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SOS Museu da Maré: Vozes Contra a Remoção [SLIDESHOW]

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Após sete anos fornecendo um espaço aclamado de preservação histórica, de cultura e arte no Complexo da Maré, o Museu da Maré está marcado para ser despejado, e têm 90 dias para desocupar o prédio onde fica. Leia a primeira matéria desta série de duas, aqui.

Existem quatro petições contra o despejo: três online (nos sites Panela de Pressão do Meu Rio, Petição PúblicaAvaaz.org); e uma em papel, assim como um grupo de pressão por correspondência. Além dessas ações, houve uma passeata que começou no Museu da Maré no dia 18 de outubro e bloqueou a Avenida Brasil, a avenida mais próxima.

O RioOnWatch visitou o museu para documentar a importância e o impacto que ele tem na comunidade. Os depoimentos que seguem são de moradores, curadores, colaboradores e visitantes do museu.

Ana Carolina Geronimo, 21, estudante de história na UFRJ, tem colaborado com a universidade oferecendo bolsas de estudo à professores principiantes (PIBID) e com o Museu da Maré no planejamento de atividades com universitários e professores:

“Achei um museu muito diferenciado, me surpreendeu bastante. Eu que não morro aqui, achei uma realidade completamente diferente. Você vem aqui tendo uma visão. Conversando com os moradores você acaba tendo uma visão completamente diferente. Eu acho o Museu da Maré importante exatamente por retratar a história de pessoas que realmente moram na cidade do Rio de Janeiro, e que realmente fazem parte da história do Rio de Janeiro de alguma forma.”

Sylan Anderson, 30, trabalha no Museu há sete anos. Ele começou a trabalhar como professor de dança contemporânea e agora coordena as oficinas culturais. Sylan expressou sua decepção com a notícia, logo quando o Museu estava revitalizando e re-ocupando espaços:

“A gente na verdade não sabe o real motivo pelo qual eles querem o espaço de volta. Pessoalmente, dá aquela sensação de incerteza, de não saber o que vai acontecer. Mas de fato tem que continuar funcionando, por que os projetos não podem parar. E aí gera uma tensão, uma mistura de tensão e calma, que é preciso para continuar a resistir. O museu é a casa da comunidade da Maré, as pessoas têm isso como referência para as vidas, para a preservação de memórias.”

Elisabette do Espirito Santo, 52, nascida e criada no Morro do Timbau na Maré, é frequente visitante do Museu:

“Eu frequento aqui, faço Zumba. Agora vim aqui para pesquisar. Eu colaboro com o abaixo-assinado, levando para outros lugares. Ponho no email, no Facebook. Compartilho com amigos, colegas, professores, está tudo compartilhado! O museu não é só importante para a comunidade, é para a cidade toda! Isso aqui é um ponto de referência, isso aqui é um patrimônio! É um futuro para nossos filhos, netos, bisnetos…”

Alan Silva, 19, e Linique Oliveira, 17, estudantes, são da Vila do Pinheiro na Maré. Eles ganharam uma bolsa de estudos de 18 meses para estudar a história do Brasil, do Rio de Janeiro e das favelas:

Alan: “O museu conta todas as histórias de vidas de todos os moradores da Maré: no passado, e o que acontece hoje também. Acontecem muitas coisas aqui, projetos, oficinas… Se tirar, remover isso daqui, vão tirar um grande pedaço da gente!”

Linique: “Todas as dificuldades que os moradores passaram para botar a favela do jeito que hoje está… É importante que tenha os projetos para crianças aqui.”

Felipe Abrahão Monteiro, 26, começou a trabalhar como voluntário no museu no ano passado e agora trabalha no departamento de comunicações. Felipe diz que não houve espaço para diálogo e negociações, ou mesmo explicações para a remoção:

“Achamos que seja por causa da especulação imobiliária, e da UPP, que está passando na Maré. Vai ter uma valorização do setor. O museu não é apenas um museu, não é só uma exposição! Tem biblioteca, tem artesanato, têm oficinas, grupo de teatro, têm programas educativos.”

Serji, 26, e Marcelo Naz de Lima, 27, são do nordeste do Brasil e moram no Morro do Timbau há 14 anos:

Serji: “[O Museu é] um foco de resistência, construído não só por uma pessoa, mas da parte toda da Maré”.

Marcelo: “É a nossa cultura, a nossa cara, nossa casa. Eles querem tiram nossa cultura da Maré”.

Carlos Henrique Paulo, 15, foi nascido e criado no Morro do Timbau:

“A gente aqui treina. A gente não pode abandonar o museu, senão acaba com a capoeira e para treinar fica difícil. A nossa apresentação foi para mostrar que o museu significa muito para a gente: se não tiver museu, a gente não estaria aqui!”

Markito, 50, é arquiteto e curador. Nascido em Minas Gerais, ele veio estudar no Rio e se envolveu na criação do Museu:

“[O Museu da Maré] provoca uma conexão com todo mundo: todo mundo já foi criança, todo mundo jogou na rua… todo mundo tem lembranças. E todo mundo tem essas origens, que muitas vezes infelizmente tem vergonha de mostrar. O Museu conta uma história que é da maioria, os pobres que são a maioria do Brasil. É especial porque não é outro alguém que conta, somos nós que contamos.”

Fatima, 48, é psicóloga e trabalha na parte educacional do Museu:

“[O Museu] quebra a naturalização da pobreza, mostra que essa pobreza ela é construída, e dentro dessa construção existem pessoas muitos capazes. Esse espaço ficou abandonado. Foi de um bom uso para o museu, mas também para os donos, por a gente ter cuidado.

“Chama a atenção nesse momento os discursos da pacificação e ocupação das favelas. Com os discursos vigentes sobre questão social, eles pensam em tirar o museu–um centro cultural [que é] um bem para a sociedade. Não tem um dono: é da favela, para a favela.”

Marcelo, 47, nasceu no Morro do Timbau e é professor de arte e co-fundador do Museu:

“Na década de 80 uma equipe foi organizada para filmar o cotidiano, documentar as histórias e experiências dos mais velhos, a primeira geração de pescadores. Acabaram que temas comuns e histórias ficaram se repetindo e depois de muitas pesquisas nos arquivos, discussões e debates, acabamos montando o projeto do museu.”

“Mesmo agora fico pensando o que é que [a gente] poderia fazer no futuro… Têm muitos objetos, o material tá aí, esperando novas exposições.”

Isabella do Nascimento, 18, é estudante do Baixo do Sapateiro:

“É um lugar cheio de cultura. A história que é uma parte de nós, de cada morador. E também têm cursos, as oportunidades que eles dão. Eles não podem tirar o museu agora! A nossa história tá aqui, mesmo se um dia sair daqui, [o Museu da Maré] sempre vai tá com a gente toda vida!”

Essa é a segunda de duas matérias sobre a resistência do Museu da Maré. Leia a primeira, sobre a história e importância do Museu, aqui.

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