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Famílias da Chácara do Algodão no Horto Lutam pelo Futuro Lembrando do Seu Passado

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Originalmente construída como uma vila operária para os trabalhadores da fábrica local, de tecido, a Chácara do Algodão é uma pequena comunidade com uma longa história entrelaçada com a ascensão da indústria têxtil brasileira, localizada no bairro do Horto, na Zona Sul do Rio.

Os primeiros moinhos de algodão foram inaugurados no Brasil por volta de 1845, e cresceram rapidamente, o que mais tarde transformou-se na indústria têxtil, um dos bens mais importantes do país até o século XX. Segundo o historiador Stanley J. Stein, a indústria têxtil de algodão foi a grande responsável por alavancar a industrialização do Brasil e de aliviar a dependência do país da exportação de matéria bruta. A fábrica de tecidos Companhia América Fabril foi uma das principais protagonistas desta história. Em 1915, talvez no auge de suas operações, a empresa empregava 3.100 trabalhadores, tinha 2.170 teares e 85.205 fusos em quatro fábricas. Foi a maior empresa têxtil do Rio de Janeiro na época e, em determinado momento, a maior do Brasil. A fábrica foi fundada com um nome diferente em 1878 (quando o Rio era a capital do Império do Brasil) em Magé, um município do Grande Rio, e ficou conhecida como América Fabril após a fusão com outra grande fábrica.

Após a declaração da independência do Brasil, o governo da República Velha procurou estimular a industrialização. Beneficiando-se das políticas promulgadas sob a orientação do ministro das finanças Ruy Barbosa, a América Fabril cresceu rapidamente e acabou adquirindo uma fábrica no Horto, a Fábrica Carioca, em 1920. Situada onde hoje está a Rede Globo, a fábrica recebeu licença para construir em terras federais em 1889, na esperança de que a indústria estimulasse a economia e atraísse trabalhadores para o Brasil. Um desses trabalhadores era o avô de Maria da Glória Alves, que continua morando na comunidade da Chácara do Algodão.

“Eu tive uma infância sadia, aqui tinha tudo. Tinha cinema ao ar livre, tinha futebol. O colégio era aqui mesmo. A gente brincava dia e noite, aqui na rua. No carnaval, tinha o Bloco da Fábrica. No Natal, todas as crianças saíam com brinquedo, uma roupa. Minha criação foi aqui dentro junto com as famílias que aqui tinham. Aqui eram todas ‘tia’, éramos amigos uns dos outros. Na época, uma casa só tinha televisão, e eles chamavam a gente para aquela pipocada. Era uma família”, Glória relembra.

Glória se referia à vila operária, a moradia de trabalhadores que atraía pessoas de toda a região e do mundo para trabalhar na fábrica. Não foi a única vila operária na área; várias outras instituições, inclusive o próprio Jardim Botânico, criaram moradias para seus funcionários. A vila operária da América Fabril no Horto ficou conhecida como Chácara do Algodão. Como disse Glória, a Chácara do Algodão tinha tudo que uma comunidade pode precisar: uma escola, um clube esportivo, áreas de lazer, eventos e festas—como a famosa festa de carnaval. O avô de Glória, mãe, tia e outros membros da família trabalhavam na fábrica; foi realmente uma experiência familiar.

No entanto, uma crise atingiu a indústria têxtil no início dos anos 1960 e a fábrica no Horto foi fechada logo em seguida, em 1962. Na tentativa de salvar a empresa, o Banco Central do Brasil (BCB) transferiu fundos para um banco de investimento, que depois investiu na empresa. No entanto, a tentativa falhou e o controle dos ativos da empresa foi entregue ao banco. Enquanto a empresa tecnicamente ainda existia, grande parte da terra foi vendida para a Rede Globo, enquanto os ex-empregados foram deixados em suas casas.

Negócio Sujo

Por um tempo, a vida continuou. Os trabalhadores encontraram novos empregos; a mãe de Glória continuou na América Fabril na fábrica da Tijuca, na Zona Norte. A prefeitura do Rio de Janeiro chegou a aprovar o Decreto Municipal 7313, em 1987, autorizando a preservação cultural da vila operária da Chácara do Algodão, citando sua importância para a história da cidade e para aquelas famílias que precisam de moradia a preços acessíveis.

