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Aulas de Dança–Não Convencionais e Inspiradoras–Empoderam Mulheres em Rio das Pedras

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“As mulheres aqui são guerreiras”, dizem inúmeros moradores de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio. A aula de dança de Flavio Moraes é um dos poucos espaços onde as mulheres podem ser reconhecidas simplesmente como mulheres. Duas vezes por semana mais de 30 mulheres ocupam uma sala da Start Academia para receberem muito mais que um treino: elas ganham auto-empoderamento e a solidariedade de outras mulheres.

Flávio, morador da favela vizinha, Cidade de Deus, conduz aulas de dança há mais de 32 anos. Com três anos de idade, Flávio foi matriculado em aulas de teatro e balé. Seguiu uma carreira como bailarino clássico e ator profissional. Seu trabalho com balé e teatro, os quais ele continua até hoje, levou Flávio a dar aulas de dança em uma academia em Rio das Pedras, uma das maiores favelas do Rio, e na Freguesia, um bairro da classe média na Zona Oeste.

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O trabalho de Flávio com a dança, como forma de empoderamento feminino, começou quando percebeu a obsessão das academias com a ideia de perder peso.”Eu comecei a perceber que dentro das academias existe um machismo muito grande dos próprios profissionais”, explica ele. Flávio percebeu que frases comuns ouvidas nas academias, como “o verão está aí” e “você tem que estar gostosa”, podem impedir uma mulher de aceitar a si mesma se ela estiver fora dos padrões de beleza e desejabilidade impostos pelos homens.

Em vez disso, as aulas de Flávio tornaram-se uma forma de terapia de grupo. Dentre às mulheres que frequentam suas aulas, Flávio diz: “Há muitas mulheres que são vítimas de violência doméstica, e outras mulheres que não são vitimas de violência doméstica, mas são escravas do trabalho doméstico, trabalham fora e ainda têm que cuidar de filhos e de marido”. As mulheres se identificam com as histórias umas das outra criando um vínculo, como parte de um mesmo grupo social. Desta forma “as aulas começaram a romper as barreiras de uma aula de dança”.

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“Eu acho que as vezes os profissionais na academia esquecem que somos nós que temos que ser instrumentos de mudança dessas pessoas”, diz Flávio, que acredita no uso do seu espaço de professor de dança como uma oportunidade para a educação. Ao trazer textos para a aula e divulgar mensagens de autoconfiança, Flávio espera que aqueles que assistem a sua aula “aprendam a se respeitar, aprendam a respeitar sua liberdade”. Ele diz, “uma coisa que eu sempre falo para elas quando acabo a aula: ‘Você tem que se amar mais que qualquer pessoa'”.

As roupas que ele usa e a escolha estratégica da música fazem parte do trabalho para fazer as mulheres sentirem-se seguras e capazes de se soltar dentro de cada aula. Muitas vezes ele se maquia, usa salto e vestido curto para fazer os olhos se voltarem para ele, em vez de caírem sobre quaisquer movimentos de dança errados das suas alunas. Com relação à música, Flávio declara: “Eu só alongo com música brasileira, por que quando ela está se alongando ela pensa: ‘Eu me identifico com isso'”. Flávio evita funk e pagode nas aulas, que muitas vezes têm “letras que soam machistas“.

A moradora de Rio das Pedras e participante das aulas, Jeanne Brandão da Cruz, diz que a aula do Flávio é mais do que apenas um exercício para ela: “Eu vou, por muitas razões, uma delas é pelo exercício, mas é também para liberar a energia e porque a aula tem uma energia tão positiva. Depois das aulas, eu me sinto aliviada. Eu saio me sentindo mais extrovertida, e eu não consigo parar de falar sobre a aula dele, pois é tão boa”, diz ela.

Seus alunos não são os únicos a se beneficiarem das suas aulas, Flávio mesmo diz: “A cada aula que eu vejo as meninas, eu vou conhecendo lados do Flávio que eu não conhecia, que estavam adormecidos, ou que não existiam, ou que passaram a existir através delas”. Ele diz que é através de suas alunas que ele está constantemente reaprendendo a respeitar as mulheres, a valorizá-las. Deste modo, ele permiti que elas moldem o curso de suas aulas.

As aulas de dança de Flávio ultrapassam a ideia de que o empoderamento feminino só ocorre em espaços formais. Quando cada aula termina com a mensagem de que “ninguém pode te amar mais do que você a si mesma”, faz com que as mulheres deixam a academia todos os dias sentindo-se confiantes. “Esta mensagem, talvez, não chegaria a essas mulheres, se não fosse compartilhada por meio da academia, todos os dias na comunidade Rio das Pedras. Aqui, as pessoas têm solidariedade, aqui as pessoas se tornam mais humanos”, resume Flávio.

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