em forma de comida, bebida e voluntários que ajudaram a pintar, assim como acontece em mutirões tradicionais nas favelas.

Depois que a tinta secou, o trabalho criativo da equipe da Nata Família, Bruno Zagri, Rafo Castro, Robson Rdoisó e Chico21 começou e só terminou no fim da tarde.

Os jovens da comunidade ajudaram com o evento.

Apreçiação dos moradores

Debora de Souza Pereira, 20 anos, nascida e criada na favela Nova Holanda estava entusiasmada com a pintura de sua casa: “[É] uma coisa bem cultural, diferente, muita gente não está acostumada com isso. A gente precisava de algo diferente”, comentou.

Jiai Rinaldo, 34 anos, dono de um bar e morador da Maré por três anos, se emocionou e listou os inúmeros benefícios que o evento trouxe à comunidade: “Esse projeto aqui é bem legal! Amplia o trabalho [dos comerciantes locais], fica um negócio mais bonito… uma semente pra comunidade. Têm que ter mais, investir mais nas artes e cultura, como teatro, mais educação, escolas para a criançada”.

Lojista Andreia Marques do Nascimento, 22 anos, nasceu no Vidigal e trabalha no Complexo da Maré. Ela disse que o evento foi uma forma da comunidade se expressar: “É uma maneira de mostrar as artes. O graffiti é um modo de se expressar… a gente se expressa na rua. Hoje em dia as pessoas não tem muito contato com as artes, e precisam ter mais”.

Anreia Marques considera o grafite uma forma de expressão.

Organizadores, artistas e apoiadores emocionados

A organizadora do evento Geisa Lino contou que organizar eventos como “Tudo de Cor Para Maré” é muito difícil: “A gente tem todas as dificuldades de trazer o público da Maré para um evento de arte contemporânea e vários acontecimentos daqui, para aqueles que não têm esse acesso, conhecimento ou formação.”

Geisa explicou como o Coletivo Maré e outros projetos da favela têm o mesmo objetivo de capacitar a comunidade a reivindicar seus próprios espaços públicos.

“O que a gente faz é potencializar, é mais uma maneira de ajudar a organizar: dizer ‘a gente está aqui para você, se apropriem desse espaço, é pra você!’ O Pontilhão Cultural, por exemplo, estava sendo utilizado pra lixo. A gente ocupou esse espaço para otimizar e potencializar, agora tem uma pista de skate e vários grafites. A gente pagou a iluminação do nosso bolso, e agora podemos ir lá a toda hora”.

Ela também estava muito entusiasmada com a força artística da Maré.

“Maré é um lugar rico de cultura e de arte. A gente tem pintor, galera da arte urbana, coletivos gigantescos que pintam a cidade inteira inclusive a Maré. Existem várias vertentes, não é só funk, são várias linguagens, é um polo de criação. Tem um núcleo de fotógrafos que são os mais incríveis. Imagens do Povo, [são] monstros, que estão fazendo trabalhos no mundo inteiro. A companhia de teatro, Companhia Marginal, que já existe há mais de 10 anos, composta por jovens que receberam vários prêmios e circulações”.

Apesar de toda produção artística já existente na Maré, Geisa quer mais.

“O que falta, claramente, são mais incentivos. Já melhorou muito, têm mais oportunidades, tipo Travessias. Queria que o espaço se mantivesse sempre ativo, que não seja só uma vez ou duas por ano, mas cada vez mais ações acontecendo”.

Geisa Lino organizou o evento.

Alberto Aleixo de Souza, 46 anos, organizador do movimento A Maré Que Queremos e morador da Nova Holanda há 34 anos, aplaudiu o evento.

“Dar um pouco de cor, um pouco de vida… trazer de fora do espaço [da Travessias] pras ruas, cortar a distância entre pessoas e arte, e deixar a comunidade mais bonita que antes. Tem muito estigma sobre favelas, quem não frequenta acha que é só um lugar de violência e tiros!”

Alberto acredita que a arte pode ser usada para acabar com o estigma da favela, assim como para prevenir a guetização dela.

“Tem que trazer pessoas pra dentro, mostrar: olha, tem outras relações acontecendo aqui! E quem tá aqui também, está muito viciado nesse cotidiano. tem que levar pra exercitar o olhar pra outras coisas, outro tipo de exercício”.

Alberto promove a comunicação e os benefícios mútuos do encontro do morro com asfalto. Ele concluiu: “Não tem que ser aquela coisa de gueto aqui: tem que trocar”.

Leonardo Rack é grafiteiro.

Leonardo Rach, 25 anos, grafiteiro e morador do Baixo do Sapateiro na Maré, estava animado em contribuir com o evento, pois ele ama sua comunidade: “A Geisa me chamou, ela perguntou se eu queria participar, e eu disse: ‘Para a minha comunidade? Com certeza, pô! Um morador que não quer participar? A favela fica mais bonita e traz outra cultura para as crianças, outro saber”.

Leonardo falou sobre as oficinas de grafite que fazem parte do festival de arte Travessias.

“As vezes tu vai pintar nas outras favelas, comunidades diferentes, se vê criança com sede de consumir outra cultura. Aqui já tem um montão de artistas, de todos os tipos. Têm muitos migrantes nordestinos, por exemplo, então já está inserido o artesanato na nossa cultura local. Aí rola muito de fazer associação [de culturas]”.

Alberto de Souza adorou o evento.

Travessias 1, 2, 3 e mais no futuro

Travessias, um projeto do Observatório de Favelas, alcançou sua terceira edição com muitos sucessos ao longo do caminho. A segunda edição estreiou com obras de Vik Muniz e foi bem vista pela imprensa. A terceira edição, que inaugurou no dia 23 de agosto e vai até o dia 16 de novembro, apresenta uma exibição de trabalhos feitos por artistas brasileiros contemporâneos e fotógrafos do coletivo Imagéns do Povo.

Além das oficinas em andamento e projetos em arquitetura, design gráfico, estêncil e graffiti, Travessias 3 também promove debates como “Quando as cidades ficam prontas?” que acontecerá no sábado, dia 1º de novembro, no qual o assunto dos modelos urbanos no contexto social e de transformações econômicas no Rio será discutido. Outra pergunta que será debatida no festival é “As estéticas da periferia são centrais para a cultura contemporânea?” que acontecerá no sábado, dia 15 de novembro, e que discutirá a importância das culturas negras e ‘alternativas’ na estética da arte contemporânea.

Travessias 3 é mais do que um festival de arte: é um local para diálogos, para circulação democrática de informações e novas formas de pensar no Complexo da Maré. Sem barreiras territoriais ou sociais, Travessias trata a favela como uma referência artística onde a mobilização e criação é possível.

Travessias 3 acontecerá até 16 de novembro, Para mais informações e a programação completa, acesse o site oficial do Travessias 3

Veja o album na íntegra abaixo ou clique aqui para vê-lo no Flickr:


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