Pouco depois, no entanto, a América Fabril começou a pressionar os moradores a sair apesar do decreto municipal. Em resposta, a comunidade entrou com uma ação federal para iniciar um processo de titulação coletiva das terras, que começou em 1989. Enquanto a ordem de remoção foi interrompida, a empresa tentou dividir a comunidade, processando cada família separadamente em tribunais estaduais em 2001 por negligenciar o pagamento do aluguel. Então veio a cortina de fumaça que alteraria para sempre a composição da comunidade.

A América Fabril contratou um advogado para convencer membros individuais das famílias a venderem suas casas ou comprá-las “oficialmente”, desistindo de sua participação na ação federal de titulação coletiva das terras. As casas foram posteriormente revendidas a um custo muito mais alto, plausivelmente em um esforço para pagar as dívidas da América Fabril ao Banco Central. “Ela [a fábrica] fez uma cortina de fumaça para que a gente não visse que era uma ação coletiva, individualizou, criminalizou a ação [da titulação das terras] para poder fazer esse tipo de coisa. Essas terras foram cedidas a América Fabril com a finalidade de fazer um bem social, para montar uma fábrica, o que abrangia a mão de obra qualificada [que veio] para cá… Cediam a casa e a pessoa morava ao lado. Mas o governo quando cedeu, cedeu para fins sociais—não para fins especulativos. Eles pegaram e fizeram especulação em cima da terra da União. Eles pegaram, lotearam, e venderam tudo que não era deles. Essas terras foram dadas a fins de gerar imposto para o governo, emprego—todas essas coisas—para uma finalidade social”, afirmou Jorge Alves, morador de longa data.

Antes do processo judicial movido pela América Fabril, só era cobrado aos moradores uma pequena taxa pela manutenção da comunidade, e que eles pararam de pagar uma vez que a fábrica fechou. Segundo moradores, a empresa usou esses recibos alegando que eram pagamentos de aluguel e que os moradores haviam parado de pagar. Em seguida, a empresa contratou um advogado particular para intimidar moradores a venderem ou comprarem suas casas para evitar novas ações judiciais, desistindo assim de sua participação na ação federal de titulação coletiva das terras.

A venda da terra onde a comunidade está localizada—originalmente cedida à fábrica com o propósito de desenvolver moradia para trabalhadores—aos maiores licitantes, a fim de saldar as dívidas de uma empresa privada falida, contraria diretamente as Cláusulas 22 e 23 do Artigo 5 da Constituição Brasileira, que estabelece que a terra deve ter uma função social. Os moradores lembram que as ações restantes foram decididas muito rapidamente, com a maioria perdendo, incluindo a família Alves. Só quando os defensores públicos do Núcleo de Terras e Habitação (NUTH) entraram com uma petição para suspender as ações, até que a ação federal de titulação coletiva das terras fosse decidida, que as coisas se acalmaram.

Muito dano já havia sido feito, todavia. A comunidade de 200 famílias foi reduzida a 23. Algumas famílias “compraram” o direito de suas casas e terras, mas simultaneamente desistiram de seu lugar na ação federal de titulação de terras. Outros venderam por frações de seu valor. Enquanto a comunidade ainda está intacta, agora é uma pequena colcha de retalhos das famílias originais que continuam a resistir. O líder comunitário João Paulo Barbosa Alves afirmou: “A gente parte de uma herança do Pereira Passos [instigador da renovação urbana do início do século XX] que não acabou. Ela permanece, essa herança de remoção. Essa herança onde o pobre, o mestiço, o negro, o indígena, o italiano operário, não pode ter direito a morar no Horto. Aqui está acontecendo a reciclagem de remoções que existe dentro do Rio de Janeiro. Territorialmente falando a gente mora num lugar privilegiado, mas financeiramente falando, nossa família não tem esse privilégio”.

Gentrificação

Outro tema importante vem à tona quando se estuda o caso da comunidade da Chácara do Algodão: gentrificação. Por que tentar avançar quando há tantas brechas na ação do governo federal para a remoção? Luiz Claudio Barbosa Alves, um líder comunitário, respondeu: “Eu entendo que isto está relacionado com separar os pobres da Zona Sul. Houve até mesmo um discurso de um juiz, na hora que a defensora pública foi levar para ele a petição de suspensão, em que ele falou, ‘eu sou juiz e não posso morar lá, eles querem morar lá por que?’ Para mim, fica bem explícito quanto que vale essa terra e como a gente não conseguiu superar historicamente essa disputa de classe, com a questão racial também”.

De fato, a gentrificação na área é visível a partir do momento em que se chega. Como Luiz Claudio Alves e seu irmão João Paulo explicam, toda a área costumava ser conhecida como Horto quando éramos mais jovens. O mapa abaixo, extraído do Jornal Vozes do Horto, mostra a extensão histórica do bairro; o número catorze mostra a Chácara do Algodão. De forma lenta, mas constante, o bairro nobre do Jardim Botânico vai crescendo, destruindo o Horto, que já foi considerado como abrangendo toda a área. Casas de celebridades podem ser vistas nas colinas à espreita da comunidade. Enquanto as 23 famílias que resistem são legalmente proibidas de fazer mudanças em suas casas devido ao decreto do patrimônio cultural, o resto da comunidade parece recém-pintado e abriga novas lojas e boutiques. Os irmãos Alves agora dizem que moram no Horto e no Jardim Botânico, dependendo de quem pergunta. Embora a gentrificação da área seja altamente visível, o processo que ela envolve não se limita simplesmente à estética.

“Um pão francês aqui é R$1. Então, a remoção branca vem desde aí. Você está dentro da bolha da Zona Sul, onde cada vez mais a vida fica muito cara. Você não tem condições sociais para romper com isso, mas a vida continua ficando cara. Isso é remoção branca, você não sente. A especulação está levando a consumação, elevando o custo de vida e o salário não acompanha. Para ter uma referência, eu sou o primeiro com ensino superior e meu irmão o primeiro na faculdade pública. Então, você caminha com uma estrutura de poder que não te dá acesso a trabalhos qualificados onde você recebe para poder pagar R$1 por um pão”, afirmou Luiz Claudio.

Avançar por Olhar para Trás 

A família Alves não está desistindo sem lutar. Jorge brincou: “Eles vão perturbar até o final, mas nada impede da gente lutar por nossos direitos até o final, porque é um direito constitucional”. A família Alves acredita que a comunidade da Chácara do Algodão é especial e que sua história merece ser lembrada, contada e preservada. De fato, no decreto original que declara a Chácara do Algodão uma área de preservação histórica, nota-se que a comunidade serve como um registro valioso da história da cidade do Rio de Janeiro.


Agora em sua quinta geração, a família Alves está se empenhando para mobilizar a comunidade e educar as pessoas sobre a história das vilas operárias. A Chácara do Algodão traz as marcas do trabalho árduo para construir a nação, uma comunidade construída em torno da família. Como Glória lembrou: “Eu sempre morei aqui, 61 anos morando aqui. Aqui foi o lugar onde eu nasci, onde eu casei, onde eu tive minhas filhas, meus netos, e minha bisneta”.

O avô de Glória morreu em um acidente durante o trabalho. Ele deu sua vida servindo seu país, a companhia e a família. Sua memória—e a de inúmeros outros—vive nas ruas e casas da Chácara do Algodão. Por enquanto, os moradores aguardam a decisão da ação federal de titulação coletiva das terras, que, dependendo do resultado, poderia potencialmente estabelecer um precedente significativo como uma vitória dos direitos à moradia ou desarraigar 23 famílias multigeracionais trabalhadoras. Enquanto isso, os moradores estão se organizando, na esperança de mostrar a verdadeira importância de preservar a comunidade. Como João Paulo refletiu: “Muitas pessoas passaram por essa casa, muitos familiares que lutaram para eu estar aqui hoje. Eu acho que a luta mais importante para mim, nesse momento, é conseguir unificar e tentar entender o que é uma vila operária, e o que está em jogo aqui. Para mim, tem a questão da moradia, mas tem uma questão cultural nessa rua e nas outras ruas. É uma luta por moradia, mas é uma luta pela preservação da raiz. Hoje eu luto por uma raiz que é da minha família. Eu não posso falar da minha vida sem [reconhecer] essa casa”.